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‘Pirandello’: Albano Jerónimo morreu três vezes

De 12 de março a 4 de abril, o Teatro Nacional D. Maria II apresenta a peça Pirandello. Com direção de Jorge Andrade e cenografia e figurinos de José Capela, esta é uma peça produzida pela mala voadora e tem interpretações de atores como Albano Jerónimo, Custódia Gallego ou Anabela Almeida.

No início, tudo parece demasiado melancólico. Afinal, a peça começa com um funeral. Quem nos diz quem morreu é Albano Jerónimo. Sim, Albano Jerónimo, não é engano. É ele quem vai morrer durante três vezes ao longo da peça e é ele quem o diz. Confusos? Essa é a intenção. Pirandello é uma peça que desafia a monotonia da realidade e procura questionar a construção da identidade. Por isso, inclui o nome dos atores nas suas personagens.

Voltando ao funeral, a infelicidade vivida  desvanece-se, afinal a vida continua. Todas as personagens se conhecem e mantêm ligações entre si. Há uma família em decadência após a morte do seu patriarca e que foi usurpada por um gestor que não consegue ter filhos. Depois há também uma mãe que tenta casar uma filha por dinheiro. No fundo, há uma sociedade que se tenta desenrascar e sobreviver pelos meios mais fáceis.

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Toda a peça é composta por intrigas de amor, manipulação mascarada de boa vontade, personagens que engravidam por interesse e um morto que está vivo. Esse morto é Albano Jerónimo, que após ter sido dado como desaparecido decide ser livre criando outra identidade. Mas será que consegue? No início, essa realidade parece possível, o novo Albano viaja, tem dinheiro, mas tudo não passa de uma ilusão. À medida que a mentira se estende a realidade parece aproximar-se. Há situações em que é necessário o recurso da polícia e o registo civil, mas esta nova pessoa não pode utilizar estes meios, pois não tem identidade.

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À frente do projeto estão Jorge Andrade e José Capela da mala voadora. Ambos consideram que este espetáculo está na linha do trabalho que têm desenvolvido na companhia. Questionados sobre o facto de os atores manterem os seus nomes na peça, Jorge Andrade responde: “Queríamos desde o início assumir a mentira.”  A intenção dos criadores era assumir o jogo teatral entre a realidade que o próprio espetador conhece, como o nome dos atores (alguns deles bem conhecidos), e a história adaptada a partir do livro de Pirandello, O Falecido Mattia Pascal.

O livro foi o ponto de partida, mas não condicionou a criação de algo novo. Para Jorge Andrade, o maior desafio foi mesmo saber o que manter e retirar da história. O romance de Pirandello é sobre a monótona vida de um arquivista, que vive atormentado pela sua sogra e por credores. A peça é algo diferente, mas o jogo teatral bem característico de Pirandello é conservado. Jorge Andrade fala de um pessimismo existente no livro que não lhe interessava. “Queríamos mais festejar a possibilidade de ilusão, do que existir esse balde de água fria de quando a pessoa está a viver essa ilusão para voltar à realidade”, afirma o diretor.

De facto, Pirandello é uma festa da ilusão e do teatro. Os elementos cénicos ajudam a esta festa. Os cenários vão-se tri-dimensionando com o agravamento da mentira e da possibilidade de ilusão. O movimento energético dos atores em palco torna a peça dinâmica. A par dos figurinos de José Capela, que acentuam um caráter divertido e ilusório. Estes dois elementos concebem uma desconstrução teatral e lançam o público numa autêntica questão do quem é quem ao longo da peça.

A partir de: O Falecido Mattia Pascal de Luigi Pirandello
Dramaturgia:  Jorge Andrade com David Cabecinha, Fernando Villas-Boas
Direção :Jorge Andrade
Cenografia: José Capela com edição de imagem de António MV e José Carlos Duarte
Figurinos: José Capela
Desenho de luz: João d’Almeida
Banda sonora: Rui Lima e Sérgio Martins com a participação de alunos da Escola de Música do Conservatório Nacional
Cabelos: Carla Henriques
Interpretação: Albano Jerónimo, Anabela Almeida, Custódia Gallego, David Cabecinha, David Pereira Bastos, Marco Paiva, Maria Ana Filipe, Mónica Garnel, Tânia Alves e Joana Costa Santos
Produção: mala voadora Manuel Poças e Joana Costa Santos
Assessoria gestão/programação: mala voadora Vânia Rodrigues
Coprodução: TNDM II, Mala Voadora

Fotografias de João Patrício