A tarde do sexto dia do Fantasporto contou com um filme italiano muito especial: Handy de Vincenzo Cosetino, antecedido por uma curta-metragem de Francisco Bautista Reyes, Mi Vanidad. Duas antestreias europeias diretamente do Rivoli, no Porto.

Mi Vanidad

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A curta-metragem de Francisco Bautista Reyes traz à tona uma história religiosa. Uma nova santa entra na Catedral, carregada por paroquianos. Refere-se os milagres que esta é capaz, e incita-se a reza à nova santa. A outra santa que já se encontrava na Catedral, fica com inveja do aspeto da nova.

Esta começa por insultar a nova santa. E, convencida do seu conhecimento do divino, desafia o céu, provocando uma resposta tão imediata quanto inesperada.

Esta curta parece transparecer uma analogia, onde questionamos até que ponto é que o antigo, clássico e categórico é o correto. Porque razão aceitamos as verdades (particularmente as religiosas) inquestionavelmente, só porque já existiam antes de nós? Nesse ponto, esta curta toca em pontos sensíveis, e faz-nos pensar.

A nível técnico, as passagens são muito demoradas, tornando o ritmo muito lento. Sendo um filme de curta duração, o foco não deveria ser perdido pela transição. A história, ainda que simbólica, acaba por dissipar-se pela escolha de realização muito repetitiva.

4/10

Ficha Técnica:

Título Original: Mi Navidad
Realizador: Francisco Bautista Reyes 
Duração: 8 minutos

Handy

Sem Título

A antestreia deste filme contou com a presença do próprio realizador, Vincenzo Cosentino, que confessou ter demorado quatro anos a fazer o filme e que foi ele que fez praticamente tudo: da realização à costura das roupas. Anseia ainda que os espetadores apreciem a obra: “It’s the first movie about standalone hands. I hope you like the concept!”

Handy conta a viagem de uma mão pelo mundo fora. Depois de uma vida com o seu dono, Handy – a mão direita – decide abandonar o corpo e partir rumo à descoberta do seu talento literário.

Este filme italiano é incrivelmente imaginativo. Num filme onde uma mão ocupa o papel de protagonista, o enquadramento é constantemente feito com o Handy em primeiro plano, conseguindo uma perspetiva muito interessante e pouco usada no grande ecrã.

Para além deste facto, o realizador acrescenta o género documentário entre cenas em que algumas personagens (humanas) fazem comentários sobre os eventos do filme, de forma tão séria que traz um leve e agradável tom de comédia para o ecrã.

A história não é particularmente arrebatadora. Passamos por um momento central de love story, para uma espécie de guerra entre mãos, para voltar à trama romântica. O argumento é pouco dinâmico no que concerne à ação, desfocando-se de uma linha temporal para histórias secundárias. O facto de grande parte do filme ser narrado – não fosse este sobre mãos que têm grande dificuldade em falar  – também torna o ritmo fílmico mais pausado e menos natural, caindo numa narrativa mais monocórdica.

Este filme ganha sem dúvida, no conceito. Uma história que parece vazia, é arrebatada com pontas de simbolismo emocionante. Handy menciona, por exemplo, que as mãos são obrigadas pelos humanos a fazer coisas que não pretendem, como premir o gatilho e espalhar a violência e a guerra. É nestes momentos que esta longa-metragem realmente ganha vida, quando o realizador cruza de forma tão inesperada a fantasia com a realidade. E são estas referências que nos fazem refletir sobre a profundidade da imaginação.

7/10

Ficha Técnica:

Título Original: Handy
Realizador: Vincenzo Cosentino
Elenco: Franco Nero
Duração: 88 minutos