11029850_423459497812754_917932527_o

Entrevista EF: Elena Piatok, a diretora de um projeto que nos aproxima da cultura judaica

Nascida na cidade do México, filha de pais polacos, Elena Piatok apaixona-se por Portugal e pela cultura judaica e decide juntá-los num só: Judaica – Mostra de Cinema e Cultura. À conversa com a diretora executiva do certame, o Espalha-Factos pôde saber um pouco mais sobre o que se pode esperar da Judaica deste ano, as suas previsões para o futuro e como tudo isto surgiu na vida de Elena Piatok.

Aos 19 anos decide começar a viajar e a conhecer o mundo. Depois de viver um ano no Japão, Elena Piatok decide estudar Literatura Japonesa, e através de uma bolsa de estudos chega à Universidade de Stanford, na Califórnia. É por esta altura que houve falar na Revolução dos Cravos e que viaja até Portugal. Aqui, Elena Piatok apaixona-se não só pelo nosso país como também pelo português com quem casa e vai viver para Toronto, durante 13 invernos. No entanto, para que a cultura de ambos não se perdesse, decidem voltar a Portugal com os seus filhos. Da Embaixada Mexicana do Canadá é transferida para a do nosso país, onde fica a trabalhar como Conselheira de Portugal durante muitos anos. Uma oportunidade na carreira que implicava voltar a mudar-se com a sua família leva-a a desistir da carreira diplomática.

11029850_423459497812754_917932527_o

Espalha-Factos: Depois de todo este percurso, como surgiu finalmente a Judaica na sua vida?

Elena Piatok: Depois de sair da carreira diplomática, comecei a fazer interpretação de conferências, que continuo a fazer até agora. Há três anos estive em Londres, onde conheci a diretora do festival de cinema judaico de lá, e ela achou graça eu querer organizar um festival aqui. Eu via os filmes que ela passava e que nunca passavam cá, então achei que era a única maneira de trazer os filmes para Portugal. Além de que havia festivais de cinema judaico em todo o lado, em quase todas as capitais europeias, menos cá. Então aventurei-me, propus ao Cinema São Jorge que abraçou logo a ideia, e sem ter a mínima ideia no que me estava a meter, criei a Judaica em Portugal.

EF: Tendo em conta que em Portugal a cultura judaica não é algo muito notório e divulgado, que expectativas tinha da forma como o festival seria recebido no nosso país?

Elena Piatok: Uma pessoa não faz alguma coisa sem pensar que tem sucesso. Eu apostei muito no facto de não haver nada. Mas agora com o tempo começo a ver que há imensos filmes a passar nos outros festivais e no cinema comercial, com a temática da segunda guerra, do holocausto, uma quantidade incrível de filmes que eu sinto que há três anos atrás não havia tanto. Há cada vez mais divulgação deste tema.

EF: Em relação aos outros festivais de cinema judaico, fora de Portugal, o que criou no nosso país é sensivelmente parecido ou tentou inovar?

Elena Piatok: Não se pode comparar. Em Londres, por exemplo, cada filme tem um patrocinador, convidam os realizadores, e têm muito maior capacidade a todos os níveis, além de já o fazerem há 18 anos. Eles trabalham com outro tipo de orçamentos. Mas nem todos os festivais são assim, em Espanha por exemplo, também fazem algo mais modesto. O mais importante para mim era não só ter filmes como também ter estas sessões especiais, que explorassem a cultura judaica de forma mais profunda.

EF: Esta é já a 3ª edição. Que feedback teve das outras duas anteriores?

Elena Piatok: O festival foi muito bem recebido. Na primeira edição tivemos cerca de 1500 pessoas, o ano passado foram 2300. Este ano, Deus queira que seja mais. Há muitos mais filmes e as três sessões especiais também são muito relevantes. Nunca se sabe, mas eu espero que as pessoas gostem. Eu acho que os filmes são muito bons e o facto de ter sido convidada para ir a Belmonte também é uma novidade bastante interessante.

EF: Além da novidade das três antestreias e dos outros eventos, o que é que as pessoas que foram nos anos anteriores vão ver de novo e o que é que pode atrair as pessoas que vão pela primeira vez?

Elena Piatok: Bom, haverá uma sessão literária que inaugura a mostra, com uma personalidade muito importante das letras francesas, Myriam Anissimov, que é feito com o apoio do Instituto Francês. Eu acho que é um nível muito alto que vai marcar o festival. Virá um rabino que vive nos EUA, mas que passa muito tempo cá, de seu nome Alfredo Marvão Pereira (Rabino Schlomo Pereira), um economista muito reconhecido que vai falar da comida Kosher e sobre o que significa, no âmbito dos atentados aos supermercados Kosher em França. Haverá inclusive produtos Kosher, pois é desta forma e este tipo de cultura que eu quero divulgar para as pessoas que têm curiosidade. Este ano volta a haver a Feira do Livro da Leya, que já o ano passado encheu o CSJ de uma grande quantidade impressionante de títulos de filosofia, culinária, história, de temática e autores judaicos. É isto que me interessa, que as pessoas venham e que fiquem a conhecer esta cultura não só através dos filmes.

kosher
Cartaz promocional da sessão especial Kosher: uma Dieta para a Alma, sessão onde se irá explorar o mundo do Kosher na sua dimensão culinária, religiosa, cultural e sobretudo espiritual.

