Esta é já a 65ª edição do Festival Internacional de Berlim, conhecido como Berlinale. O Espalha-Factos teve o prazer de estar presente na capital germânica e assistir a uma sessão do filme Selma no Friedrichstadt-Palast, uma das grandes salas que acolhe este evento.

Este é um dos mais importantes festivais europeus de cinema, não ficando muito atrás de Cannes. O Berlinale sempre contou com um fabuloso programa e este ano não falhou em impressionar. Durante mais de 10 dias – o festival começou dia 5 de fevereiro – Berlim tornou-se na incontornável capital do cinema e muitos foram os grandes nomes que desfilaram pelas ruas frias da capital Alemã e que apresentaram as suas mais recentes obras.

O programa deste ano contou, como é já norma, com muitas antestreias – sim, a mais conhecida do público foi a do mais recente blockbuster que contaminou o dia dos namorados, As Cinquenta Sombras de Grey. Mas, ao contrário do que acontece talvez com os festivais de cinema portugueses (na sua generalidade), a secção competitiva afirma-se como a mais importante, impactante e com o melhor cinema que se podia ver no festival.

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A secção competitiva desta 65ª edição parecia ser feita para agradar a todo o tipo de público, e reuniu nomes já completamente estabelecidos na indústria como Kenneth Branagh que apresenta o seu mais recente trabalho enquanto realizador, Wim Wenders que realiza um filme que estrela James Franco e Charlotte Gainsbourg, entre outros. Por outro lado, reune um conjunto de trabalhos marcantes de nomes que passam despercebidos à generalidade do público, como Taxi de Jafar Panahi, filme que ganhou o Urso de Ouro e foi gravado dentro de uma viatura em segredo, já que Panahi está proibido de fazer filmes no Irão.

Mas no penúltimo dia do grande festival, o Espalha-Factos teve oportunidade de ir visualizar Selma, filme nomeado ao Oscar de melhor filme e que nos fala das lutas de Martin Luther King, em especial a marcha que o mesmo organizou em Alabama com vista a que o presidente norte-americano aprovasse uma lei que proibisse qualquer entrave ao direito de voto da população negra neste estado sulista dos EUA.

Selma – 7/10

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 Realizado por Ava DuVernay, Selma é um filme importante. É um lembrar, um recordar e uma lição de humanismo. Antes de ser um filme biográfico, é sim um tentar manter viva a memória dos horrores que a população afro-americana viveu nos EUA, principalmente nos estados mais sulistas deste país, onde as questões raciais e xenófobas sempre foram mais agudas.

Por isto, Selma é relevante. Pela sua faceta histórica e por mostrar uma pequena conquista de Luther King que pode passar despercebida àqueles que não estudam a fundo a História norte-americana. Mas se Selma é o lembrar de um passado, também é o ganhar de uma consciência para que estas situações não se tornem a repetir e, ver uma recheada plateia comover-se e aplaudir – de pé – a película quando os créditos começaram é a prova que o humanismo ainda sobrevive, até numa Europa que de dia para dia mais olha de lado para certas minorias étnicas.

DuVernay expõe apenas um pequeno episódio da vida política de King, mas ao fazê-lo tem todo o controlo sobre esta mesma história. A sua realização é eficiente e incisiva e há planos e sequências quase deliciosos que nos fazem questionar o que raio tinha a Academia na cabeça quando não a nomearam para o Oscar de realização.

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Na verdade, Selma é um caso algo estranho no seio desta Award Season. Com uma nomeação ao Oscar de melhor filme do ano, este filme reúne apenas mais uma nomeação, para melhor canção original, e todos os seus atores e técnicos são injustamente esquecidos.

A narrativa, no entanto, é talvez o aspeto que precisava de ser mais limado de todo o filme – e talvez a fotografia também, principalmente em espaços interiores -, ela sofre, por vezes, de uma grande quebra de ritmo, fazendo com que o espetador possa perder a atenção no filme e comece a divagar. Por outro lado, o build up que o argumento faz até às cenas mais cruciais da película são muito bem concretizados e a banda-sonora ajuda imenso a criar esse efeito.

Em suma, é um filme que não desilude e se afirma como uma das mais importantes obras deste ano sobre a cultura afro-americana nos EUA. É uma obra que pretende mostrar um pedaço de história para que as pessoas consigam construir uma ponte para o presente e lutar contra vários problemas sociais, como é o do racismo que em pleno século XXI ainda é responsável pelo abuso e mau trato de tantas e tantas pessoas.