Em 2012, o Espalha-Factos falou com eles pela primeira vez. Tinham acabado de lançar o seu primeiro álbum e o seu single tinha sido considerado um hit de verão. Afinal de contas, parece que os Salto não deixaram cair nada. Prova disso é o percurso que têm feito até agora. Gui Tomé Ribeiro e Luís Montenegro são a base dos Salto. Tito Romão e Filipe Louro juntaram-se agora aos primos e é com quatro elementos que agora apresentam o seu novo álbum. Durante a sua primeira tour enquanto banda, os Salto tiram um tempo na sua preenchida agenda e falaram-nos sobre este Mar Inteiro que têm vindo a apresentar.

EF: Da ultima vez que estivemos juntos os Salto tinham juntado o Tito à banda há pouquíssimo tempo. Agora já são quatro. De onde saltou o Filipe?

Gui Tomé Ribeiro: O Filipe tirou o curso connosco e somos muito amigos há muitos anos. O Filipe sempre andou connosco na mesma turma e do Tito, já sabes, amigo de há anos e sempre houve vontade de tocarmos juntos. O Filipe entrou agora há uns meses, o Tito também reentrou, que esteve para Londres e foi isso. Os Salto são quatro, um grupo de amigos e nada mais. Não é nada de contratar mais duas pessoas para ao vivo resultar melhor… por acaso resulta melhor, mas não é de todo uma coisa forçada.

EF: A entrada de um novo elemento, obrigou a alguma alteração?

GTR: O Luís deixa de fazer uma série de coisas e foca-se numa série de coisas menores, deixando de fazer tanta coisa tão importante. Agora é assim: o Luís toca teclado, samples e canta; eu canto e toco guitarra e samples, o Filipe como toca baixo e também canta qualquer coisa, o que retira logo menos uma função ao Luís e ao Tito bateria. Muda também o concerto, porque quatro pessoas a fazer música é muito diferente. Tal como quatro pessoas a compor música é diferente. É mais fixe, é mais orgânico e não é um Salto tão pop e programado como era o primeiro álbum.

EF: Sentem-se mais profissionais na relação que têm com o público?

LM: Nesse aspeto somos mais exigentes… Nós sempre mantivemos o nosso nível de profissionalismo, mas agora somos uma bocadinho mais exigentes. É como na escola, quando estudas uma matéria e já a sabes, tens de começar a ser mais organizado porque já sabes muitas coisas. E também é assim com os Salto. Há concertos que são muito exigentes e que nos obrigam a ser mais profissionais, ou a tentar sê-lo até porque agora somos quatro e isso muda. Quisemos sempre ser profissionais, mas também divertirmo-nos imenso.

GTR: Exato eu não lhe chamaria profissionalismo. Simplesmente queremos cumprir com aquilo a que nos propomos e que nos pedem.

EF: E a reação do público é diferente?

LM: Sim, claro. Nós agora andamos em tour e temos ido tocar a sítios onde não sabemos se temos fãs ou não e por acaso tem estado sempre cheio. A maneira como tu sentes as pessoas, como as vês a curtir é ótimo para nós. O facto de estarmos em tour leva-nos a perceber que mesmo a atitude do público muda de cidade para cidade. Por exemplo o público de Vila Real, nada tem a ver com o pessoal de Évora, mas mesmo nada. Em Évora o pessoal estava todo louco, ao berros, crowdsurfing; já em Vila Real sabíamos que o pessoal estava a curtir mas já não se mexia muito, apesar de terem adorado e terem feito questão de nos dizer isso mesmo. Isso é incrível e essas diferenças são importantes também.

Salto 01

EF: Agora andam a fazer esta pequena tour e têm-se fartado de passear. O facto de estarem numa fase de muitos concertos leva a que deixem de produzir ou é só mais uma fonte de inspiração?

LM: Eu acho que potencia porque andamos sempre juntos, sempre com instrumentos atrás e constantemente a tocar. Acaba sempre por sair coisas novas… Acho que devia ser sempre assim porque sem dúvida que flui mais. Por isso é tão fixe estarmos a gravar o álbum ao mesmo tempo que andamos em tour, porque há uma partilha entre nós e o público. É tipo criar a nossa iCloud.

EF: E vem aí algo novo. Houve pressão ou um receio de falhar por terem conquistado tanto e tão rápido com o álbum anterior?

LM: Não sentimos pressão nenhuma, não é por ser os Salto que achamos que temos de fazer música de uma determinada forma ou de ter uma postura diferente. Nós queremos fazer uma música que curtimos, aquilo que nos sai mais natural.

Filipe Louro: Eu, na realidade, não sinto pressão nenhuma porque sou novo, mas espero que eles também não sintam.

EF: “Mar inteiro” é também um tema um pouco diferente do vosso primeiro álbum. O que vos fez mudar de sonoridade?

LM: O álbum anterior era uma compilação da músicas que eu e o Guilherme fizemos desde os nossos dezassete anos. Por isso é claro que mudou muita coisa, crescemos, ouvimos muita música, demos muitos concertos, tocamos muito uns com os outros, é diferente. Ainda por cima estamos numa fase em que ainda temos muito que aprender.

Tito Romão: As coisas mudam constantemente, há sempre algo diferente a fazer.

 http://www.youtube.com/watch?v=76JpysFZ2VM

EF: Consideram-se mais maduros com este novo trabalho?

LM: Sim, sem dúvida. Mais maduros e mais orgânicos. É um segundo disco onde se nota uma evolução, mas onde é óbvio que somos nós, os Salto, que continuam ali.

