Cave Story

Entrevista EF – Cave Story: os “antiquados” que percorrem o caminho doloroso

Dizem ser uma banda “antiquada” e que não estão a tentar inventar a roda. Os Cave Story, de Gonçalo FormigaPedro Zina Ricardo Mendes, surgiram em 2013, vindos das Caldas da Rainha. Depois das demos, saltaram para o EP Spider Tracks, que apresentam oficialmente em concerto no Sabotage Club, neste 14 de fevereiro. Em entrevista ao Espalha-Factos, falam sobre o percurso até aqui, a “saga” da pergunta sobre influências, com a consciência de que o caminho é difícil quando já tudo foi feito.

Como surgiu a banda?

Pedro Zina: Eu sou o baixista. O guitarrista e vocalista Gonçalo Formiga e o baterista Ricardo Mendes já se conheciam, já tocavam juntos, estiveram um bocadinho a tocar e depois falaram comigo para entrar na banda. Acho que foi nesse momento que começou a banda, enquanto trio.

Entraste depois para a banda, não foi um pouco estranho alterar a dinâmica, de passar de duas pessoas para três?

Gonçalo Formiga: Foi completamente diferente, não continuámos a fazer a mesma coisa que estávamos a fazer os dois… Passámos a fazer uma banda nova, agora com três pessoas.

PZ: Sim, mas…

GF: Já tínhamos tido bandas antes, umas com mais pessoas, outras com menos pessoas…

PZ: Mas também quando estavam os dois tinham poucos ensaios, ainda nem tinham dado nenhum concerto… Ainda estava a ser estudada. Eu entrei quase como se fosse de início.

GF: A dinâmica muda sempre um bocado. Tanto que nós chegámos a ser quatro, tínhamos um teclista até há pouco tempo.

PZ: Aliás, no videoclip da Richman ainda éramos quatro.

GF: Agora somos três outra vez, a dinâmica muda sempre um bocadinho, sim. Mas, no geral, o conceito é o mesmo.

E os projetos anteriores que tinham, eram todos muito diferentes ou alinhavam pela mesma sonoridade do vosso projeto atual?

GF: Eram diferentes. Eram coisas que fizemos em projetos separados, bandas desde os 16 anos… Coisas que íamos fazendo, mas nada com a ideia que temos em Cave Story, de fazer uma coisa melhor, era mais uma ideia de aprendizagem.  Acho que, da primeira vez que fomos ter um ensaio, eu nem sabia fazer bem os acordes como deve ser, era um bocado aquela coisa de ver as pessoas com outras bandas e pensar “eu também quero” e vais experimentar.

Quando é que pensaram “isto é mesmo a sério, vamos avançar”? Ou nunca pensaram nisso?

GF: Nunca houve um momento em que se pensasse isso, acho eu, mas aos poucos começamos a dedicar cada vez mais horas dos nossos dias à banda.

PZ: E também é uma questão pessoal. Cada vez mais, pessoalmente, era uma coisa que nos dava mais prazer tocar. Um processo natural de crescimento.

GF: Sim, a certa altura não sabias bem o que querias fazer e depois vais tocando e percebes que, se calhar, é isto que quero fazer, apesar de todos os problemas que isso tem… Mas, sim, fomos apercebendo-nos aos poucos, não houve um dia “agora vou levar isto a sério.” Foi aos poucos.

E o vosso processo de composição: têm muitas divergências a nível criativo ou vão todos para o mesmo lado?

PZ: Acho que cada um dá um bocadinho de si…

GF: Normalmente, quando há uma ideia que não faz sentido nenhum, toda a gente em uníssono diz “isto não faz sentido nenhum” e paramos. Acho que remamos para o mesmo lado. Inconscientemente ou conscientemente, porque já tocamos há bastante tempo juntos e já sabemos aquilo de que vamos gostar e aquilo de que não vamos gostar.

PZ: Às vezes tens de tocar aquilo de que não gostas para depois dizer “ok, isto é mesmo o que não queremos”.

Já lançaram o EP Spider Tracks e estão a pensar no primeiro longa-duração. Já estão a trabalhar nisso?

GF: Ainda não. Lançámos o EP há muito pouco tempo, oficialmente foi no início deste mês, a 2 de fevereiro, mas na verdade já estava online desde dezembro… Mas ainda estamos a ver o que vamos fazer, temos algumas coisas, claro, que fomos fazendo ao longo do tempo, mas ainda não temos uma ideia do que vai ser esse longa-duração. Se é que vai ser a primeira coisa que vamos fazer a partir de agora: ainda podemos lançar outro EP, ainda podemos lançar um single antes… Não sabemos ainda.

EP Spider Tracks, Cave Story

Não existe pressão externa para vos fazer lançar um longa-duração, então?

GF: Não, não, a pressão é só nossa.

Gravaram o EP sozinhos. Se avançarem com o LP em breve, vão continuar por esse caminho ou vão “pedir ajuda”?

PZ: Nós agora vamos ter oportunidade de trabalhar com uma editora e com um estúdio de gravação.

