Depois de uma vida a dançar, a despedida é sempre difícil. Tudo é mais difícil quando o principal motivo é a dor. O corpo não aguentou mais e Barbora Hruskova foi obrigada a deixar oficialmente os palcos em junho de 2014. Mas quando o amor pela dança suporta todas as dores há sempre solução. A Perna Esquerda de Tchaikovski é o pretexto para Barbora Hruskova voltar a dançar.

Antes do início de um espetáculo há sempre uma preparação prévia. Nada se faz sem muitas aulas, sem muitos ensaios,  sem muita esforço e muita dor. Para Barbora, tudo isso faz parte da dança e das suas memórias. A bailarina ‘coleciona’ dores e desvenda-as ao público.

001_a perna esquerda de Tchaikovski (ensaio)_©BS_

A dança sempre fez parte da sua vida. Sempre quis dançar, mesmo quando os pais, também bailarinos, lhe diziam que não tinha corpo para dançar. A vontade e o trabalho superaram um corpo menos esbelto. Barbora tornou-se bailarina.

O cenário reflete fragmentos que fazem parte das recordações da bailarina. Palavras dispersas num muro que pode ser o espelho da sua carreira. E como é difícil encarar o espelho em busca da perfeição. No espetáculo, o espelho transforma-se nos olhos do público e isso maravilha a bailarina. Barbora estará em palco de dia 5 a 15 de fevereiro, para o público.

O espetáculo é sobre si. Não haja qualquer dúvida disso. Existem referências claras à sua biografia, ao percurso das suas dores e excertos de coreografias. Barbora tem grandes aventuras coreográficas em palco. Até porque as dores avisam o corpo que estão lá. Talvez o maior desafio seja o texto. Aliás, o texto é o grande fio condutor da peça.

“Gosto de ir cedo para o palco, quando ainda só lá está o afinador de pianos. Isso é a minha alegria antes da alegria dos outros, a calmaria antes da tempestade. As escalas da viagem antes do país de destino final. Não sei bem de que país sou, acho que a minha terra natal é o teatro porque é o lugar onde me sinto em casa. Já fiz as contas e tenho a certeza de que já passei mais horas da minha vida a dançar do que a dormir. Sonho mais quando danço do que quando durmo. Quando danço, tudo parece um sonho mas, como tenho dores, sei que é real.Dançar dói, mas dói mais quando estou parada.”

Excerto do texto de Tiago Rodrigues

Dirigido e escrito por Tiago Rodrigues, este não é um espetáculo tradicional de dança. Acima de tudo, é um espetáculo sobre dança. Sem grandes atrevimentos técnicos, Barbora sobe ao palco do Teatro Camões para falar de si. Quando fala de si, fala com sotaque em português e dança a falar francês. E não dança sozinha, tem um Siegfried algo inexperiente num mundo da dança.

020_a perna esquerda de Tchaikovski (ensaio)_©BS_

Um Siegfried que afina pianos e toca excertos de um dos bailados mais marcantes na carreira de Barbora, o Romeu e Julieta. Mário Laginha acompanha ao piano a bailarina. De facto, apenas Mário Laginha é novidade para Barbora, pois a música e os ‘Siegfrieds’ nos pas de deux  sempre foram seus companheiros em palco.

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Ninguém espere uma Barbora a dançar Giselle ou Lago dos Cisnes. A despedida destes papéis foi em junho passado. Esta é uma conversa dançada. Barbora despe o tutu e descalça uma sapatilha. A perna esquerda fica completamente livre para mostrar a imperfeição.

Com dores ou não, Barbora está em palco com a fragilidade que podia caracterizar cada um de nós nas suas atividades e paixões. A fragilidade de Barbora é o corpo, por isso conversa com ele, para acalmar o conflito entre a sua vontade e as suas dores.

002_a perna esquerda de Tchaikovski (ensaio)_©BS_

Fotografias de Bruno Simão cedidas pela Companhia Nacional de Bailado.

Lê a entrevista a Barbora Hruskova, aqui.