2015 é um ano importante para Olga Roriz. Num só ano celebra três aniversários. 60 anos, 40 anos de carreira e 20 anos da Companhia  Olga Roriz. Este foi o momento ideal para revisitar alguns dos espetáculos que têm marcado a sua carreira. Nos próximos dois fins-de-semana A Cidade(6 e 7 de fevereiro) e Pets (13 e 14 de fevereiro) estão no palco do São Luiz. Ao Espalha-Factos, a bailarina e coreógrafa falou das comemorações e não só…

Espalha – Factos: 2015  é um ano de balanços? De olhar para o passado e construir um futuro?

Olga Roriz: Há umas comemorações, obviamente, pois são agendadas com tempo e que eu acho que são importantes não só dentro da Companhia, mas para o público em geral. É importante perceber como uma Companhia independente ,num país sem grandes apoios, consegue estar vinte anos a trabalhar e com qualidade. O que para mim vai ser eventualmente, muito importante durante este ano, será revisitar, reviver e experienciar. Não me quero pôr num momento de balanço. Os balanços para mim não são muito prazíveis. Não é tanto isso, mas sim uma continuação.

EF: No final do ano passado, não pode dançar o solo Os Olhos de Gulay Gabbar, porque não estava bem fisicamente. Qual foi o pensamento na altura?

OR:Eu nessa altura nem me podia mexer, estava mesmo mal fisicamente. Coisa que também já aconteceu na altura da Sagração da Primavera. Portanto já tenho dois solos passados para duas bailarinas diferentes. Primeiro de tudo, já tenho 60 anos e fiz dois solos muito fortes. O último solo era muito forte para uma bailarina de 30 anos, quanto mais para uma de 60. Era mesmo perigoso. Eu não os vou puder dançar mais. Essa realidade é muito forte. Eu já os dancei e já os criei. Há um momento em que se tem de passar para outros bailarinos. É ótimo eu puder passá-las presencialmente para uma nova geração, que pode passar para outras. É no fundo dar vida a algo que podia morrer em mim.

Fotografias dos solos Os Olhos de Gulay Gabbar e A Sagração da Primavera

EF: A sua vida foi feita a dançar. Começou muito cedo. Aliás mudou-se de Viana do Castelo para Lisboa! Sempre soube que queria ser bailarina?

OR:Eu comecei a dançar como qualquer miúda dança aos dois ou três anos. Eu gostava de dançar, m as havia mais do que só gostar. Gostava de apresentar o que dançava. Os meus pais fizeram o grande sacrifício de vir para a cidade. Quando entro aos oito anos para a Escola do Teatro Nacional de São Carlos,  já não havia dúvidas. Eu queria ser bailarina. Mais que isso, eu queria ser coreógrafa. Porque eu perguntava à minha mãe quem é que fazia a dança para os movimentos dos bailarinos. A intérprete e fazedora dos seus próprios movimentos nasceu ao mesmo tempo. Não se desvaneceu e cresceu.

“A intérprete e  fazedora dos seus próprios movimentos nasceu ao mesmo tempo. Não se desvaneceu e cresceu.”

EF: E em relação a esta seleção de espetáculos, qual foi o critério?

OR: Eu tenho aqui três aniversários, que quero partilhar com o público , colaboradores e bailarinos. Então escolhi os espetáculos que eu queria rever. Obviamente escolhidos num tempo preciso, não são todos da mesma altura. É fazer um pouco uma viagem ao longo destes vinte anos.

EF:Em relação ao espetáculo de dia 6 e 7 de fevereiro, A Cidade, que é uma peça ainda recente, onde se aborda o desgaste nas relações humanas, da perda da liberdade na sociedade capitalista. Pode falar-me um pouco dessa abordagem?

OR: A ideia de fazer A Cidade apareceu com esta crise económica. Algo que todos sentimos, eu pelo menos senti isso na cidade de Lisboa. Eu senti a cidade a sair para a rua. Havia sempre um tema de conversa, que era sempre o mesmo, os problemas da crise. Portanto todos éramos políticos, todos tínhamos um discurso político e todos éramos ministros das finanças. Foi um trabalho difícil , porque podia cair em imensos clichés. Esta cidade, é uma cidade num sítio estranho , ela está sempre sobre um nevoeiro o tal D.Sebastião!  É uma cidade muito poética ao mesmo tempo.

A CIDADE 02 -® Rodrigo de Souza

Ao contrário de Pets, que é loucura total. Daí eu ter escolhido o PETS e A Cidade, que são quase opostos como espetáculos e em relações humanas. Enquanto um tem relações fugazes na cidade, o outro é um intricado de relações do princípio ao fim, onde ninguém sai e ninguém entra.

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EF: Em relação à Companhia criada em 1995, foi o culminar de muitos projetos construídos no Ballet Gulbenkian e na Companhia de Dança de Lisboa?

