É com um grande elenco que o mais recente thriller estreia em Portugal. Antes de Adormecer deixa muito a desejar mas, pelo menos, rapidamente nos sairá da memória depois do seu final.

Christine Lucas sofre de uma rara doença: todos os dias quando vai para a cama, esquece-se de tudo o que aconteceu nas últimas 24 horas. Assim tem sido nos últimos anos desde que sofreu um grave acidente de carro. O seu marido Ben vai lembrando-a todos os dias do que se passa até que um dia ela entra em contacto com Dr. Nasch, que a vai ajudar a recordar o que realmente aconteceu no passado.

O que se segue são uns intermináveis 90 minutos que se arrastam de tal forma que o filme parece nem começar. Se ver uma mulher a acordar todos os dias esquecida das coisas e a relembrar-se delas através de um diário digital numa câmara de filmar parece repetitivo, esperem até ver o resultado final deste Antes de Adormecer. Pouco ou nada acontece, e o que acontece, pouco ou nada surpreende, já que a conceção de plot twist de Rowan Joffe está ao nível de a de uma telenovela daquelas que preenchem o horário nobre.

Surpresa das surpresas, Ben não é quem aparenta ser e afinal não foi um acidente de viação que fez com que a nossa personagem principal perdesse a memória. Isto está mais que patente logo na sinopse e nos minutos iniciais de Antes de Adormecer, mas até isso ser oficialmente revelado ainda é preciso ver Christine adormecer e acordar mais vezes que o necessário. Por outras palavras: isto significa que quem se aventurar pelo filme se irá deparar com uma narrativa aborrecida escrita por um argumentista armado em chico esperto que pensa conseguir estar sempre um passo à frente do público, quando na verdade este já vai adivinhando desde cedo o desfecho da história.

O filme resume-se assim a uma série de não-acontecimentos. Joffe passa grande parte do tempo a lançar os seus dados, apresentando uma nova personagem aqui e indo avivar a memória de Christine acolá (nem que isto signifique tirar todo o sentido a uma cena anterior), mas quando finalmente começa a arrancar com a história, já esta está prestes a terminar e os créditos finais em poucos minutos começam a rolar, sem não antes dar lugar a um happy ending que mais parece fazer troça da inteligência e da paciência do espectador.

Consequência de toda esta má execução, o suposto thriller presente em Antes de Adormecer dissipa-se rapidamente. Não se criam momentos de tensão, não cresce nenhum nervoso miudinho em nós e o nosso interesse pela história e pelas suas insípidas personagens acaba por também desaparecer rapidamente. E se por momentos parece que finalmente vamos atingir o clímax do filme e que vamos por fim testemunhar um ponto alto na narrativa… lá temos que nos ir deitar na cama com Christine para voltar a ter que construir (e a lembrar) tudo de início no dia seguinte. Aliás, se forem ver a definição de anticlímax num dicionário ilustrado, é o cartaz desta fita que irão encontrar.

Até o elenco parece ter consciência de que se foram meter no filme errado. Colin Firth está irreconhecível, totalmente desinspirado e vazio, especialmente tendo em conta que ainda há quatro anos ganhava o Oscar de Melhor Ator. Já Nicole Kidman, no meio de tanto ofegar e choro, pouco ou nada oferece à sua personagem, cuja pobreza muito dificilmente seria recompensada. A verdade é que os dois atores, no meio de tanta mediocridade, acabam por ser os melhores aspetos da obra, o que revela o quão desenxabido é Antes de Adormecer.

Desenxabido ao ponto de tirarmos duas conclusões. A primeira é que de todos os thrillers que passaram, passam e passarão pelo nosso cartaz, Antes de Adormecer é o menos interessante e aquele que mais desonra o género. A segunda é bem mais simples: não é preciso uma noite de sono quanto mais amnésia para nos esquecermos do filme… o nosso bom senso tratará de o fazer.

2/10

Ficha Técnica

Título: Before I Go To Sleep

Realizador: Rowan Joffe

Argumento: Rowan Joffe adaptado do livro de S.J. Watson

Elenco: Nicole Kidman, Colin Firth, Mark Strong

Género: Thriller

Duração: 92 minutos