Irene-Cruz-Ana-Guiomar

Entrevista EF. Irene Cruz: “Eu sou livre, totalmente livre.”

Estreando-se nos palcos portugueses em 1959, Irene Cruz é um dos maiores e mais experientes nomes do teatro português. Com um percurso invejável, para além de ter passado pelo cinema e pela televisão, fundou o Grupo 4 e o Teatro Aberto. Em 2002, recebeu a Cruz de Grande Oficial da Ordem do Infante D. Henrique. Foi a propósito da sua mais recente peça Amor e Informação, que o Espalha-Factos teve a oportunidade de partilhar uma  conversa com Irene Cruz, onde falámos sobre o conceito original de Amor e Informação e a sua autora Caryl Churchill, mas também sobre a longa e venturosa carreira da atriz e a evolução do teatro.

Uma jovem Irene nas paredes, figurinos usados pelas suas personagens em cima de um sofá, recortes de trabalhos passados por todos os lados  e uma grande atriz que nos presenteia com a sua simpatia, alegria e humildade. Estão reunidas as condições para uma conversa promissora. Foi assim que o Espalha-Factos encontrou Irene Cruz, que nos recebeu no seu camarim, no Teatro Aberto.

Irene Cruz no seu Camarim, Teatro Aberto
Irene Cruz no seu camarim, no Teatro Aberto

Espalha-Factos: Amor e Informação é uma peça com um conceito diferente. Não é uma narrativa tradicional, são vários mini-sketches, várias histórias.

Irene Cruz: São várias histórias humanizadas. Mas eu gosto. Eu gabo mesmo o talento da escritora Caryl Churchill. É a segunda peça que faço dela. Ela é uma senhora de 76 anos. Tem um bocadinho mais do que eu, que também já estou nos 70s! E tem uma cabeça de mulher de 40.  A outra história que fiz dela, Top Girls, também era assim. Várias histórias metidas numa só e depois a resolução final existia, estava lá. Como nesta! São pontos de vida, várias vidas, várias pessoas diferentes entre aquilo que nós somos. Estamos a transmitir vidas de outras pessoas e há coisas, sempre, que se coadunam em nós mesmos. Eu, enquanto atriz, há coisas em que me revejo e outras que fico:  “nunca tinha pensado nisso assim”. É uma aprendizagem também. E como ela sabe desenvolver temas tão díspares entre si, e que, depois todos têm uma ligação: vidas, amores e desamores! Penso que muita gente se pode rever nalgumas histórias que nós contamos. Olham para nós e pensam: “isto já me aconteceu”. Eu penso que o teatro, seja o texto que for, tem sempre uma linguagem que, eu não gosto de usar a palavra mensagem, mas dá recados. Uns que se revêm naquelas histórias e outros que nunca tinham pensado naquilo daquela maneira e que depois o utilizam. O teatro tem essa função, não obrigatoriamente, mas acaba por ter.

EF: Como é representar dezenas de personagens numa só peça?

IC: É muito engraçado! É muito interessante e desafiante, principalmente. Mas eu gosto de desafios. Perigosos, que é um desafio perigoso! Sentiu que eu era sempre diferente? Era a Irene, mas sempre diferente? É esse o desafio! A nível de expressão, tudo! Não é só a roupa! A roupa já modela, mas isso é que é importante, e a voz, e a forma como se diz. É sempre a minha preocupação: ser diferente e, muito menos, ser eu. É um desafio que eu gosto. Eu gosto do difícil. E não foi fácil chegar ao que está, para nenhum de nós. Treze atores em palco, e cada um diferente entre si, com anos de palco diferentes. Eu sou a que tem mais anos disto, comecei aos 15 anos. Sei muito, mas não sei tudo. Porque há sempre métodos diferentes e formas diferentes de fazer as personagens. A minha preocupação, sempre, é ser realmente diferente das personagens que já fiz. Tanto na postura física, como facial, como na dicção. Dar  “cor” à personagem que estou a interpretar. Com “cor” quero dizer a forma de contar a história, e aqui são várias. Não nos força, obriga-nos! Mas obrigações temos nós, enquanto atores, de fazer sempre o nosso melhor e o encenador tem muito a ver com isso, claro.

“É sempre a minha preocupação: ser diferente e, muito menos, ser eu.”

EF: Sempre quis ser atriz? Nunca tentou ser outra coisa?