OR: Eu estava no Ballet Gulbenkian e já estava num período em que coreografava muito mais e dançava muito menos. Foi onde comecei o meu trabalho a solo. A grande mudança na minha mentalidade foi realmente o trabalho a solo, onde eu comecei a perceber que precisava de um outro método de trabalho. Nesse momento, sou convidada para a Companhia de Dança de Lisboa. Aí aceitei logo . A nível da administração aquilo correu muito mal. Tive mesmo de me demitir e os bailarinos foram todos atrás de mim. Não correu muito bem nesse aspeto. Mas correu muito bem o trabalho de ano e meio, com quatro criações muito fortes. A hipótese a seguir era continuar com aqueles bailarinos e fundar uma nova companhia com o meu nome. Mas por continuidade de trabalho. Não é nenhum grito do Ipiranga .

“Há uma coisa muito importante na minha obra, que são os homens e mulheres reais.”

EF: A Olga tem peças onde aborda a sedução, o jogo de poderes, no geral despe muito o ser humano em palco. O que tem procurado mostrar exatamente ao longo destes anos?

OR: Há uma coisa muito importante na minha obra, que são os homens e mulheres reais. Desde o início. A realidade da vida, os conflitos, os confrontos, as sensibilidades, os amores, o sexo… Eu acho que logo no início da minha carreira, as minhas peças são muito sexuais. Há uma coisa muito física e muito carnal. E é o desenvolvimento de todo o meu ser . Obviamente nestes 40 anos eu não estou sempre no mesmo sítio.. Espero ainda ir mudando.

EF: Relativamente aos jovens, e à sua aprendizagem, a Companhia tem o FOR- Dance Theater. Um dos objetivos tem sido também passar o testemunho e ajudar a sustentar a dança no futuro?

OR: A minha ideia com este FOR- Dance Theater, que infelizmente só pude fazer agora, porque só agora tive espaço físico, não é só o caso de formação de novos bailarinos. Para mim, o que me interessava também era informar e formar bailarinos,  não só à imagem  e semelhança dos desta Companhia, mas sim aquilo que nós temos para dar, o que temos para ensinar e partilhar com todo o reportório que temos e tudo aquilo que eu acho que é importante para formar um intérprete total. Tanto a nível teatral e da improvisação, de voz, de perceber um pouco de cenografia, de luz e dramaturgia. Tem muitas pernas para andar e é um sítio que pode crescer e internacionalizar-se na partilha com outras escolas.

EF:Acha então que existem condições para formar uma nova geração de bailarinos?

OR: Sim, com certeza. Eu só espero que o Conservatório se abra a novas linguagesns. Não tenho nada contra os clássicos, acho muito bem. Mas há Companhias clássicas e quase todas neste momento são abertas ao contemporâneo. Não há só uma opção e tem de se formar as pessoas para essas opções. É muito importante formar um bailarino no clássico, mas neste momento não chega. Há que abrir mentalidades e perceber que o mercado de trabalho a nível de companhias estáveis estatais clássicas e contemporâneas não é muito em país nenhum. O que sustenta realmente o mercado de bailarinos são as companhias independentes de qualquer país, não são as grandes companhias.

EF: Mesmo em relação ao público nota muita resistência a espetáculos de dança?

OR:Os espetáculos de dança hoje têm um público mais vasto. Não posso dizer que tenha chegado ao nível do público de teatro mais convencional, não digo isso, mas chega a um público de teatro independente . Eu acho que não só chegou como ultrapassou. Há eventualmente uma camada jovem que adere mais à dança do que ao teatro. O avançar da dança uniu-se ao teatro e ao vídeo, nas áreas não tão convencionais mas mais multidisciplinares.

EF:Ao longo de todos estes anos a dançar, o que é a dança para si neste momento?

OR: A dança é a minha forma de estar, de me recriar e de viver. Sempre foi assim, cada vez mais intensamente e está à frente de tudo. Não há dúvidas. É o meu modo de vida. É muito importante diariamente deitar-me com a sensação que aquilo foi pensado e que aquilo me pode servir. Pode ser uma frase e não ter a ver com a dança especificamente, mas do que está à volta da própria criação. Portanto, eu como ser criador. Às vezes é uma fotografia, algo que escrevi. Tudo isso se vai depois reconverter nos espetáculos de dança.

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EF: É uma forma de comunicar e estar no mundo?

OR: Sim. Pode parecer mau mas não me preocupa tanto a comunicação, ela acontece por si. É mais uma comunicação comigo própria e não com o mundo. É mais uma coisa de mim para mim, que depois tem a força que tem e a dimensão que tem e que comunica com os outros. Eu acho que isto acontece com quase todos os artistas. Nós escrevemos para nós, é para nós, isto nasceu aqui dentro. Não somos políticos, até podemos ser, mas de outra maneira. Eu quando crio não penso em ninguém. Como é possível? Como é que eu posso pensar em mil e quinhentas cabeças? Depois aquilo é dado, é visto e é um privilégio para nós poder partilhar.