Cartaz---Lisboa-Famosa (1)

‘Lisboa Famosa (Portuguesa e Milagrosa)’: cenas lisboetas de autos antigos

Em 1973, Luis Miguel Cintra e Jorge Silva Melo fundaram o Teatro da Cornucópia. Passados 42 anos e 113 peças levadas a palco, o mais recente espetáculo, Lisboa Famosa (Portuguesa e Milagrosa), estreia hoje, permanecendo em cena até dia 15 de março.

Com encenação de Luís Miguel Cintra, Lisboa Famosa (Portuguesa e Milagrosa) aborda cenas lisboetas de autos quinhentistas portugueses, através de uma cuidada colagem de textos, tal como aconteceu com os de Aristófanes para o nascimento de A Cidade (2010). Aliás, esta nova produção também aborda a vida social da cidade, neste caso da capital, num registo simultaneamente popular e erudito, em que a crítica, como por exemplo à corrupção, não deixa de existir. Com uma duração de 2h45, o espetáculo divide-se em duas partes, com 1h45 e 1h respetivamente, entre o qual ocorre um intervalo de 15 minutos para restabelecer baterias depois de quatro cenas divertidas, mas que exigem uma boa dose de atenção (como de resto a peça em si), sobretudo quando a linguagem usada é estrangeirada ou mesmo mais arcaica.

Na primeira cena, A Portuguesa e os Outros – construída a partir do Auto da Fama, de Gil Vicente – uma jovem pastora (Rita Cabaço) vê-se confrontada com os seus pretendentes, de entre os quais se encontra um francês (Luís Lima Barreto) e um italiano (Guilherme Gomes), que acabam a receber uma lição de história sobre as conquistas portuguesas no Índico depois de serem escutados com desatenção e sarcasmo face às suas propostas de aliciamento. A personagem Joane (Sílvio Vieira), que representa a figura do parvo, também está presente logo de início, em grande cumplicidade com a Portuguesa Fama. É de destacar a representação de Rita Cabaço que retrata muito bem traços do português rústico e enriquece a comicidade da cena com a excelente caracterização da sua personagem, facto que se verifica igualmente quando faz de Lucinda, de a Fome e de Isabel Botelha. Apenas Santa Caterina deixa a desejar.

Na segunda cena, criada a partir do Auto dos Sátiros de autor anónimo, a personagem A Ventura (Ana Amaral) traz ao público um pouco de teatro de revista, com a interpretação de uma canção, enquanto Pero D’Abreu (Luis Miguel Cintra) tece comentários acerca da sua linda voz, como se fizesse parte do público, aliás, como faz ao longo de toda a representação da cena em causa, refletindo “quer o distanciamento do autor face à comédia humanista, quer a empatia do espetador com algumas das personagens”. O encenador, que é também ator em quase todas as peças que encena, representa de facto três personagens (além de Pero, é ainda o Diabo e Gonçalo Macho) bastante bem-humoradas, com saídas propícias a gargalhadas.

Com sete cenas, quatro na primeira parte e três na segunda, a peça é ainda constituída de textos provenientes do Auto das Padeiras de autor anónimo, do Auto de São Vicente e do Auto de Santo António, de Afonso Álvares, do Auto da Festa, de Gil Vicente, de excertos da vida de Santo António na tradução portuguesa de Franco Barreto da Flos Sanctorum, de Pedro de Ribadaneyra, da Crónica da Ordem dos Frades Menores (1209-1285), do “serventês” Vej’eu as gentes andar revolvendo, de Pero Mafaldo, e algumas frases acrescentadas em ensaios.

No que diz respeito à música, além do espetáculo vocal de Ana Amaral, também Sofia Marques demonstra os seus dotes (sendo igualmente fenomenal enquanto atriz), ao representar A Cidade de Lisboa. Também Guilherme Gomes (um declamador de poesia excecional para quem o reconhece de ter participado no programa Portugal tem Talento, em 2011) deu ar de sua graça, embora seja efetivamente muito melhor ator do que cantor.

Com um cenário simples, mas prático e dinâmico, com o qual as personagens interagem, modificando-o a seu belo-prazer, e um figurino quer antigo quer atual (aparecendo ainda A Cidade de Lisboa com um traje muito característico do teatro de revista), são as interpretações que fazem brilhar o espetáculo, em virtude do rigor e expressividade com que todos dizem o texto, cuja dificuldade é tão grande quanto a sua qualidade. De destacar Rita Durão como A Verdade e Branc’Anes, Sofia Marques como a Velha e Sílvio Vieira como um parvo. Contudo, entre representações mais ou menos fortes, a qualidade é muito satisfatória e é impossível não ficar rendido a uma peça tão trágica como cómica.

Resumindo, Lisboa Famosa (Portuguesa e Milagrosa) é o retrato de uma Lisboa múltipla nas suas formas, religiosa, mas divertida com os seus arraiais e mesmo com o seu fado saudoso, vítima da fome, da mentira e da corrupção, que ainda hoje são problemas sociais atuais, e que no entanto não matam a esperança, que essa é sempre a última a morrer (e “que nos valha o Teatro!”, como chega a dizer uma das personagens). É ainda uma introdução ao português antigo e à primeira fase do teatro português, sendo de grande interesse para grupos escolares, desde que devidamente contextualizados.

A peça estará em cena até dia 15 de março, de terça a sábado, às 21h, e todos os domingos, às 16h, no Teatro da Cornucópia.

Fotografias da autoria de Raquel Dias da Silva

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