Cinquenta Sombras de Grey 1

Cinquenta sombras de uma crítica

Não há papel mais ingrato do que o de um crítico no dia em que lhe cabe escrever sobre um filme como As Cinquenta Sombras de Grey.

Experimentei pela primeira vez um sentimento Niilista ao sair de uma sala de cinema. Pensei nos outros críticos, no que teriam pensado. Ignoro as expectativas que tinham. Ignoro quantos teriam antes lido o livro. Pouco importa, qualquer crítica sobre este filme será sempre um fracasso. Dezenas de milhões de pessoas fizeram esgotar as suas estreias em todo o mundo. Ninguém precisa de um crítico para saber que este é um péssimo filme. Para despachar, o argumento é péssimo, as performances dos atores são sofríveis, e a realização espalha-se no inglório esforço de tentar fazer alguma coisa com o pobre material que lhe foi dado.

Não posso evitar o doloroso processo empático de me colocar nos pés da realizadora. E se eu me sinto niilista, imagino a pessoa a quem é dada a tarefa de pegar naquele volumoso conjunto de papel que constitui o primeiro volume desta trilogia, e tentar fazer daquilo uma longa-metragem. Poderão argumentar que nenhum realizador é obrigado a aceitar adaptar uma acendalha ao cinema, mas também ninguém me obrigou a ir ver o filme e escrever a crítica, e no entanto aqui estou, é a minha função.

Cinquenta Sombras de Grey 3

Imagino que num qualquer momento do seu trabalho, Sam Taylor-Johnson terá pensado que este poderia não ser o mais brilhante passo na sua jovem carreira, relembro que o seu prévio Nowhere Boy foi um forte candidato aos BAFTA em 2010. Espero que um dia mais tarde, quando As Cinquenta Sombras de Grey servir de calço para a sua estante de DVDs, ela consiga rir-se deste momento da sua carreira. Poderá tudo isto ser imaginação minha, e certamente não verão ninguém associado a estes 125 minutos de filme a dizer mal da obra que ajudaram a abortar, mas se ninguém me convence que a realizadora não se envergonha da desgraça que realizou, também ninguém será capaz de me demover da ideia de que se não está, então certamente deveria.

Cinquenta Sombras de Grey 2

Abordar a parte temática deste filme poderá ser arriscado; por um lado poderei estar a levar o filme mais a sério do que ele merece, por outro não posso deixar de pensar que há a incómoda possibilidade de estar a insultar vastos milhões de pessoas que paparam cada página da trilogia, e que se aproximaram do orgasmo ao ver a sua transformação em lixo cinematográfico. Mas eu nunca fui muito calculista, e não me parece que este seja o momento certo para começar. Vou optar pela versão resumida, a obra é um insulto à inteligência da humanidade, à independência e ao papel da mulher na sociedade e na relação sentimental e sexual, e ao bolso de quem ciente disto pagou para o ver (como eu, mea culpa). Não vou considerá-la um insulto à sétima-arte, porque isso seria considerar esta coisa arte, e, sejamos honestos, está muito mais próximo de ser um pisa papeis.

Não concordam? Caros leitores, sejam homens ou mulheres, se se sentem tentados a ver cinema sobre um homem rico, e controlador a roçar o patológico, a espancar uma virgem depois de a fazer assinar um contrato, façam-no como deve ser, a indústria pornográfica é um negócio legítimo e bem mais capaz de criar boas experiências neste ramo (o argumento é certamente melhor). Caso contrário este filme é apenas uma alternativa socialmente aceite para quem não tem coragem de assumir o que realmente quer ver, e se contenta com duas horas de uma espécie de soft-porn sadomasoquista com algumas infelizes referências pedófilas, e, sejamos honestos, isso é no mínimo um bocadinho triste e deprimente.

Para lerem a crítica da Sara Alves sobre este mesmo filme, cliquem aqui!

2/10

Ficha Técnica:

Título Original: Fifty Shades of Grey
Realizador: Sam Taylor-Johnson
Argumento: Kelly Marcel (argumento), E.L. James (romance)
Género: Drama / Romance
Duração: 125 minutos
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