Festival da Canção, Catarina Furtado, Júlio Isidro
Foto de Pedro A. Pina/RTP

Festival da Canção: a final que já não surpreende

A final do Festival da Canção, que se realizou este sábado, terminou com a consagração de Leonor Andrade. Catarina Furtado e Júlio Isidro formaram a dupla que consagrou a jovem que irá assim representar Portugal em Viena, no mês de maio.

Os concorrentes eram já conhecidos das semi-finais, mas tiveram oportunidade de convencer os seus fãs com mais uma atuação. Houve lugar para diversas estratégias e qualidades por parte dos diversos artistas. Logo a começar vimos um José Freitas com potencialidade vocal, mas com uma música a ir buscar inspirações a lados claramente errados, já que o Rock e Blues americanos de há 50 anos relacionam-se muito pouco com o nosso país de hoje em dia.

Por outro lado, que transpira mais a nossa cultura do que uma Simone de Oliveira, 50 anos depois da sua primeira atuação no Festival da Canção? O instrumental que a acompanhou era digno e cativante. A sua voz está naturalmente mais débil, mas ao mesmo tempo carrega uma bagagem cultural e de sentimentos impossível de igualar pelos restantes concorrentes.

Simone de Oliveira, foto de Pedro A. Pina/RTP

Também Yola Dinis, com a sua polivalente voz, foi buscar inspiração ao fado. Adicionou à sua música um twist de Festival da Canção em quantidades moderadamente suficientes para não a descaracterizar. No final, fica a ideia de que, avaliando as músicas por si só, Outra Vez Primavera parece ser de longe a mais valorosa do grupo.

Por fim, houve outras que, esteticamente falando, têm pouco por onde se pegar. Tanto o jingle televisivo de Gonçalo Tavares, como a canção de Leonor Andrade, de que nos esquecemos passados cinco minutos ou a esquizofrenia de estilos de Teresa Radamanto com o seu fado Shania Twainesco misturado com as festas das aldeias do início do milénio, metade do festival pareciam artistas a cantar karaoke acompanhados por aqueles sons que vêm gravados nos órgãos eletrónicos que se compram nas lojas dos 300.

E, surpresa surpresa, foram estas três canções que passaram à fase final! Se uma votação por telefone pode cair para qualquer lado, já o grupo de compositores responsável por encontrar o terceiro finalista esperava-se que respeitasse mais a música. Feita mais uma ronda de televoto, a grande vencedora foi Leonor Andrade com o tema Há Um Mar Que Nos Separa, talvez o mal menor dos três finalistas.

Leonor Andrade, foto de Pedro A. Pina/RTP

É claro que isto é um evento televisivo com música, não um evento musical com televisão. No entanto, tendo em conta que até havia atuações com qualidade, o desrespeito que fica pelo movimento musical é assustador. A cultura televisiva portuguesa congratula-se mais uma vez pelo seu isolado mundo da fantasia, onde o que interessa são as aparências e telefonar para o 760 101 qualquer coisa.

Mais Artigos
pixar
Pixar. Filmes para as crianças de hoje e os adultos de amanhã