GF: O Pontiaq, que foi uma coisa que está falada por causa do concurso da Vodafone [Vodafone Band Scouting], que dava acesso a essa gravação e vamos usá-la para gravar o LP. E é bom, no sentido em que vai ser bom termos um input de fora e queremos ver como vai funcionar. Mas seremos sempre os co-produtores, se não formos produtores, vamos ser sempre co-produtores das nossas músicas, porque é uma parte que nos interessa bastante. Sabemos como as coisas estão a soar e assim… E também porque temos conhecimentos na área, também gravamos outras pessoas e assim: eu, o Ricardo… Seremos sempre co-produtores, mesmo que trabalhemos com outras pessoas.

E a nível de influências?

PZ: Muita coisa… É para dizer nomes?

GF: É quase tão difícil dizer aquilo que ouvimos como também aquilo que fazemos, do género, “que estilo é que vocês tocam? – Não sei.” É indie rock, post-punk… Vamos buscar muita coisa.

PZ: É difícil, porque… Quer dizer, temos um EP, e também já começamos a ouvir que tem músicas um bocadinho diferentes umas das outras e nós gostamos de muitas coisas e acho que, não sei, é estranho ter de haver sempre aquele “é o quê? É aquilo”. Não podes fazer uma música de um género e de outro no mesmo EP, que isso faz com que não seja coerente…

GF: Acho que é mais a estética geral da coisa. E aí a nossa estética vai sempre um bocado para uma coisa mais lo-fi, mais alternativa, a gravação caseira, a estética e ética mais do it yourself e que se reflete um bocado no aspeto das músicas. Agora… não é fado (risos). Mas agora o que é…

PZ: Queres a resposta clássica?

GF: Nós dizemos que é post-punk dos anos 70, início dos 80, indie dos 90… Mas isso é um bocado tentar dizer qualquer coisa. Porque, na verdade, podemos amanhã estar a ouvir uma coisa de um álbum e sermos influenciados. Já me perguntaram, assim numa de brincadeira, “e se tivesses de trabalhar com uma pessoa, uma banda estrangeira, tocar com ele, qualquer coisa?” e eu respondo uma coisa que se calhar não tem nada a ver, que é o Brian Eno, que não tem nada a ver… Mas é mais a ideia toda por detrás da música e do que ele constrói que me fascina e nem tanto a sonoridade em si. Portanto, vamos sempre buscar muita coisa e é complicado dar uma influência clara.Cave Story

Isto era só uma daquelas perguntas clássicas que toda a gente vos tem feito em entrevistas. Portanto, como deram muitas entrevistas: que pergunta é que já não podem ouvir, para além desta das influências?

PZ: Nós também não somos amargos em relação a isso das influências e é uma pergunta que tem de ser feita… É mais uma questão de não sabermos o que responder.

GF: É que podem perguntar-nos as nossas influências e, se eu dizer uma coisa que não tem nada a ver com aquilo que fazemos, pode ser um bocado estranho, percebes? Se calhar era o mais óbvio, era responder coisas que estive a ouvir há duas semanas… Mas isso se calhar nem faz sentido, porque isso não me influenciou assim tanto no momento em que fiz seis músicas de um EP. Por isso… a pergunta que já não podemos ouvir?

PZ: Não temos nenhuma…

GF: Acho que vai um bocado aí pela cena das influências e aquilo em que nos inspiramos. Nós costumamos ter uma resposta clássica e agora estávamos mais na boa e dispersámos completamente. Estarmos sempre a dizer isto e aquilo parece que temos a coisa preparada e não é assim, nós gostamos de muita coisa, mesmo, e lá está: o gostar nem sempre tem a ver com influências.

PZ: Com aquilo que influencia a nossa música…

GF: Podes falar numa série de coisas diferentes. Podes falar de influências que te fazem escrever uma certa coisa, influências que te fazem tocar uma certa coisa, de uma certa maneira ou a ideia por detrás daquilo. Há influências em vários pontos e vamos buscar várias coisas, como acho que toda a gente vai buscar. Mas, sempre que alguém fala em influências, acho que é um bocado forçado e pensam “ok, pensei nisto e vou dizer isto.” Na verdade, és influenciado por um pouco de tudo, é cliché, mas é verdade.

PZ: Mais vale as pessoas ouvirem e mandar o bitaite sobre o que é que lhes faz lembrar a nossa música. Porque a questão aqui é cada um ouve aquilo que quer ouvir.

É subjetivo…

PZ: Sim, é verdade.

GF: E para nós também é. Eu vou pensar numa música e dizer “isto faz-me lembrar uma coisa que ouvi há um tempo” e se calhar não tem nada a ver e ninguém vai ligar. Por isso é subjetivo, completamente.

A banda em concerto no Caldas Late Night.
A banda em concerto no Caldas Late Night.

Por falar em subjetividade e em coisas que as pessoas associam quando ouvem a vossa música, qual foi o comentário mais ao lado que já ouviram, sobre essas associações?

GF: Houve várias, acho eu. Disseram-me uma vez que era meio The Cure e eu não percebi…Não te lembras de mais nenhuma?

