O cinema sul-coreano da contemporaneidade também mas não só se ancora no trabalho de meia dúzia de realizadores, sobejamente conhecidos. Praticamente todos eles, com passado pelo Fantasporto. Chan Wook Park, Kim Jee Woon e Bong Joon-Ho apresentaram nos últimos anos, produtos audiovisuais que aproximavam o cinema da Coreia de Sul a Hollywood.

Esta americanização, ainda assim, acontece à margem do saudável panorama audiovisual da Coreia do Sul. Kim Ki Duk, que nesta edição de 2015 apresenta One on One, é o mais radical deste grupo, cambaleando entre a poesia das suas obras como Arirang (2011), 3-Iron (2004) e Primavera, Verão, Outono, Inverno… E Primavera (2003) e a desconcertante e vingativa violência de Pietá (2012), vencedor da Semana dos Realizadores de 2013 do Fantas. Hang Sang Soo e Lee Chang Dong são conotados a um cinema de autor, com uma identidade mais artsy e menos mainstream. Em claro contraponto com estes, está o filme apresentado na cerimónia de abertura do Fantasporto 2015.

Realizado por Sung-Bo Shim mas apadrinhado pelo supracitado Bong Joon-Ho, Haemoo tem os apelativos plot twists que caracterizam o cinema sul-coreano e tanto cativam o espectador, deixando-o boquiaberto. É uma história trágica de tráfico de imigrantes ilegais baseada em factos verídicos, enfatizados com o recurso a violência gráfica e explícita. O ensemble de atores reunidos é encabeçado por Kim Yun-SeokCapitão Kang -, antes visto em The Chaser (2008) e em The Yellow Sea (2010), ambos sendo também exportações felizes do cinema de ação sul-coreano. Kang e a sua trupe estão no mesmo barco e todos remam para o mesmo lado. Este é o mote para peripécias e intempéries que juntos enfrentam. Genericamente, tratar-se-á de um filme de ação entrelaçado numa bonita história de amor e de superação, qual Titanic em anabolizantes coreanos.

Haemoo apresenta igualmente temáticas transversais a Portugal ou não fossemos nós um país de pescadores. A crise laboral sentida na Coreia do Sul da época, o alheamento e alienamento do pai de família do seio familiar, a emigração e a conjuntura económica são pontos de contacto passíveis de identificação pelo espectador e que reforçam a imersão deste.

Haemoo é um filme que surge no encadeamento do cinema sul-coreano do novo milénio. É um honroso representante desta corrente cinematográfica mas não se trata do mais cintilante objeto audiovisual daí proveniente. Ainda assim, proporciona um bom serão e foi um promissor pontapé de saída do Fantasporto 2015.