Na rubrica deste mês, trazemos uma cineasta portuguesa – Teresa Villaverde – e um filme duro. Ela sempre quis ser realizadora e trouxe uma visão revolucionária ao cinema dos anos 90. No Hollywood, tens cá disto? deste mês, destacamos a sua terceira longa-metragem.

Perdidos no mundo e na vida, Os Mutantes que Teresa Villaverde trouxe ao cinema português em 1998 comportou consigo um rasgo de desafio. A proximidade das personagens – que só podem contar connosco, o seu espectador atento e de confiança -, originada pela câmara da realizadora, obriga-nos a olhá-las nos olhos, sentir a sua dor e desespero. Pelo menos aqui não podemos evitar ver estes miúdos de rua “invisíveis”, incompreendidos. Não há julgamentos, nada de juízos de valor. É o realismo duro e cru(el), poucas vezes visto, até então, no cinema português.

Seguimos três protagonistas, Andreia (Ana Moreira), Pedro (Alexandre Pinto) e Ricardo (Nelson Varela), adolescentes que preferem a rua à clausura e às regras das instituições. Sem família, sem casa, sem um porto seguro. Abandonados à sua sorte (e azar), estes jovens tornam-se adultos cedo demais, ainda com o desconhecimento dos riscos que correm, tal como a criança que ainda são. O perigo espreita e estas almas selvagens apenas querem ser livres e aventuram-se, experimentam, e nós gostamos de acompanhá-los. Não há finais felizes, nem salvadores, nem plot twists, tudo é como tem de ser e, se por momentos esquecermos o lado ficcional, Os Mutantes podia ser um documentário (como inicialmente foi pensado pela realizadora que visitou muitas instituições de reinserção social).

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Na sua primeira longa-metragem, a promissora Ana Moreira é Andreia e oferece-nos uma interpretação cheia de entrega e mágoa, num sofrimento interior carregado de inocência. Ao seu lado, Alexandre Pinto dá tudo de si na pele do jovem Pedro. Aqui, a maioria dos atores frequentavam realmente instituições semelhantes às que o filme mostra. As crianças e jovens marcam as obras de Villaverde e nesta longa-metragem eles são o motor da narrativa. São eles que nos transmitem a estranha (e quase contraditória) sensação de liberdade que nos contagia e inebria, até ao final.

Os Mutantes passou pela secção Un Certain Regard do Festival de Cannes, em 1998, e é um marco que importa não esquecer no Cinema Português. A aura que paira sobre o filme é triste, desconfortável, mas envolve-nos, como poucos, e transmite os sentimentos mais fortes e contraditórios, faz-nos pensar. Teresa Villaverde foi uma revelação, com a audácia que o público ansiava, na denúncia de uma crua realidade. Os Mutantes ajudou a construir a História de sucesso do nosso cinema: não há muitas palavras que o definam, mas fica a certeza que todos deviam vê-lo e refletir sobre ele.

Hollywood, tens cá disto? promete trazer, mensalmente, até nós aquilo que só Portugal nos dá: o Cinema Português. Não que de Hollywood não cheguem muitos títulos de qualidade, mas de Portugal, ao longo das décadas, têm sido muitos os grandes filmes de que pouco se fala. Esta é a rubrica certa para se falar deles

Ficha Técnica

Realizadora: Teresa Villaverde

Argumento: Teresa Villaverde

Elenco: Ana Moreira, Alexandre Pinto, Nelson Varela, Alexandra Lencastre, António Capelo, Isabel Ruth

Duração: 113 minutos

Nota: 9/10

Inês Moreira Santos