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‘Dois’, de Carmén Mesa: «sorte é o quê?»

Dois, de Carmén Mesa, esteve em cena entre 5 e 8 de março, no Teatro da Comuna. Um espetáculo sobre um casal que se debate com  questões existenciais e “que esconde uma carga emocional prestes a irromper a qualquer momento”.

O público entra pouco antes das 21h30. Nos braços das cadeiras repousam mantas vermelhas para os apaixonados partilharem ou para aquecer aqueles que aparecem sozinhos e, por isso, com mais frio. Com encenação de André Sobral, os intérpretes Carmén Mesa e Pedro Baptista prometem representar 14 dias na vida de um casal “fora da pauta”.  Tudo começa com um sofá como presente, algo novo, divertido, entusiasmante, que vai perdendo a graça com o tempo e que se torna parte da rotina de um casal demasiado consciente do mundo para não se entristecer com ele. O sofá passa a servir não para ver quem salta mais alto, mas quem vê mais além, “sem os pequenos privilégios de se viver sem consciência, a um pé do precipício, da loucura”.

Este é um espetáculo romântico que incentiva à reflexão sobre a vida, sobre a importância do tempo e como o podemos aproveitar. Dois também nos enternece pela cumplicidade, faz-nos rir pelos desencontros e ensina-nos que a sorte somos nós que a fazemos.

“Ele não sabia que a sorte existe por isso não esperou por ela e pôs-se a piar e a bater as asas. Só ele seria capaz de se libertar daquele buraco escuro e voltar a voar.”

É de destacar, patente desde o início, o jogo de luzes, que tem um forte impacto e que, por ordem de Mesa, chega a surpreender o público ao quebrar a parede mais importante do teatro. Por outro lado, a representação pecou pelo excesso de teatralidade na voz, em particular na da própria autora (que, no entanto, possui uma expressão corporal muito eficaz e bonita, sobretudo numa cena em que a perna esquerda lhe treme intermitentemente). Infelizmente, não deixou de haver, senão por breves momentos, a consciência de se estar a assistir a uma peça. A magia acontece, especialmente, quando está tudo tão bem alinhado que nos sentimos espiões a observar algo que é mesmo real e que não nos devia pertencer. Muitas das cenas são deliciosamente divertidas: é impossível não nos rirmos quando vemos alguém discutir por causa de uma caneca de asas delicadas que ficou sem a asa delicada.

A dinâmica das relações sexuais, a importância de ter as máquinas de secar e de lavar no sítio certo, os erros do livro dos espíritos, as desvantagens de nos tornarmos adultos, a utilidade do tempo, o que se deve ou não fazer quando está alguém morto no quilómetro 8 e outras estórias a dois foram capazes de entreter um auditório e de o encher de boa disposição, durante 1h10 de espetáculo. Para quem foi acompanhado tenho a certeza que se reviu nas cenas e, para quem não as seguiu, sempre saiu com um sorriso na cara. A não perder, no próximo sábado, na Póvoa de Santa Íria.

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