O segunda dia deste festival arrancou com três documentários que imortalizam figuras icónicas da cultura judaica, uma curta-metragem em que os protagonistas são sapatos e o tão esperado Escravo de Deus, que aborda temas sobre a religião e o terrorismo.

A Família de Nicky, de Matei Minac, é um documentário emotivo que narra como Sir Nicholas Winton, um homem de negócios inglês na época, salvou a vida de centenas de crianças judias da Checoslováquia durante a Segunda Guerra Mundial. Uma história verídica, que inclui o testemunho de algumas das vidas que salvou, assim como do próprio Nicholas Winton, hoje com 105 anos.

O documentário esteve em sessão para escolas no dia 5. Hoje, pelas 14h00, estará novamente em sessão, aberto a todo o público.

Raquel: Uma Mulher Marcada (2014) – 6/10

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Gabriela Böhm, a realizadora deste documentário, dá-nos a conhecer a vida de Raquel Liberman, uma mulher judia que emigrou para a Argentina nos anos 20, na tentativa de arranjar uma vida melhor. Mas o destino pregou-lhe uma partida e, como (infelizmente) muitas mulheres naquela época, viu-se encurralada numa rede de prostituição, que pertencia a uma organização criminosa de origem judaico-polaca, da qual a própria cunhada – que a incitou a contactar a rede – fazia parte: a Zwi Migdal.

O documentário retrata a luta constante da protagonista em se desviar deste caminho, até ao limite em que Raquel decide agir em prol da sua segurança e da dos seus. O desenrolar desta história verídica, que se centra no feito desta mulher, dá ainda ao espectador uma imagem da realidade dos anos 20 e 30 passados neste país, corroído de corrupção policial e pela influência da máfia.

Este é um documentário que não só imortaliza uma mulher judia que teve coragem suficiente para mudar o “destino que lhe tinha sido traçado”, como também traz ao público a realidade dura de outras mulheres que, tal como Raquel, sofreram às mãos da Zwi Midgal. Raquel “só tinha uma vida”, e não quis desistir dela.

Natan (2013) – 9/10

Natan“O homem morreu. Até a sua memória foi destruída. Eu sou um filme sobre Bernard Natan.”

O terceiro documentário do dia fala-nos de Bernard Natan, um cineasta judeu que se pode considerar um dos pais do cinema francês. Mas muitos nem sabem da sua existência. Bernardo Natan “morreu” antes da data em que deixou a vida terrena, e este documentário explica-nos porquê.

Narrado na primeira pessoa, Natan aborda a veracidade das características e feitos que lhe foram atribuídos. É possível dividi-lo em duas partes: na primeira parte, ficamos a conhecer Bernard Natan, um judeu romeno que se muda para a França e se apaixona pelo país, e lá se torna um dos mestres da indústria cinematográfica; a segunda parte tenta explicar porque foi a primeira apagada da história do cinema francês e porque Natan é apenas lembrado e relacionado com a alegada carreira como ator e realizador pornográfico.

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Este documentário não pretende necessariamente limpar o nome de Natan dos boatos ligados à pornografia ou à fraude. Os factos e testemunhos revelados (de historiadores, jornalistas e da própria família do cineasta) dão uma visão totalitária e não deturpada da realidade e da história de Natan, dando espaço ao espectador para que tire as suas próprias conclusões.

Esquecido, tornado numa história infestada de rumores, Bernard Natan ficou apenas conhecido como um pioneiro da pornografia ou um vigarista. Poucos conhecerão a sua influência decisiva como impulsionador do cinema francês ou saberão que os estúdios que construiu são agora uma escola de cinema em Paris, e que ajudou financeiramente Cecil B. DeMille e a sua família, quando este caiu na pobreza. Apesar de ser, sem dúvida, uma personagem icónica tanto da cultura judaica como do cinema, a sua história parece ter sido rasurada e reescrita com base em possíveis relações com uma indústria que na época ainda era vista como ofensiva. Então qual foi o seu erro?

Sapatos (2012) – 8/10

Em 16 minutos é contada a história de uns sapatos, que partem da montra de uma loja e acabam no campo de concentração de Auschwitz. Ficamos a conhecer a sua história, sem nunca saber a quem pertencem. Tal não é necessário, as personagens que interessam estão perfeitamente à nossa vista.

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É através deste conceito distinto que a realidade dos campos de concentração é abordada, recorrendo a estes “testemunhos mudos”, uns sapatos que como tantos outros acabaram por ser a única lembrança ou prova de que os seus donos passaram por esta realidade. Tal como seria provável vermos nos seus donos, também estes sapatos alteram as suas características: à medida que a história vai avançando e os inconvenientes vão acontecendo, os sapatos vão-se gastando, “ferindo”, acabando destruídos, inúteis e esquecidos. Tal como aqueles que os usaram.

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Escravo de Deus (2013) – 7/10

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A primeira longa-metragem de Joel Novoa recria o atentado ao Centro Comunitário Judeu da cidade de Buenos Aires, ocorrido em 1994. De um lado da moeda temos David, um agente da Mossad, judeu, que não olha a meios para conseguir capturar e destruir uma operação terrorista que assola a capital da Argentina. Do outro lado, encontramos um fundamentalista islâmico, Ahmed Al Hassamah, que se esconde atrás de uma identidade falsa. O encontro de ambos acontece quando Ahmed é destacado pelo mesmo grupo terrorista para participar num ataque bombista a uma sinagoga da cidade.

Mais que um thriller policial de caça ao homem focado na investigação, perseguição e captura, Escravo de Deus é uma verdadeira análise às ideologias dominantes e como estas se confrontam, às crenças que justificam os atos praticados e às consequências físicas e psicológicas dos mesmos. Novoa pegou numa situação verídica e transformou-a no ponto de partida para abordar vários aspetos que obrigam o espetador a refletir sobre a narrativa a partir de diferentes prismas. E isso é feito através da análise psicológica e da reflexão das próprias personagens: vemos tal situação presente na conversa entre Ahmed e o primeiro suicida bombista do grupo, que na noite anterior ao ataque se questiona sobre as suas próprias crenças e motivações, incluindo os próprios ideais da religião.

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É desta forma que Escravo de Deus consegue ser um filme forte sem que seja necessária a aparição de cenas propriamente violentas. Trata-se de uma violência ideológica, em que duas personagens extremistas se revelam quase idênticas, apenas divergindo nas razões que os levam a praticar as suas ações.

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É ainda de destacar a atualidade desta temática, tendo em conta não só as repercussões que este caso ainda hoje tem na Argentina – falo do procurador que investigava o atentado ao centro comunitário e que recentemente foi encontrado morto, dias antes de ir testemunhar contra a presidente, acusada de encobrir possíveis culpados do atentado -, como também pelas questões religiosas que nos dias de hoje ainda motivam atos terroristas e guerras entre culturas.

Foto de destaque: Beatriz Nunes