Entre 5 e 15 de fevereiro, o palco do Teatro Camões acolhe as memórias de  Barbora Hruskova com a peça A Perna Esquerda de Tchaikovski.  A bailarina chegou em 2003 à Companhia Nacional de Bailado, depois de ter dançado no Royal Ballet da Flandres. Procurava uma mudança, e juntamente com o seu marido e bailarino Tom Colin, integrou o elenco da Companhia como bailarina principal. Na Companhia, dançou bailados emblemáticos como Romeu e Julieta, o Lago dos Cisnes ou Giselle, a peça que simboliza a sua despedida oficial dos palcos. Agora vai estar em palco outra vez, mas com fragmentos da sua carreira, excertos de coreografias, texto de Tiago Rodrigues e música de Mário Laginha.

Espalha-Factos: Porquê A Perna Esquerda de Tchaikovski numa peça sobre o seu percurso enquanto bailarina?

Barbora Hruskova: O espetáculo chama-se assim porque a maior parte do reportório clássico foi escrito por Tchaikovski. Temos o Lago dos Cisnes, entre outros. Esta é também a perna de apoio de uma bailarina, aquela que tem mais desgaste. Por exemplo, no final do espetáculo é a mais cansada. Mas isso no reportório clássico.

EF:Como surgiu mesmo este espetáculo?

BH: Este espetáculo foi uma ideia da Luísa Taveira ( Diretora Artística da CNB), que queria passar ao público um pouco do inside da vida de uma bailarina. Não de uma bailarina ativa, mas de uma bailarina em fim de carreira. Eu despedi-me dos palcos em junho com a Giselle.

Barbora e Wim Vanlessen em Giselle

Barbora Hruskova e Wim Vanlessen em Giselle.

EF: Foi difícil o afastamento oficial dos palcos?

BH:Sim, para mim foi. Mas não é para todas as bailarinas.

“Eu tive de deixar de dançar porque o meu corpo já não aguentava.”

EF:Afinal é toda a vida a dançar?

BH:Eu nasci quase no teatro. Os meus pais eram bailarinos. Eu sempre passei os meus dias todos dentro dos camarins e com os amigos bailarinos dos meus pais. Então estava mesmo dentro desta vida de artista. Gosto de tudo. Sou uma apaixonada. Tenho amigos que deixaram de dançar porque já chegava e queriam passar a outra coisa. Não é o meu caso. Eu tive de deixar de dançar porque o meu corpo já não aguentava. Por isso te digo, o meu corpo e eu somos duas pessoas diferentes. Ele escolheu que já chega, que não dá. A minha vontade não era essa.

EF: Este é também um espetáculo muito íntimo, onde a Barbora fala muito para o público. O objetivo é também mostrar um pouco a fragilidade?

BH: Completamente. Esse era o lado que a Luísa Taveira queria mostrar. Nós em palco não podemos mostrar dificuldade. Estamos a tentar oferecer a beleza e emoção. Mas a emoção do bailado, não a nossa, entre aspas, porque claro que nós temos emoções em cada espetáculo. Não é a nossa fragilidade, não é o nosso cansaço, as nossas dores. Isso normalmente o público não consegue ver. No espetáculo mostra-se tudo isso. Mas não de uma maneira negativa, ou seja, faz parte. Não se afirma que é um sacrifício, uma tortura, que dói! Não!

La Sylphide @RicardoBrito

La Sylphide @Ricardo Brito

A Bela Adormecida @Rodrigo de Souza

A Bela Adormecida @Rodrigo de Souza

“Chega uma altura em que conseguimos ver que já não é tão bonito.”

EF:É também um espetáculo muito biográfico?

BH:É! Há partes muito biográficas. Tudo o que é com os meus pais, as minhas dores, mas também o lado universal de todas as bailarinas. Com a perna que se estraga, o facto de deixar de controlar o seu corpo que é uma coisa difícil para muitos bailarinos. Chega uma altura em que conseguimos ver que já não é tão bonito. Os músculos já não são longos. Está tudo em nó. As costas não se querem dobrar. Parece um corpo velho, pronto, não há nada a fazer. Mas é uma coisa que as pessoas normais podem também sentir.

EF:Ao longo da peça são mostrados momentos coreográficos da sua carreira?

BH: Sim, das peças do meu reportório. Eu e o Tiago Rodrigues  estudamos a minha carreira toda. Ele viu muitos vídeos. Depois queríamos mostrar uma peça clássica, mas eu já não posso fazer o Lago dos Cisnes. Nós escolhemos Romeu e Julieta porque ainda podia fazer algumas partes. Também porque era o meu bailado, o meu solo de dança. Foi incrível! Tive imensa sorte de dançar isso com o Carlos Pinillos.