EF: O vosso single Mar Inteiro rapidamente dominou as rádios. Foi uma música que assim que saiu ficou na cabeça de toda a gente. Quando a lançaram tinham consciência era uma canção catchy?

TR: Tem piada dizeres isso porque quando ouvi achei que era zero catchy. Pensei que o pessoal ia dizer “Ai quem é esta banda alternativa?!” E não fazer a mínima ideia de que fossem os Salto, mas ainda bem que não é assim.

LM: Exatamente, ainda bem. Mar Inteiro tem tocado muito mais do que nós estávamos à espera. Temos ido a sítios e ido a rádios que não estávamos de todo à espera que tocassem a nossa música. Mas isso é fixe, quando fazemos uma coisa que não esta colado a nenhuma coisa em específico é engraçado veres essa evolução. É algo diferente, nada óbvio e não sabes se o pessoal vai curtir ou não, mas é ótimo saber que sim. Mas não foi uma música pensada para rádio… Nós tínhamos acabado de gravar três músicas e olhamos para elas e tínhamos de decidir qual teria mais potencial, aquela que representava melhor e que fazia melhor ponte com o primeiro álbum. As outras duas talvez fossem mais densas e esta, não sei, fazia mais sentido.

EF: O que é que se pode esperar no próximo álbum?

LM: Um bocado de tudo. A frescura da voz do Guilherme, a electrónica na onda do Beat oven, um bocado do rock que temos andado a ouvir, a própria organicidade do concerto, diferentes experiências musicais… Mais explorações sónicas e instrumentais, também canções mesmo… Tanto mais de electrónica como coisas mais orgânicas e se calhar menos aquele pop psicadélico, como do Deixar Cair ou da Por ti demais, para ser algo mais maduro.

TR: Pode vir a ser uma desilusão grande para alguns, mas uma surpresa para outros. Mas não estamos preocupados com isso, isso é o que dá piada à música. Caso contrário era como ter um emprego.

EF: Então os Salto não são um emprego?

LM: Não, não… Os Salto são um emprego porque as pessoas gostam da forma como nos exprimimos, mas não é uma obrigação. Nós neste álbum decidimos que ia ser uma coisa muito nossa e independente. Somos nós que estamos a tratar da produção, da realização do videoclip, da imagem, somos nós que estamos a tratar de tudo.

EF: Houve alguma influência maior a salientar para este trabalho?

LM: Há uma série de influências, por acaso: os The stepkids, os Temples no rock, um bocadinho de Pond, de Caribou, também SBTRKT. São coisas mais recentes e que estão sempre na nossa cabeça e que por isso acabam sempre por influenciar mas não te vamos dizer que há duas ou três coisas que vais notar imenso mas é claro que fomos influenciados. Este álbum vai ser mais conciso, as músicas surgiram todas na mesma onda.

EF: No verão lançaram o single “can’t you see me” que é um tema totalmente electrónico. Este tipo de música também é algo com que se identificam?

LM: Nós fizemos a Beat Oven porque íamos tocar no palco secundário de um festival a uma hora mesmo fixe e queríamos fazer uma cena nova e saímos uma cena electrónica do nada e estávamos a curtir imenso. Então pensámos que podia fazer alguma coisa daqui.

TR: Então fizemos a Fly Lo para um concerto no Vila Flor e depois saiu da Canção Diagonal o Beat Diagonal. E a canção Diagonal tinha um fim e daí saiu o terceiro beat. Por isso sim, achamos que podíamos explorar um bocadinho mais a parte electrónica com mais profundidade e assim.

LM: Decidimos por isso que podíamos criar uma espécie de fascículos, e assim a seguir ao segundo álbum vamos avançar com o segundo fascículo do Beat Oven, mais electrónico e explorar quase só essa parte porque nós também gostávamos de electrónica, mas não faz sentido ter um álbum com duas ou três músicas todas electrónicas tipo club, dignas de discotecas no meio de um álbum de canções… Quer dizer até podia correr bem, mas achamos que a can’t you see me vive bem a ser uma cena só dela. Era uma seca se a fizemos sair no segundo álbum porque nunca poderia ser um single e ia acabar por ficar perdida. Mais vale segmentar e aproveitar para fazer sair coisas diferentes.

http://www.youtube.com/watch?v=ExgnSq50-8k

EF: Vocês já correram os festivais todos e tocam um pouco por toda a parte. E agora por onde mais querem passar?

GTR: Falta-nos passar por vários sítios. Sítios fora de Portugal mas mesmo cá ainda faltam muito sítios. Ok que tocamos em muitos festivais, mas mesmo assim é diferente. É sempre fixe tocares num festival mas é diferente de dar um concerto em nome próprio. Olha, por exemplo, nós no Porto tocamos pouquíssimo.

FL: O Bons Sons, o Festival do Crato e até o Primavera Sound.

GTR: Mas era bom também passarmos outra vez pelos festivais mas numa hora mais tardia em que o pessoal já esta lá a dar tudo porque é diferente. Mas nós compreendemos, porque há muitos nomes internacionais fortes e que são a razão de as pessoas quererem ir aos festivais. Mas sim falta-nos tocar muito em Portugal, em quatro anos de existência é a primeira vez que fazemos uma tour e isso revela muita coisa. Falta-nos fazer uma tour a sério, em que não paras nunca e num ano correste o pais todo e passaste por todos os sítios, como ir ali a Espanha que eles percebem-nos.

E há alguma experiência completamente diferente que consideram que até era engraçado ter?

LM: Sim, claro. Imagina um Glastonbury ou Coachella e até o Tomorrowland tocar lá o todo com confettis e cenas, era capaz de ser engraçado.

GTR: E há outra, o SXSW, tipo num palco tuga emigrante (risos).