EF: Este ano apostou-se na temática da segunda guerra mundial, com a celebração dos 70 anos que marcam o seu fim. Porquê?

Elena Piatok: Porque eu vi a quantidade de divulgação que este tema teve e fiquei impressionada. Eu já tinha pensado em trazer documentários sobre o holocausto para o festival, mas pensei que ninguém quereria ver este horror que deixa qualquer pessoa esvaziada. Mas noutro festival vi que estes documentários encheram salas e auditórios. Então eu aí percebi que há um verdadeiro interesse. Como cada vez compreendemos menos como é possível acontecer algo assim, através dos filmes as pessoas estão ávidas, e é desta forma que tentam perceber como é que foi possível acontecerem aquelas coisas horríveis. Apesar de já terem passado 70 anos, é um tema muito presente e que ainda nos sensibiliza e choca.

11017304_423459517812752_575930839_o

“Como cada vez compreendemos menos como é possível acontecer algo assim, através dos filmes as pessoas estão ávidas, e é desta forma que tentam perceber como é que foi possível acontecerem aquelas coisas horríveis.” [refere-se ao holocausto]

 

EF: Como surgiu a oportunidade de alargar a Mostra a Belmonte?

Elena Piatok: Através do Facebook! Recebi uma mensagem da Câmara Municipal de Belmonte, a dizer que queria levar o festival para lá. Foi depois da segunda edição, e a partir dali começamos a planear. Não foi fácil mas vai-se realizar. Será em Maio e será muito interessante. Eu estou com grandes expectativas sobre a forma como será recebido. Seria demasiado ambicioso levar já tudo o que tenho em Lisboa, mas mesmo assim para começar não está nada mal. Estamos a ver se é possível a organização de, inclusive, uma rota turística e espero que no futuro seja possível desenvolver mais o festival em Belmonte.

EF: Como é que tem sido feita a divulgação do festival?

Elena Piatok: Apareceu em alguns media do Norte e será apresentado na BTL [realizado na FIL] em conjunto com a câmara municipal de Belmonte. Tudo isto ajudou, e acho que as pessoas já começam a falar.

EF: E pensa na possibilidade de alargar a Judaica a mais cidades do nosso país?

Elena Piatok: Sim, eu estou aberta a propostas. Estou à espera que as pessoas queiram fazer isso. E se as câmaras acharem relevante a realização do festival nas suas cidades, ótimo.

EF: Em cinco dias, e com tudo o que o programa oferece, o que nos pode destacar como as sessões a definitivamente, “não perder”?

Elena Piatok: Tudo! Mas sem dúvida imperdível a sessão de abertura, o filme de encerramento Kaplan, que é uma delícia. Imperdível o filme israelita sobre um tema muito importante, sessão onde estará presente o realizador [fala de Gett: O Processo de Viviane Amsalem]. O Escravo de Deus, um caso que aconteceu em 1994 e que ainda tem sequelas políticas que estão ao rubro na argentina, e que levou ao assassinato do procurador que estava a investigar o caso. Posso ainda destacar o caso de um rapaz judeu que vendia telemóveis e que foi raptado com a ideia de que todos os judeus são ricos [24 Dias]. Há esta questão do anti semitismo, que infelizmente ainda é muito presente, e é bem retratada neste filme.

Mas também tenho comédias deliciosas, um documentário que te vai explicar o que é que os Rastafarianos têm em comum com os judeus, temos a história dos musicais da Broadway, em que a maior parte são compositores, autores e criadores judeus.

felix and meira
Felix e Meira, o filme canadiano em exibição na Judaica que resgata o tema vulgar dos amores impossíveis e o transforma num conto belo e nostálgico sobre solidão, religião, ortodoxia e o próprio sentido da vida.

 

“Existem temas divertidos e outros mais emotivos. Todos têm a capacidade de nos tocar, não considero que sejam simples temas banais.” 

Quando ao programa, Elena Piatok adiantou-nos ainda que os documentários têm um bilhete próprio para cada sessão, excepto NatanRaquel: Uma Mulher Marcada que serão apresentados na mesma sessão. As curtas-metragens serão apresentadas antes dos filmes.

A Judaica – Mostra de Cinema e Cultura Judaica realiza-se em Lisboa, de 4 a 8 de março em Lisboa, e em Belmonte, de 7 a 10 de maio. Para mais informações sobre o programa, vê aqui.

Fotografias por Beatriz Nunes

Zeen is a next generation WordPress theme. It’s powerful, beautifully designed and comes with everything you need to engage your visitors and increase conversions.

Mais Artigos
‘Stranger Things’: Harbour compara regresso de Hopper à ressurreição de Gandalf