Depois de no final do ano passado ter vindo ao de cima a polémica que envolvia Paul Schrader e os produtores do filme (que afastaram o realizador durante o processo de montagem e reeditaram o seu trabalho), Vingança ao Anoitecer ganhou uma inesperada publicidade com um pedido do realizador/argumentista e do próprio elenco para que o público não vá ver esta longa-metragem.

Então que conselho seguir em relação ao filme? O da nossa curiosidade, que nos diz para vermos aquilo que a equipa da Grindstone (uma das filiais da Lionsgate) queria realmente, ou o dos envolvidos na realização do projeto inicial, que boicotam a sua visualização? O mais acertado talvez seja mesmo cumprir a vontade de Schrader e companhia, não só para defender os artistas mas porque ver Vingança ao Anoitecer é o mesmo que ver mais um daqueles thrillers que passam por vezes nos quatro canais nas tardes de fim de semana.

E este nem é dos melhores thrillers desse género. Basta ler a sinopse para perceber isso: Evan Lake é um agente da CIA que, 22 anos após ter sido torturado por Muhammad Banir, descobre o paradeiro do terrorista e decide, pelas próprias mãos, vingar-se. Para isso vai reunindo mais umas quantas pistas que o levam, sem obstáculos na sua jornada nem twists na narrativa, até ao homem que ainda o atormenta nas suas memórias.

Ora bem, não parece que alguma vez se chegue a ver Vingança ao Anoitecer como Schrader quereria. Avaliando o que nos é dado, não há sombra de dúvidas de que estamos perante algo mesmo muito fraco. A começar pela montagem, aquilo que originou os conflitos entre o realizador e os produtores, até chegarmos à fotografia, outro aspeto supostamente “sabotado”, não há muitos pontos positivos a destacar. O filme desenrola-se muito rapidamente e os supostos pontos altos de ação e tensão são despachados numa questão de segundos. Isto chega a elevados níveis de desrespeito para com a sede de thriller do público no final, onde o tão esperado último stand-off entre o bom e o mau da fita tem direito a apenas um pobre minuto de antena.

Mas fosse o filme estar montado segundo a vontade do realizador e todos os outros aspetos deixados intocáveis pelas mãos dos produtores e o resultado final não seria muito diferente. Talvez houvesse mais ritmo na longa-metragem e uma melhor gestão dos clímaxes se Schrader tivesse entrado na sala de edição. Mas a verdade é que o mal já lá estava, não era possível remover os muitos pontos negativos por muitas versões diferentes que se fizessem. Olhamos para o argumento e para as linhas de diálogo e o que vemos? Uma pobre banalidade. Analisamos as personagens e o que podemos concluir? Que são fracas e, na sua grande maioria, desnecessárias (e de pensar que o argumentista outrora escreveu Taxi Driver e Touro Enraivecido…).

A realização, por muito competente que seja, não consegue salvar as muitas cenas onde reinam os lugares comuns e a falta de rigor. Lake tem, tal como a maioria dos agentes secretos no cinema que querem fazer justiça pelas próprias mãos, uma doença que o atrapalha na sua investigação. Neste caso é uma prima afastada do Alzheimer que, para além de o fazer esquecer das coisas, o põe com tremeliques nas mãos e o faz ter blackouts de um momento para o outro. Talvez seja por isso que todas as suas ações em Vingança ao Anoitecer rocem o idiota. Ou então é porque se calhar nos últimos anos Schrader passou as tardes a ver séries policiais na TV lá de casa.

E a julgar pela quantidade de clichés típicos de NCIS, CSI e afins que se encontram espalhados por todo o enredo, esta última teoria parece comprovar-se. Os muçulmanos são-nos apresentados segundo uma visão mais que estereotipada; os chefes de Lake descredibilizam-no durante a investigação (por motivos nunca esmiuçados); as informações que levam ao paradeiro de Banir estão armazenadas numa pen-USB misteriosa; etc. Até há direito a disfarces para que Lake se consiga encontrar com o terrorista sem este perceber que é ele. Se julgavam que a “camuflagem” de Clark Kent é ingénua para omitir quem ele realmente é, esperem até ver como o agente do FBI se vai anedoticamente mascarar.

Por falar em caraterização, é importante salientar o mau (para não dizer terrível) trabalho para fazer Nicolas Cage parecer 20 anos mais velho. O seu cabelo grisalho falso é do pior que se pode encontrar e a sua orelha postiça (para criar uma cicatriz causada por Banir) só lhe dá um ar mais ridículo. E a sua performance exagerada, repleta de caras estranhas e um triste overacting (que supomos não serem efeitos secundários da doença da sua personagem), só contribui positivamente para uma coisa: desviar as atenções do restante elenco que só completa o quadro de mediocridade.

Ou seja, mesmo que a versão final tivesse sido aquela idealizada por Schrader, nunca o filme iria chegar a um patamar de boa qualidade. O mal já lá estava, os produtores só o tornaram ainda pior. Por isso só ganham em não visionar este Vingança ao Anoitecer, pois põem-se do lado dos prejudicados em toda esta situação e poupam as vossas mentes sãs de um produto idiota e desprezível.

3/10

Ficha Técnica

Título: Dying of the Light

Realizador: Paul Schrader

Argumento: Paul Schrader

Elenco: Nicolas Cage, Anton Yelchin, Alexander Karim

Género: Drama, Thriller

Duração: 94 minutos