IC: Amo muito aquilo que faço. Não sabia ser outra coisa. Alguém lá de cima é que me deu essa ordem mal eu nasci: “Tu vens ao mundo mas não é para seres uma qualquer nem fazeres uma coisa qualquer!”. Eu vim ao mundo para ser o que sou. Nunca tentei ser outra coisa. A minha mãe era dona de casa. Tinha outros dons, para outras profissões, mas naquela época, as meninas eram para ficar em casa. O meu avô depois queria que ela fosse costureira. Era o que havia na época! O meu pai, a mesma coisa. O pai dele era guarda republicano e barbeiro, portanto o curso que deu ao meu pai foi de barbeiro, não lhe deu chances nenhumas de tirar outro curso. Eram outras épocas. Graças a Deus que, comigo e com a minha irmã [Henriqueta Maya, que também é atriz], a intervenção foi benéfica: “Sei que há uma escola para aprenderem a ser atrizes [o Conservatório], vou saber qual é”. E o meu pai lá foi. Na altura, não era preciso ter o liceu concluído nem nada, o curso já incluía também os estudos do liceu. E ainda bem. Porque eu não aguentava.  Eu não sou muito rebelde, mas tenho uma certa rebeldia em mim. Cá dentro do meu eu há uma rebeldia que diz: “isso não é para ti!”. E eu vou atrás do que me diz. É verdade. E às vezes muito me contenho eu (risos). Mas eu não gosto de perder, gosto de ganhar, mas sendo educada, é uma mais-valia. Os meus princípios são esses. E fazer o que gosto é muito importante.

EF: Fale-nos do início da sua experiência no teatro. 

IC: A primeira peça profissional que eu fiz, aos 15 anos, foi no Teatro Nacional D. Maria II. Foi lá que eu me estreei! E numa época do Salazar. Complicada! Mas eles eram do regime, a Dona Amélia Rey Colaço e a Companhia Robles Monteiro. Não havia ali nada que ferisse susceptibilidades governamentais e fez-se a peça com muito êxito. Quando havia as palmas, eu ficava assim: “um bocadinho daquelas palmas são para mim!”. Eram? Sei lá! Mas eram, porque eu queria que fosse! Além disso, estava no primeiro teatro do país, pois não havia muitos. O Teatro Nacional D. Maria II tinha uma companhia fixa e era uma grande honra trabalhar com aquela companhia e com aquela direção. E eu tive essa honra! Estava no Conservatório e eles tinham a obrigação de, quando precisavam de jovens, irem buscá-los ao Conservatório e colocá-los já a exercer a profissão. E eu fui logo. Como parecia mais criança do que efetivamente era, puseram-me uns soquetes, um vestidinho e um laçarote na cabeça, e eu parecia uma miúda de 10 ou 11 anos. E eu adorava! E não esqueço isso, porque comecei como atriz profissional aí. Quando dizem: “ah, profissional é só quando se tem a carteira!”. Não, não! É quando se pisa um palco profissional, com profissionais, aí estamos um bocadinho ao lado deles.

 “Eu não gosto de perder, gosto de ganhar, mas sendo educada, é uma mais-valia.”

EF: Foi uma das fundadoras do Teatro Aberto, em 1974. Como classifica a evolução desta casa e do teatro nacional desde então?

IC: Vai evoluindo, com os anos. Começámos com a ditadura, éramos o Grupo 4 [composto por Irene Cruz, João Lourenço, Rui Mendes e Morais e Castro]. Sofremos imenso com isso, como todos os artistas do país. Passámos, graças a Deus, o 25 de Abril, que veio para acabar com a ditadura que existia neste país e para ficarmos libertos. Não podíamos dizer verdades, tínhamos uma censura demoníaca. Eles viam coisas em textos, que não estavam lá, que nem queriam dizer aquilo que estava na cabeça deles! Eles é que tinham uma mente sempre muito sórdida e suja! Quantas vezes houve textos que não pudemos fazer porque estava lá o lápis azul, página a página! Ultrapassámos isso, mas vivemos isso com amargura e dor. Depois do 25 de abril, veio uma lufada de ar fresco, veio a benesse para nós, artistas, que merecíamos realmente mostrar e fazer no nosso país aquilo que se faz nos outros países, porque o nosso público também tem direito a esses conhecimentos. Era complicado fazer teatro, fazer cinema, fazer arte! Isto era um país neurótico de pessoas mal-dispostas que não orientavam a nossa vida. A libertação foi muito boa e hoje fazemos o que se faz em Londres, o que se faz em Nova Iorque, nos países que são… bem, nem todos são civilizados (risos), mas têm as portas abertas a textos que nós não tínhamos. Eu nasci em Sacavém, que era uma vila pequenina, de gente operária, com muitas pessoas ligadas ao Partido Comunista. O  meu próprio pai era, e nós não sabíamos! Portanto, eu não podia ter outra forma de ser. Nada me foi obrigado a ser! Eu sou e acredito no que acredito por mim própria. Sou uma pessoa de esquerda, mas não quero que ninguém mande em mim. Eu sou livre, totalmente livre. Tenho o meu pensamento firme. E com muito orgulho. Não discuto política com ninguém, eu não sou política, mas sou… Sou como sou. Sou uma pessoa simples, mas que não me chateiem muito, que não me levantem muito a voz. Aquilo que sou, a mim o devo e é com muito trabalho que o faço. Tento melhorar o meu trabalho e arranjar sempre novas formas de o fazer. Temos de fazer o nosso estudo e melhorar sempre: é o trabalho de um ator, ou de qualquer ser humano!.

Irene Cruz - Passado e Presente
Irene Cruz – Passado e Presente

Zeen is a next generation WordPress theme. It’s powerful, beautifully designed and comes with everything you need to engage your visitors and increase conversions.