Celebra-se hoje, 8 de Março, o Dia Internacional da Mulher. A secção de cinema do Espalha-Factos assinala a data dedicando a rubrica 5 desta domingo a filmes feministas.

O primeiro Dia Internacional da Mulher foi celebrado a 28 de Fevereiro de 1909 nos Estados Unidos, para destacar um protesto ocorrido em Nova Iorque, no qual várias operárias reivindicaram melhores e mais seguras condições de trabalho e salários adequados. Entre 1909 e 1917, a celebração do Dia da Mulher aconteceu em dias do ano diferentes, mas a data oficial foi decretada a 8 de Março de 1917, aquando da Revolução Russa.

Em relação à igualdade de géneros ainda há muito a ser feito, inclusive dentro do mundo cinematográfico, onde acusações dirigidas a realizadores e escritores têm sido disparadas constantemente, pois a maior parte destes profissionais tende a trabalhar filmes com protagonistas masculinos, mais do que femininos, já para não falar de nomeações e consagrações de mulheres em prémios técnicos, que é praticamente inexistente. No entanto, não deixaram de surgir, ao longo dos últimos anos, bons títulos no cinema com mulheres nos principais papéis.

Obvious Child

Obvious Child é um filme de 2014, realizado por Gillian Robespierre e baseado na sua curta de 2009 com o mesmo título. Robespierre, de 36 anos, estreiou-se assim no mundo da realização com uma película sobre um assunto ainda tabu nos dias de hoje: o aborto – tema delicado, envolto em preconceito e insciência, que levanta sérias questões morais e éticas e, não raras vezes, enormes e infidáveis discussões. A sensibilidade do assunto é incontestável, mas a verdade é que a interrupção de uma gravidez é uma opção que qualquer mulher tem o direito de, pelo menos, poder considerar. E como essa liberdade de escolha tem sido cada vez mais explorada, Robespierre concentrou-se em produzir uma longa-metragem que mostrasse ao público esse progresso. Como disse a realizadora, “as jovens precisam de saber que abortar é uma escollha responsável, quando confrontadas com uma gravidez não planeada” e o argumento do filme visa apresentar essa escolha através de uma perspectiva diferente, pois ” olhar para um aborto, num filme, sob uma luz negativa, faz com que os espectadores rejeitem o acesso ao mesmo”.

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E foi isso que o filme de Robespierre conseguiu: apresentar uma personagem que, ao engravidar após um caso de uma noite, conclui que não está preparada para se responsabilizar por uma criança e toma a decisão que acha ser a melhor para ela. Sem dramas, juízos de carácter, humilhações ou arrependimentos de última hora, Obvious Child é um filme sobre uma mulher que usufrui do direito que tem sobre o seu próprio corpo. Ponto final.

O Sorriso de Mona Lisa

É bizarro descobrir que, pelas infindáveis de listas de filmes feministas que existem na internet, em nenhuma ou quase nenhuma está O Sorriso de Mona Lisa. É certo que as interpretações não são as mais brilhantes e que a história é bastante previsível, mas este filme de 2003 é preciso na forma como pinta o quadro daquilo que eram os anos 50 nos EUA, quando “feminismo” era uma palavra que ainda só se sussurrava. Realizado por Mike Newell, O Sorriso de Mona Lisa mostra como a sociedade via a mulher e, mais importante, como a própria mulher se via a si mesma.

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Na Universidade de Wellesley, onde a acção se passa, quatro jovens, muito diferentes entre si, frequentam uma aula de História da Arte, leccionada por uma professora demasiado progressista e ousada para os critérios da universidade e das próprias alunas. A professora, Katherine Watson, rapidamente se apercebe de que, apesar das suas elevadas capacidades intelectuais e gosto pelo estudo, o objectivo de vida daquelas jovens não é o sucesso académico nem uma carreira profissional, mas sim casar, ter filhos, e todas as tarefas que tal papel, o de dona de casa, compreende. Entre as quatro alunas em que o filme se foca, temos uma conservadora já de anel de noivado no dedo, uma leviana sem intenção alguma de assentar, uma ingénua em busca do verdadeiro amor, e uma rapariga brilhante que se vê obrigada a decidir entre casar e estudar Direito. É interessante observar como cada uma das personagens reage ao aparecimento de Watson nas suas vidas, permitindo-nos desconstruir a noção de “mulher” e “feminismo” e compará-las com a actualidade.

