Leviatã: a política, a corrupção e a tragédia russas

Leviatã: a política, a corrupção e a tragédia russa

Nomeado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, vencedor do Globo de Ouro na mesma categoria e distinguido como Melhor Argumento na última edição do Festival de Cannes, Leviatã, uma das mais incríveis visões do abuso do poder, da corrupção política e das suas vítimas, estreia finalmente em Portugal.

Kolya vive com a sua mulher e o seu filho numa pequena localidade à beira do Mar de Barents, na Rússia. A sua vida pacata dá uma volta de 180º quando o presidente da Câmara Vadim Sergeyich usa os seus poderes políticos para se apoderar do terreno da sua casa. Com a ajuda do seu amigo e advogado Dmitriy, Kolya tentará de tudo para provar a índole corrupta do homem em quem cidade depositou toda a confiança e assim reaver a sua casa e terreno.

É com esta história (passada em terras russas mas que podia muito bem tomar lugar noutro país…) que o realizador Andrey Zvyagintsev vai tecendo a sua crítica, por vezes em tom satírico, da sociedade da Rússia e da sua política. Através de inúmeras simbologias, referências bíblicas e com um dedo afiado apontado à (in)justiça e à forma como os mais poderosos espezinham os mais fracos, cria-se um drama forte que explora também as vivências trágicas das personagens, provocadas, claro está, pela corrupção.

Todos os grandes problemas que os sistemas políticos corruptos e abusivos causam apresentados em Leviatã parecem assustadoramente reais. A forma como se expõe o comportamento de Vadim e como este utiliza os seus poderes em favor dos seus interesses e não da sua comunidade tem como base um argumento genuíno, que vai até às entranhas da podridão do sistema para pôr a nu situações que no filme são ficção, mas que todos sabemos não estarem longe do que acontece fora do ecrã.

Assistimos assim ao batalhar de um homem contra tudo e contra todos e sentimos de perto todos os problemas que nascem dessa guerra contra o sistema. Porque se tanto ficamos revoltados por nos depararmos com Kolya a ver a sua vida a andar para trás, também o nosso lado emocional se sente tocado, pois Zvyaginstev leva aos limites as nossas personagens, tão humanas como nós e com as quais facilmente nos identificamos. O realizador entra nos seus lares e vai criando alguns sub-plots cuja importância vai aumentando até se tornarem nos focos principais do filme.

No entanto, isto faz com que a narrativa se torne pesada. Somos confrontados com situações deprimentes e ver Leviatã torna-se uma experiência por vezes dolorosa. Esse é obviamente um dos objetivos do filme, colocar-nos na pele daqueles que são vítimas dos seus próprios governos para que sintamos como eles as suas dificuldades, mas a verdade é que a história fica “espessa” e por momentos parece ser demasiado longa. Aqui e acolá há pequenos e curtos segmentos cómicos ou mais enternecedores entre amigos e família, mas à mediada que vamos avançando nas quase duas horas e meia da fita o seu enredo vai ficando com cada vez menos espaço para que tal aconteça e ficamos quase exclusivamente rodeados de murros no estômago e situações extremas.

Não se pense, contudo, que nalguma situação se perde o interesse no filme. Há um trabalho indescritível na construção de cenários lindíssimos (cada cena parece uma pintura em movimento), o que nos impedirá de desviar os olhos do ecrã e que servem como pano de fundo a interpretações magistrais de um soberbo elenco. Aleksey Serebryakov dá ao seu Kolya uma força tremenda; Vadim é encarnado por um caricato mas excelente Roman Madyanov; a delicadeza de Vladimir Vdovichenkov faz do seu Dmitriy mais do que um simples advogado; e por fim Elena Lyadova dá um ar misterioso, profundo e até sensual a Lilya, a mulher do protagonista.

Não há como negá-lo: Leviatã é um dos melhores e mais belos filmes do ano. A sua visualização, atenção, não é fácil, e quem não estiver disposto a percorrer uma forte e dolorosa jornada de duas horas e meia numa Rússia corrupta, não deve arriscar. Mas quem tiver coragem e vontade de mergulhar numa das grandes parábolas sobre a política e a sociedade atual, recheada de grandes paisagens e maravilhosas performances, não se vai arrepender.

8,5/10

Ficha Técnica

Título: Leviafan

Realizador: Andrey Zvyagintsev

Argumento: Andrey ZvyagintsevOleg Negin

Elenco: Aleksey Serebryakov, Roman Madyanov, Vladimir Vdovichenkov, Elena Lyadova, Sergey Pokhodaev

Género: Drama

Duração: 141 minutos

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