 

Barbora e Carlos Pinillos em O Lago dos Cisnes @Alceu Bett

Barbora e Carlos Pinillos em O Lago dos Cisnes @Alceu Bett

Barbora e Carlos Pinillos em Romeu e Julieta (2004) @Alceu Bett

Barbora e Carlos Pinillos em Romeu e Julieta (2004) @Alceu Bett

EF: Também refere que os seus pais diziam que não tinha corpo para dançar. Como foi o seu começo na dança?

BH: Os meus pais eram bailarinos. Quando acabaram de dançar mudaram-se da Suíça para a França e abriram uma escola. A minha mãe estava a ensinar-me a dançar. O meu pai fazia as coreografias. Então muito cedo tive a sorte de poder interpretar no palco. Cheguei aos meus 10 anos e disse que queria isso para a minha vida , mas a minha mãe disse: “Nem pensar! Eu estou a ver todas as crianças e tu não tens corpo para dançar.” Mas eu queria. Foi o meu pai que me disse que  tinha um ano para ver como conseguia moldar o meu corpo. Também acho que eles queriam ver a minha vontade. Depois entrei no Conservatório em Paris e lá começaram a pensar que se calhar podia entrar como corpo de baile. Se calhar!

Barbora com a mãe

Barbora com a mãe

Barbora com o pai

Barbora com o pai

“Nós fazemos isto para o público.”

EF: No espetáculo, aborda a perfeição. Foi uma obsessão ao longo da carreira?

BH: Foi sempre uma procura. Não basta ter carga emocional, temos de ter os pés e os joelhos esticados. As coisas tornam-se complicadas, mas eu adoro a beleza. Para se fazer um bailado clássico tem de ser assim. Para conseguirmos oferecer algo ao público. Por isso é que estamos todos os dias a tentar moldar-nos. Nós fazemos isto para o público. É para vocês.

Barbora em Who Cares @Amir Sfair Filho

Barbora em Who Cares @Amir Sfair Filho

Barbora com Tom Colin em Cantata @Carmo Sousa

Barbora com Tom Colin em Cantata @Carmo Sousa

Barbora com Ediz-Erguç em  Kazimir's Colours @Alceu Bett

Barbora com Ediz Erguç em Kazimir’s Colours
@Alceu Bett

EF: Está habituada a trabalhar com coreógrafos, como foi agora ter de trabalhar com um encenador, mais propriamente o Tiago Rodrigues? O método de trabalho é diferente?

BH:É um mundo completamente diferente. Nós trabalhámos muito o texto da peça. Trabalhar com ele é incrível. Ele é uma pessoa com muita paixão pelo que faz. Ele é um verdadeiro artista. As entrevistas eram muito à vontade. Eu conseguia logo dizer tudo.

Barbora no ensaio de A Perna Esquerda de Tchaikovski @Bruno Simão

Barbora no ensaio de A Perna Esquerda de Tchaikovski @Bruno Simão

EF: Teve conversas com o Tiago Rodrigues?

BH: Eram entrevistas onde falava da minha vida. Eu entreguei-me a ele. Depois, em termos coreográficos foi a mesma coisa. Ele estava a ver todos os vídeos. Falávamos muito do meu corpo, porque o meu corpo no início queixou-se imenso. Fiquei com tantas dores que um dia pensei que era demais. Ele diziam-me: “Liberta-te, não é isso! Vamos mostrar o que podes fazer, a peça é isso.”  Então libertou-me imenso, o stress caiu e o corpo começou a ceder um pouco melhor também.

EF:É um trabalho menos rigoroso do que na dança? Ou é diferente?

BH:É diferente! Não há comparação. São outras maneiras de trabalhar. É texto, não é físico. Mas também é rigoroso, ou seja nós sabíamos que ia ficar com sotaque nessa parte.

EF:E a música do Mário Laginha, conduz bem todo esse percurso ao longo da peça? Como foi trabalhar com ele?

BH: Oh, trabalhar com ele foi ótimo! Não tínhamos nada pré-definido. Era espontâneo. Eu falo francês na peça, porque ele e o Tiago estavam juntos a trabalhar ao lado do piano, e eu de repente começo a pensar no Romeu e Julieta e a falar em francês. Eles disseram-me que tínhamos de usar isso. Era sempre assim. Depois o Mário começou a dizer que podia tocar para estas palavras.

Barbora e Mário Laginha no ensaio de A Perna Esquerda de Tchaikovski @Bruno Simão

Barbora e Mário Laginha no ensaio de A Perna Esquerda de Tchaikovski @Bruno Simão

EF: Este é apenas um recomeço do que pode vir a seguir? Ou ainda não pensou bem nisso?

BH: Não penso bem no futuro. Estou mesmo no presente. Não quero pensar demais, porque claro que o meu sonho seria ficar no palco até… ahahah. Mas vou ver! Agora quero mesmo aproveitar esta peça, porque realmente foi um trabalho incrível. Eu espero que o público goste e que leve alguma coisa do que eu partilho.

Fotografias cedidas pela Companhia Nacional de Bailado

Lê um pouco mais sobre a peça, aqui.