PZ: Houve aquela dos Strokes

GF: Houve várias de The Strokes! E, para nós, nem faz muito sentido, porque nunca foi uma coisa que… Quer dizer, eu gosto do [álbum] Is This It?, mas nunca pensei nos Strokes como uma influência. Mas, lá está, os Strokes têm influência de coisas de que gostamos muito, como os Velvet… Mas [a associação] com os Strokes é estranho.

E a pergunta mais difícil que já vos fizeram e que vos deixou sem resposta?

GF: às vezes, até são as perguntas que parecem mais fáceis, porque são tão genéricas…

PZ: Eu sei qual é: “onde é que se vêem daqui a cinco anos?”

GF: Sim, mas às vezes, são as perguntas mais simples, que parece que é fácil fazer a toda a gente, mas que são as mais difíceis de responder.

PZ: Essa dos cinco anos, não sabemos responder.

GF: Bastava daqui a cinco meses e eu não sabia responder.

Ia perguntar-vos sobre projetos para o futuro, mas se não dá para fazer previsões…

PZ: Pelo menos, editar música. Não sabemos se é um LP, se é um single, se é um EP… Mas música vamos fazer!

GF: Quer dizer, pelo menos gravar, não sabemos se vamos editar…  Pelo menos gravar mais alguma coisa.

PZ: E dar concertos. O máximo que der para andar aí a tocar, é o que nós queremos fazer este ano.

Concerto no Sabotage [14 de fevereiro], previsões?

GF: Estamos contentes. Achamos que vai ser uma noite porreira, sabemos que vamos estar em boa companhia, com o Eduardo, que já estivemos muitas vezes com ele… Com a Helena, com os Ghost Hunts, que não conhecemos pessoalmente, mas que vamos conhecer agora e estamos entusiasmados para ver o concerto deles, é uma coisa nova…

PZ: Vai ser fixe. Da nossa parte, acho que vamos dar um concerto fixe.

Vamos falar sobre o panorama musical português. O que é que vos chama a atenção?

PZ: Muita coisa. Faz-se muitas coisas boas em Portugal. Queres nomes? Podemos falar de 10 000 russos...

GF: Sensible Soccers

PZ: Pega Monstro, gostamos das coisas da CafetraGala Drop

GF: Loosers

PZ: Tudo em que o Victor Torpedo entre…

GF: Tudo em que o Nicotine entre… Mas de certeza que há imensas coisas que nós também não conhecemos.  Mesmo sendo pessoas atentas, há sempre qualquer coisa para descobrir: uma banda que apareceu há duas semanas… O que é fixe e entusiasmante. Achamos que o panorama está a correr bem e que há bandas cada vez mais fixes e que agora fazemos parte disso. Sentimo-nos bem com isso.

Cave Story

Conseguem descrever a vossa música?

PZ: Uma música com guitarra, baixo e bateria… Baixo e bateria sempre coladinhos um ao outro, guitarras no sítio…

GF: Somos uma banda antiquada, uma banda de guitarra, em que é a base da coisa. Músicas sem guitarra deixam um bocado de fazer sentido.

PZ: Não sabes…

GF: Somos um bocado antiquados no sentido em que é uma banda de baixo, guitarra e bateria, não temos mais muitas coisas.

PZ: Não inventámos aqui a roda. (…) Nós também nunca  soubemos descrever também o som, estamos a começar.

GF: Temos um bolo de coisas que fazem sentido e outras que não fazem sentido. Desdobramos isso nas nossas músicas e o “bolo” é baixo, guitarra e bateria. A voz de uma forma “menos cantada”.

PZ: Menos melódica…

GF: A voz é mais tipo punk. É um som muito orgânico, não temos nada assim muito eletrónico.

Acham que algum dia vai ser possível responder à pergunta do que é o vosso som? Ou acham que isso é mito urbano?

GF: A maior parte das vezes, alguém faz alguma coisa, tem uma ideia inicial, como estamos a dizer, e depois constrói ali a coisa e de repente as pessoas é que criam uma ideia na cabeça delas, baseada naquilo que os outros vão escrevendo e o que vão ouvindo, tipo “ah, faz-me lembrar isto.” Aí é que se constrói a coisa, não é a própria banda que constrói a identidade porque, quando a banda constrói a própria identidade, acontece uma coisa que eu acho que é um bocado foleiro… É gimmicky [uma característica muito particular, que se esgota]. Até que ponto é que depois se pode explorar mais isso? Nunca conseguimos encontrar isso ou ser uma banda que se veste desta forma ou daquela… Vamos tentar ser nós próprios, o que é bem mais complicado.

PZ: Sim, assumindo as nossas influências e isso.

GF: Sem estarmos a tentar inventar algo de incrivelmente novo, tentar procurar algo que haja em nós, que possamos dar às pessoas. Mas há alguns gimmick que resultaram muito bem. Tentamos ir pelo caminho mais doloroso, que é saber que já tudo foi feito, mas mesmo assim tentar procurar alguma coisa que ainda seja tua.

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