Hoje e amanhã, A Cidade de Olga Roriz é apresentada no Teatro Municipal São Luiz. A peça estreada em 2012, é uma das escolhidas nas comemorações dos 20 anos da Companhia. Com um novo elenco constituído por Maria Cerveira, São Castro, Bruno Alexandre e Bruno Alves, A Cidade é das criações mais atuais e com mais atualidade da coreógrafa Olga Roriz.

Um imenso nevoeiro e quatro bailarinos a repetir movimentos é o ponto de partida para uma cidade aparentemente muito distante, mas que acaba por ser a cidade onde todos vivemos. O nevoeiro não desvanece os movimentos da bailarina São Castro, que interpreta uma espécie de solo algo mecânico, como se retratasse a configuração de um qualquer cidadão. De facto, o nevoeiro encobre a identidade dos cidadãos, faz deles sombras e um número: são quatro bailarinos que estão em palco.

O nevoeiro desaparece e clarificam-se as relações na cidade. Os bailarinos tornam-se cidadãos urbanos. A peça não foge à confusão e ‘lixeira’ das cidades e não se encosta em  relações fugazes. Não! O lixo é colocado em palco e os bailarinos dançam nele. A dança no lixo inicia uma procura, uma justificação no meio da banalidade e de um excesso de informação. O que está a acontecer no mundo e na cidade?

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O consumismo, a prostituição, a pobreza ou um estilo de vida mais boémio, tudo isso é transposto de forma muito óbvia. Com isto, não existe uma negação à poesia na obra. A busca faz-se precisamente pela poesia do movimento. Maria Cerveira interpreta um solo, onde demonstra que na cidade também se sonha e os relacionamentos podem ser duradouros.

Olga Roriz colocou a cidade que vive em palco.  O tema é o próprio momento em que vivemos, de crise e instabilidade. A coreógrafa sentiu que os portugueses começaram a sair para a rua. Os portugueses começaram a falar na rua e Olga Roriz ouviu-os : “Portanto, todos éramos políticos, todos tínhamos um discurso político e todos éramos ministros das finanças. ” A coreógrafa levou a rua para palco e mais uma vez mostra fragilidades, problemas, medos e inquietações. O desenho de luz de Cristina Piedade é um dos truques que torna esta uma das peças mais emblemáticas, não só ilumina como esclarece e embeleza muitos dos movimentos dos bailarinos.

Quanto aos bailarinos, esses já conhecem bem o trabalho da coreógrafa. Mas só isso não chegava. Como esclareceu Olga Roriz: “É um trabalho de grupo no sentido em que todos estamos a fazer o espetáculo, mas a construção de quase todos os espetáculos é feito à partida de um trabalho individual. Depois têm momentos em que se encontram e fazem um grupo.

No final, uma mulher com uma mala cabeça de porco, interpretada por São Castro, caminha pelo horizonte. Após um cenário, construído por Pedro Santiago Cal, variado, que se acumula e esvazia, a mulher procura um lugar nessa cidade.

  • Direcção e figurinos Olga Roriz
  • Intérpretes Maria Cerveira, São Castro, Bruno Alexandre e Bruno Alves
  •  Selecção musical Olga Roriz e João Raposo
  •  Músicas Korke, Henry Torgue, Max Richter, Romica Puceanu, John Zorm, Autechre, Ali Hassan Kuban, Zoe Keating e Kut Killer
  •  Cenário Pedro Santiago Cal
  •  Desenho de luz Cristina Piedade

Fotografias de Alípio Padilha

Lê a entrevista a Olga Roriz, aqui