Chegou ao fim a 3ª edição da mostra de cinema e cultura judaica, em Lisboa. O Espalha-Factos despede-se com este artigo, em que dá destaque à sessão especial do último dia e ao filme uruguaio de encerramento, Kaplan

Kosher, não Kosher: “Somos o que comemos”

Nesta sessão especial esteve presente o Rabino Schlomo Pereira, para uma palestra sobre o significado do Kosher. Kosher consiste no conjunto de leis judaicas que definem o que é ou não “apropriado” para comer. É por estas leis que a dieta judaica se rege.

Entre explicações sobre a forma como são seguidas estas leias, o Rabino dedicou-se ainda a explicar a aparente obsessão do judaísmo com a carne de porco. A explicação foi surpreendente. Para finalizar, o orador explorou a dimensão cultural e espiritual da dieta Kosher e as relações que esta mantém com a forma como a cultura judaica vê o mundo e a vida.

Na galeria abaixo encontram-se fotografias desta sessão.

Fotos por Beatriz Nunes

Mr. Kaplan (2014) – 7.5/10

kaplan

Álvaro Brechner realiza a sua segunda longa-metragem depois de Mal día para pescar, em 2009, uma estreia vitoriosa que lhe valeu uma consideração bastante positiva no panorama do cinema latino. Com Mr. Kaplan, Brechner aposta novamente numa comédia dramática, baseada na “investigação” que o protagonista, Jacob Kaplan (Héctor Noguera), leva a cabo para desmascarar e capturar um possível veterano nazi.

Jacob Kaplan é um judeu que perdeu a família na Segunda Guerra, e que aos 76 anos confronta uma auto reflexão baseada nos feitos que realizou, e que podem não ter sido tão emocionantes como pretendia. Será já demasiado tarde para fazer algo memorável?

kaplan 3

Ao perder a carta de condução e ao saber da existência de um possível nazi que vive na praia, Jacob aproveita a ajuda do condutor privado que a família lhe propõe, Wilson (Néstor Guzzini), um ex-polícia que ainda espera vir a tempo de remediar os erros que cometeu e que o afastaram da sua família. É esta procura pela realização pessoal que os une e que faz resultar esta dupla improvável.

Apesar do que nos é relevado ao longo da história tornar o desfecho um tanto ou quanto provável, é a forma como o realizador uruguaio nos entrega os acontecimentos que levam esta dupla aos lugares onde chegam, que torna esta obra algo mais do que o que seria esperado com um argumento que, a princípio, não nos entregaria nada de novo. É em jeito de comédia que sentimentos realmente trágicos conseguem ser disfarçados, muitas vezes acompanhados pela própria iluminação. E é aqui que Brechner brilha. Com discursos repletos de ironia e sarcasmo vemos o protagonista encarar os seus problemas, sem nunca se desviar do seu objetivo, por mais que este pareça absurdo para os outros – à exceção de Wilson.

Sem talvez o esperar, é a influência que este velho caprichoso (se me permitem tratá-lo assim) tem sobre os que o rodeiam que se torna o tal feito memorável que o mesmo pretendia obter. Kaplan quase que abriu a “porta errada”.

Resta aclamar o desempenho destas duas personagens e da de Mrs. Kaplan, Rebeca (Nidia Telles), e a brilhante e deliciosa imagem obtida nesta realização. Por tudo isto, Mr. Kaplan tem tudo para ser mais do que um simples filme risonho e agradável para uma sessão em família. 

kaplaaan

Para encerrar o dia dedicado a este tema, o Cinema São Jorge deu espaço a um buffet com produtos Kosher, como vinhos, chás e ainda o “molho” hummus.

A 4ª edição da Judaica já tem data marcada. Realiza-se em Lisboa de 16 a 20 de março do próximo ano, data anunciada pela diretora do certame, Elena Piatok.

O festival parte agora para Belmonte, onde o programa acontece entre 7 e 10 de maio.

Foto de destaque por Beatriz Nunes