O Mundo de Fora, do escritor colombiano Jorge Franco, venceu o Prémio Alfaguara de Romance 2014 graças a detalhes explosivos para uma narrativa a balançar entre a realidade e a magia: um sequestro pensado ao milímetro, uma protagonista fechada num castelo fascinante na cidade de Medellín e analepses colocadas ao longa da narrativa, numa aproximação a um guião de cinema. Editado pela Alfaguara Editora, uma chancela da Penguin Random House Grupo Editorial, encontra-se à venda nas livrarias portuguesas.

Um boletim informativo das Forças Militares da Colômbia de 1971, a informar sobre o sequestro de Dom Diego Echavarría Misas, dá início à narrativa de O Mundo de Fora, do escritor colombiano Jorge Franco. A história distinguida com o Prémio Alfaguara 2014, um dos mais importantes prémios literários de Espanha, oferece ingredientes promissores para uma boa narrativa: um sequestro, organizado por um bando de criminosos para extorquir dinheiro à família de Dom Diego; uma protagonista, de nome Isolda, trancada num castelo sumptuoso com uma estranha atmosfera e várias analepses de forma a dar conta de todo o caminho percorrido até ao momento do sequestro.

O Mundo de Fora

Isolda vive fechada no castelo onde vive, unicamente com autorização para sair e brincar no bosque. As suas brincadeiras com seres estranhos, habitantes do bosque, e a vida de todos os empregados são provavelmente observadas por todos os olhos, de habitantes a meros curiosos com a extravagância do castelo. «Gostamos de rondar o castelo, sempre de longe, com medo do que há nesses sítios: torres, caves, abóbadas e fantasmas, apesar de lá viverem princesas e reis», estes olhos que vigiam o castelo, num misto de curiosidade e vigilância em alguns momentos da narrativa, nunca largam a vida do castelo e plantam a dúvida no leitor: é este castelo de Medellín um sonho ou um pesadelo?

A vida de Isolda é acompanhada de perto pelas várias personagens desta obra: Dom Diego, a esposa Dita, o criminoso e sequestrador Mono Riascos, os empregados do castelo – com um destaque para Hedda–, e o bando de criminosos. Cada um tem a sua visão de Isolda: o pai quer proteger, a todo o custo, a sua menina de todos os perigos que podem encontrar fora dos portões do castelo; o criminoso deseja continuar a alimentar a obsessão – longe de ser sexual – pela rapariga, por ter acompanhado todos os passos da sua vida dentro dos terrenos do castelo; a preceptora, longe de compreender os desejos da menina e o seu pensamento “fora da caixa”, só a deseja manter na ordem. E, aos olhos da mãe, falta normalidade na vida da criança, cada vez mais fechada no castelo. São poucos os momentos em que o leitor tem um contacto “pessoal” com esta menina, já que é dado a conhecer, em demasiadas vezes, a visão de uma outra personagem. Um toque de mistério capaz de deliciar e fazer continuar a leitura deste O Mundo de Fora.

A alemã Dita conhece o colombiano Dom Diego em plena época nazi e desde cedo não esconde os ideais liberais, com especial foco na sua ideia acerca do casamento. À medida que o tradicional Dom Diego se apaixona cada vez mais por esta mulher, ela demonstra-lhe que quer unicamente viver ao lado dele sem um compromisso matrimonial. Ideias aterrorizadoras para um homem com desejos de construir um castelo sumptuoso, ideias tradicionais em demasiados aspectos.

Num outro lado, e com mais destaque, dá-se a conhecer os acontecimentos que se seguiram após o sequestro de Dom Diego: o seu cativeiro, os maus tratos e o plano de Mono Riascos e dos seus compinchas para extorquir dinheiro a Dita e a toda a família. Mono é um criminoso com uma obsessão por Isolda, ao desejá-la para si, para cuidar dela como a sua filha. Desabafa com Dom Diego sobre os seus desejos e, à medida que o tempo passa, há um contacto com uma homossexualidade não assumida: há um rapaz, em que nunca descobrimos o nome, a cercar Mono e pedir-lhe presentes em todos os momentos. Os comportamentos deste personagem levam a que o desejo sexual pelo rapaz seja palpável mas nunca realizáveis.

Nesta obra há demasiadas linhas temporais e acontecimentos que podem levar o leitor a confundir-se mas é neste aspecto que reside a sua riqueza: todos os ângulos e pontos de vista – do presente ou passado – oferecem conteúdo, “reversos da moeda”, capaz de fazer o leitor compreender toda a tortura infligida a Dom Diego pelo bando de criminosos. O Mundo de Fora retrata um universo cheio de possibilidades quando a maioria das personagens está encarcerada em alguma situação: Isolda, cada vez mais sonhadora com as possibilidades longe do castelo, o grupo de criminosos, cada vez mais sonhadores com as hipóteses proporcionadas pelo dinheiro do resgate, a esposa alemã Dita, com todas as possibilidades que a nova vida em Medellín lhe poderá proporcionar, entre tantas outras.

Nota final: 7,5/10

Os dados d’O Mundo de Fora estão lançados, resta saber as conclusões dos restantes leitores. Podes ver, mais abaixo, uma entrevista de Jorge Franco sobre a obra:

Sobre O Mundo de Fora:

Título original: El mundo de afuera

Autor: Jorge Franco

Páginas: 304

Editora: Alfaguara (Penguin Random House Grupo Editorial)