Disney: Brave, Frozen, Malévola

Até a Disney, autêntica fábrica de contos de fadas e finais cliché como “casaram e viveram felizes para sempre”, tem vindo a adaptar e a criar novas histórias, que não se resumam ao previsível romance entre um príncipe e uma princesa. Exemplo disso são  algumas das últimas produções dos estúdios de Walt Disney: Brave, Malévola e Frozen , três fantásticos filmes com três destemidas personagens femininas. Brave nem sequer tem uma figura masculina relevante, pois a história gira em torno da relação entre Merida e a sua mãe e o amor entre as duas, capaz de quebrar feitiços e derrotar vilões. Malévola oferece uma perspectiva diferente do conto da Bela Adormecida, na qual nem a bruxa é assim tão má, nem Aurora é salva pelo beijo de um príncipe. Já em Frozen, as irmãs Elsa e Anna salvam-se mutuamente, em vez de serem resgatadas por heróis bem parecidos, montados num cavalo branco.

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É claro que esta nova tendência não deve ser assim tão propositada: afinal estamos a falar de filmes de animação, dirigidos a um público muito jovem. Mas tendo em conta o quão influenciável esse público é, é bom saber que existe outro tipo de heroína, diferente da “donzela desamparada”, merecedora de admiração. Nada contra a Pequena Sereia ou a Cinderela – mas meninas, vocês não deviam mesmo casar com alguém que acabaram de conhecer.

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Orgulho e Preconceito

Um filme baseado numa obra feminista não podia falhar esta lista (falamos da versão de 2005, do realizador Joe Wright – um preferidos aqui desta vossa redactora). O livro de Jane Austen, publicado pela primeira vez em 1813, não chamou a atenção, na altura, pelos seus subtis traços progressistas, mas sim pela história de amor entre Elizabeth e Darcy e o orgulho e preconceito que ambos tiveram ultrapassar para poderem ficar um com outro. Mas quem lê o livro ou vê o filme actualmente, percebe que existe uma ténue crítica tecida à ordem normal da sociedade da altura, em que um casamento era visto como um negócio e não tanto como um acto de amor e compromisso.

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Feliz era aquela que casava assim que atingisse a “maturidade” (depois dos 15 anos); o ideal era nascer já com o casamento marcado; e quem esperasse demasiado tempo (percebemos no filme que 27 anos era uma idade já tardia para casar) teria de se contentar com algum solteirão com um pedaço de terra decente, ou ficaria sozinha e amargurada para sempre (e isso é que não podia ser). Claro que, vistas assim as coisas, é muito fácil criticar o meio social apresentado em Orgulho e Preconceito – mas para que servem os filmes se não como termo de comparação com a actualidade e, até, com a nossa própria situação? Nesse aspecto, Orgulho e Preconceito é uma obra verdadeiramente intemporal, que vale a pena ser pensada e repensada. Afinal, poucas serão as mulheres (e homens) que não têm uma mrs. Bennett nas suas vidas: uma pessoa inquieta e sempre muito nervosa, que passa a vida a alertar-nos para a passagem do tempo, qual relógio de cuco, não vamos nós acabar desamparadas e sozinhas!

Erin Brockovich

Erin Brockovich é um filme que não pretende ser feminista, mas acaba por ser, ao apresentar uma personagem feminina de carácter forte, trabalhadora e determinada, e desmitificando a ideia absurda de que nenhuma mulher consegue conciliar trabalho e família e ser boa em ambas as tarefas. Divorciada e com três filhos pequenos, Erin singrou num escritório de advogados sem ter qualquer educação superior, sendo obrigada a provar as suas capacidades a si própria e aos outros, vezes sem conta. O caso que o filme apresenta é verídico e o veredicto também: em 1993, a firma onde Erin trabalhava processou a Pacific Gas and Electric, companhia que fornecia gás e electricidade a uma parte do território da Califórnia, por contaminação consciente de águas subterrâneas com substâncias cancerígenas, o que afectou centenas de famílias que viviam naquela zona. Os queixosos conseguiram uma indeminização de 333 milhões de dólares, uma das maiores indeminizações algumas vez conseguidas nos Estados Unidos. O trabalho de Erin foi indispensável para o desenvolvimento do caso.

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Erin Brockovich toca em vários assuntos relacionados com o papel da mulher e a sua emancipação: apresenta a relação de Erin e do seu namorado como uma não-tradicional – Erin trabalha e George cuida dos seus filhos em casa; a igualdade de géneros no mundo do trabalho é algo ainda longe de ser alcançado, e Erin é várias vezes confrontada com essa parcialidade; a personagem principal é uma mulher capaz de tomar conta de si e dos seus filhos, sem a ajuda de um homem – antes de George aparecer na sua vida, Erin tinha conseguido desenvencilhar-se sozinha depois do divórcio. Resumindo, Erin Brockovich é a prova de que existem histórias fantásticas sobre mulheres incríveis que merecem ser contadas no cinema.