Uma noite no Comuna Teatro de Pesquisa começa com um agradável travo a clandestinidade. Tratadas as típicas formalidades com os ingressos do espectáculo, somos amavelmente convidados a seguirmos em frente para a área de lazer deste espaço: um agradável salão de bailes e de espectáculos habilmente decorado de encarnados e de madeira, com uma iluminação a meia intensidade que só confere um destaque ainda maior à lareira que se encontra no meio do espaço. A possibilidade de se poder tomar uma bebida num ambiente tão acolhedor e misterioso só dá vontade de conspirar e fervilhar ideias e pensamentos secretos numa daquelas agradáveis mesas. A experiência começa, sem dúvida, à entrada deste bar tão carismático. Depois lembramo-nos que temos um espectáculo para ver.

A visita ao espaço de recepção coloca-nos na disposição certa para ver uma peça de teatro que rapidamente nos diz que o que temos em frente é algo de bastante especial. Play Loud é o mais recente texto do dramaturgo alemão Falk Ritcher e é estreado pela primeira vez em Portugal. E realmente podemos dizer que a casa experimentalista do Teatro da Comuna não poderia ser melhor madrinha para a incursão lusa deste texto.

Na sua essência, Play Loud é uma obra extremamente eficaz: a escrita é despida, crua e sintética. O autor vai logo ao assunto. Deixa-nos poucas dúvidas sobre o que quer dizer e no entanto faz-nos sair da sala com ainda mais reflexões e pensamentos do que tínhamos antes.

Aqui, o encenador Álvaro Correia põe-se ao serviço do texto de Ritcher para nos oferecer uma inquietante e muito absorvente deliberação sobre as relações humanas e as fragilidades da comunicação entre seres humanos. Não falamos da típica questão das redes sociais e como a tecnologia diminui o nosso contacto. Aqui, Ritcher vai mais longe e explora o veneno que o próprio homem lança à sua capacidade de falar, de sentir, de sentir o que fala e de falar o que sente. Somos confrontados com uma época actual onde as tecnologias distorcem estas nossas capacidades, e também com uma época universal e transversalmente temporal em que o próprio espírito individual(ista) complica a nossa capacidade de falarmos e interagirmos harmonicamente. Tudo isto numa entrega em palco engenhosa e imensamente sensorial.

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Na já tradicional direcção da Comuna, a audiência é posicionada no meio da acção. A partir do momento que o espectáculo começa somos todos membros integrantes do mesmo. A proximidade com os intervenientes principais, a possibilidade de ouvirmos as suas vozes atrás das nossas cabeças, a visão de lhes ver arfar o peito coloca-nos completamente imersos num texto cujo o interesse é, atrevo-me a dizer, universal para qualquer ser humano que se considera um ser social neste mundo de hoje. À nossa frente, os adereços resumem-se a almofadas, dois ecrãs com projecções e uma guitarra comandada pelas mãos habilmente treinadas de Hugo Franco.

Somos convidados a assistir uma narrativa solta onde uma sociedade composta por seis pessoas que exploram as problemáticas que abalam o sentimento contemporâneo. Temos a relação jovem e difícil onde as exigências emocionais transcendem a capacidade de uma das partes, temos uma infância bizarra que moldou uma frieza sentimental e uma fobia às relações, sejam elas quais forem, e uma esquizofrenia violenta e doentia motivada pelo génio interior de cada um e pelos instrumentos tecnológicos que nos escravizam à vigilância e à conexão constante. O espírito humano é selvagem. Já dizia George Carlin, “the planet is fine, but the people are fucked“.

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E em boa verdade, Play Loud é sobre as pessoas. Estas figuras vagamente desenvolvidas são arquétipos, são bonecos que representam essências humanas que vemos todos os dias, que representam maneiras de estar e de sentimentos ora passivos, ora explosivos, ora lançados para fora, ora reprimidos para o nosso interior. Assim, desenrola-se a perspectiva do amor (próprio e partilhado), e outros assuntos, sob o prisma volátil da alma jovem e na visão do olhar aguado e desiludido, manchado pela idade. Tudo isto num texto extremamente contemporâneo a nível semântico e sobretudo a nível formal. Frases curtas, ideias aparentemente desconexas e personagens que saem do espectáculo para nos dizer como se sentem, usando outras artes como o cinema e a música para se explicarem melhor.

A arte e a mistura dos meios é uma dimensão proeminente em Play Loud, as referências são apresentadas de forma directa e sem rodeios. Falam-nos de Gus Vant Sant e Cronenberg directamente com os seus produtos com recurso a materiais diversos e lançam-se de temática a temática com interpretações dinâmicas de canções notórias ao vivo, parecendo por vezes, que as mesmas nasceram para este espectáculo. Valerá certamente a pena ver como é que Jacques Brel e Radiohead se integram nesta problemática da comunicação. O que também vale a pena e chega a ser comovente é ver como este elenco mínimo descarrega os sentimentos em palco à distância de um palmo.

Play Loud

A expressão corporal assume o protagonismo em alturas que a palavra se renderia inútil. Para além de intelectualizar, somos também convidados a sentir à flor da pele estas emoções. É fantástico experienciar estes momentos de autêntica catarse, perversidade e até ironia pelos corpos de Carlos Paulo, Cucha Carvalheiro, Lia Carvalho, Vicente Wallenstein, Álvaro Correia e Hugo Franco. O conjunto de actores fala bem alto e certamente está a dar o máximo nestas noites para tocar profundamente cada plateia que à sua frente se presenteia.

Resta dizer que Play Loud não é na sua essência, um espectáculo pesado ou mórbido. É antes um abanão emocional eficaz para uma sociedade que se encontra adormecida, utilizando o corpo humano, a voz, o som e o ocasional humor para o fazer. E se não for para fazer assim, para que servirá o teatro? Quem sair de Play Loud não o fará a sentir-se pesado ou cabisbaixo, mas antes desafiado e talvez abanado e tentado a formular as suas próprias ideias e concepções. Ou pelo menos esperemos que sim. Em todo o caso, é de louvar a direcção cénica e a abordagem por parte dos actores, bem como o próprio texto que é algo de precioso no teatro do presente. O seu maior trunfo é como de forma pouco intrusiva, contudo certeira, nos faz sentir e reflectir. E reflectir é algo que tem feito falta ao mundo.

Play Loud estará em cena até ao próximo dia 22 de fevereiro no Comuna Teatro de Pesquisa.

 * O artigo foi redigido, por opção do autor, ao abrigo do Acordo Ortográfico de 1945.