Depois de apresentar o seu mais recente trabalho bear me na quinta edição do GUIdance – festival internacional de dança contemporânea, Cristina Planas Leitão falou com o Espalha Factos sobre o seu trabalho e a sua relação com a dança.

Cristina Planas Leitão é uma das mais novas coreógrafas portuguesas, tendo iniciado a sua formação no Ginasiano Escola de Dança, em Vila Nova de Gaia. Chegou a iniciar os estudos de medicina na Universidade do Porto, mas acabou por optar pela dança formando-se em 2006 na escola holandesa ArtEZ – Hogeschool voor de Kunsten. Apesar de jovem, Cristina já trabalhou com inúmeros coreógrafos nacionais e estrangeiros, contando já com alguns prémios na sua carreira. O Espalha Factos falou com esta jovem interprete nortenha para quem a “a dança tem as costas largas”.

EF: Como é viver entre dois países que têm atitudes tão diferentes com a dança?

Cristina Planas Leitão: Na Holanda, o sistema da dança e de casas de produção/ teatros que produzem dança está estabelecido há muito tempo. O próprio excesso de subsídio para projetos e companhias levou ao colapso desse mesmo sistema em 2011. Muitas companhias tiveram que fechar e estão agora num processo de reinvenção. O que apesar de doloroso para muitos está a ser bastante interessante do ponto de vista artístico e da maior qualidade das produções que estão a surgir. No entanto não é por tudo isto que a qualidade das criações é melhor, de todo. Aliás foi por isso que quis voltar a Portugal no final de 2011. Em Portugal cria-se mais e melhor, mas infelizmente com menos condições para as produções, internacionalização ou mesmo digressão nacional.

“Em Portugal cria-se mais e melhor, mas infelizmente com menos condições para as produções, internacionalização ou mesmo digressão nacional.”

 

EF: Atualmente tem havido alguma valorização da dança no nosso país?

CPL: Sim, claro que tem. Pelo menos no Porto temos notado imenso isso com a reabertura do Teatro Municipal. Várias estruturas da cidade já nos apoiavam, mas agora há o potencial de ser com mais condições e mais visibilidade, o que é importante. Nos últimos 3 anos, o Teatro Nacional S. João apoiou também as Mostras desNORTE, o que foi um marco no panorama da colaboração artística de criadores emergentes da cidade e sua exposição ao grande público.

EF: Acha que fazem falta mais eventos como o GUIdance em Portugal?

CPL: Sim, claro que fazem. É importante haver festivais como o GUIdance que combinam a criação nacional, apoiando-a com a internacional.

EF: Como surgiu o conceito para bear me?

CPL: Surgiu da necessidade de me isolar para perceber o que era o meu trabalho e da necessidade de falar de relações, não só da relação entre o performer com o público, mas entre mim e os outros, entre o Homem e a Sociedade. No início queria falar sobre o Amor, mas depois de alguns períodos de pesquisa percebi que seria algo mais extenso e que nesta peça o amor seria também conforto, desconforto, distância, relação, mas sempre de uma forma algo ambígua para que possa abordar temas gerais de uma forma à partida pessoal.

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EF: E como se desenvolveu o processo de criação coreográfica?

CPL: Comecei por ler alguns textos sobre ursos polares e de como se isolam na natureza. Li textos sobre amor obsessivo, isolamento, solidão, etc. Chamei para um projeto de pesquisa que na altura criei, a coreógrafa eslovena Mala Kline, a qual admiro imenso e nessa semana que fez explodir o meu tema. Trabalhamos essencialmente sobre presença e o que é estar perante um público e poder ser íntimo dele, estabelecendo uma relação imediata. Para essa pesquisa convidei parceiros de colaboração como a Catarina Miranda, a Mara Andrade, o Marco da Silva Ferreira e a Joana von Mayer Trindade. Depois fiquei sozinha, mais uma vez… A digerir e a filtrar. E foi evoluindo.

“As questões foram colocadas por mim mas isso não quer dizer que fossem minhas pessoalmente. Há que não confundir arte com terapia.”

 

EF: Na sinopse de bear me coloca uma série de questões sobre a relação do eu com o outro. Conseguiu resolver alguma destas questões?

CPL: As questões foram colocadas por mim mas isso não quer dizer que fossem minhas pessoalmente. Há que não confundir arte com terapia. Pelo menos não a que faço. Muitas vezes depois do solo me perguntavam se estava bem, ou se a minha relação íntima estava bem. Há ferramentas, há distanciamento, há temas, há figurinos e há justaposições de várias camadas que podem ter inúmeras leituras quando conjugadas. Eu sugiro e o público deduz.

EF: 1+1=1? O que significa esta falsa expressão matemática?

CPL: Para mim, significa que um todo é feito de várias partes que se influenciam mutuamente. É uma falsa expressão, de facto, uma ficção.

EF: Prefere trabalhar com um conceito concreto ou explorar algo mais abstrato?

CPL: Acho que os dois se acabam por misturar necessariamente na criação. Parto sempre de uma vontade e essa vontade é concreta. Por vezes a forma de se concretizar torna-se abstrata. Gosto da mistura das duas, cria espaço para novas leituras.

EF: Como é ser coreógrafa e bailarina da mesma peça? Prefere assim ou desempenhar só um dos papéis?

CPL: Para já tem sido sempre assim. Ainda não tive a experiência de ficar apenas “de fora”.

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EF: O número de colaborações com outros coreógrafos estrangeiros é grande. Consegue destacar alguma?

CPL: A nível de cocriação destaco definitivamente a colaboração com a Jasmina Krizaj. É para continuar!

EF: E quais os coreógrafos e trabalhos que tiveram mais influência em si ao longo da sua formação?

CPL: Muitos influenciaram pela negativa e ensinaram o que não fazer, se calhar, a maioria! O primeiro trabalho que interpretei para a coreógrafa Gabriella Maiorino foi uma grande influência. Foi muito exigente física e psicologicamente e foi o meu primeiro trabalho e o mais exposto de todos até hoje. Uma das grandes influências é sem dúvida a Meg Stuart. Gostei imenso das peças Blessed e Violet. Outra é Nicole Beutler pela simplicidade e insistência e magia da composição. Hoje em dia fico mais fascinada por pares, por pessoas mais próximas de mim e pela forma como estão a descobrir o seu trabalho.

“Influenciar acho que todos influenciamos. Ninguém vive isolado e de uma forma neutra…”

 

EF: E invertendo os papéis, como gostaria de influenciar alguém?

CPL: Ahahah! Tento influenciar nas aulas que dou, por exemplo e na forma que me dedico a prepará-las. Quanto mais não seja obrigo as pessoas a escolher aquilo que querem ou a tomarem consciência do que fazem , mas nem sempre consigo e nem sempre as pessoas querem. Influenciar acho que todos influenciamos. Ninguém vive isolado e de uma forma neutra…

EF: O que é para si a dança?

CPL: Ui. Não sei! É uma forma de viver. É o meu trabalho, é o que faço. É a minha relação mais íntima. Se bem que o que faço estende-se para lá da dança. A dança tem as costas largas…

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EF: Há sempre uma mensagem a passar?

CPL:  Não, nem sempre. No meu trabalho tento mais que haja uma experiência a passar. Ou uma experiência pela qual o público passe enquanto está a assistir ao espetáculo e que, se possível, se manifeste ainda depois. As peças não são criadas pelo intérprete sozinho mas acontecem num espaço “entre” de transmissão entre o performer e o público e assentam, na experiência induzida por elementos simples e familiares tais como tempo, espaço, respiração, olhar, choro. O trabalho não tenta concluir mas sugere, através do absurdo, do banal, do humor. Permite a emergência de significados como complexas metáforas.

EF: Já está a pensar numa próxima peça para apresentar?

CPL:  Isto tem que ser com muita antecedência… Sim, vai estrear no 1º trimestre de 2016. É uma peça para 3 intérpretes, para já intitulada de FM – featuring mortuus.

*Todas as fotografias foram retiradas do site oficial da intérprete.