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Surrealismo e Tradição no Festival de Cinema de Roterdão

É um dos maiores festivais de cinema da Europa. Com o seu toque alternativo e arrojado, atrai todos os anos milhares de espectadores, sendo o ponto de encontro de obras cinematográficas de renome, filmes experimentais e talentos promissores. Falamos do Festival Internacional de Cinema de Roterdão, apelidado de IFFR na capital holandesa.

A 44ª edição, que decorreu de 21 de janeiro a 1 de fevereiro,  contou com as já conhecidas secções Hivos Tiger Awards Competition de longas e curtas-metragens, Bright Future dedicada às primeiras obras de autor, Limelight e Spectrum que apresentam os novos filmes do circuito internacional, entre muitas outras surpresas. Este ano destaque para duas secções inovadoras Signals: Really?Really. e What the F?! que contemplam respetivamente o universo surrealista e a esfera feminista dos nossos dias.

Para além das sessões de cinema exibidas nos quatro cantos da cidade, o festival recebeu a inesperada visita das Pussy Riot no auditório Oude Luxor. O grupo controverso conversou com o público sobre a sua ação política anti-Putin, como também apresentou um concerto único com diversos convidados do mundo do espectáculo.

No final deste festival, o Espalha-Factos selecionou três filmes internacionais, Cosmodrama, Labour of Love e Tokyo Tribe, que destacam temas proeminentes nesta edição, respetivamente, o surrealismo, a tradição e a sociedade.

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Cosmodrama – 7/10

O filme analisa a relação entre a humanidade e o cosmos com um toque surrealista e futurista. Sete astronautas acordam numa nave espacial com um único objetivo: descobrir a razão da sua existência no Universo. Fora do planeta e sem noção do tempo, os sete humanos tentam resolver o dilema existencial,  através de várias disciplinas e teorias consagradas nas ciências sociais e da natureza.

Por um lado, temos o grupo que defende os processos físicos, químicos e biológicos, por outro, deparamo-nos com os elementos que refutam os cálculos racionais e prezam os conhecimentos da psicologia, filosofia e claro da semiologia (sendo um filme francês esta disciplina não poderia faltar).

Pontos Positivos: A forma subtil e cómica como Philippe Fernandez retrata a sociedade no seu filme, levando o espectador a uma reflexão profunda sobre o primado da razão e a obsessão humana por descobrir a origem do que o rodeia.

Pontos Negativos: É demasiado longo e por vezes possui diálogos que não acrescentam muito à ideia já transmitida nos primeiros minutos.

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Labour of Love –  8/10

O desemprego e a inflação são problemas reais que afetam a Índia e a nova geração trava uma incessante luta para manter os seus postos de trabalho. Vikram Sengupta com a sua obra, aborda o quotidiano frenético de um casal que raramente se cruza, devido às longas horas laborais. A sua rotina é o reflexo da Índia atual, presa entre a evolução capitalista e as tradições milenares.

Pontos Positivos: Os planos de pormenor e os grandes planos contaminam a ação, de tal modo que não são necessários diálogos para preencher o espaço cinematográfico.  As paredes e os lenços tradicionais são usados como marcadores das cenas na transposição do interior para o exterior e vice-versa.

Pontos Negativos: O destaque exacerbado da simples rotina entre a casa e o trabalho, poderá não ser apelativa para a maioria dos espectadores que espera encontrar algum conflito na trama.

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Tokyo Tribe – 6/10

O musical rapper gangster, Tokyo Tribe, é uma obra tipicamente japonesa, baseada no universo manga. O filme espelha de forma cómica e absurda a sociedade japonesa, contaminada pela moda gangster americanizada e conta igualmente com os já conhecidos clichés da cultura nipónica. As raparigas com risos inocentes são exageradamente sexualizadas com as suas mini-saias e seios pronunciados e os homens peritos na arte do Karaté, incorporam o estilo ocidental nos seus trajes e postura muito másculas.

Neste filme, a capital japonesa está dividida em gangs que normalmente se debatem entre si. Contudo o aparecimento de um vilão muito “macho” com ânsias de conquistar a cidade, transforma Tóquio num campo de artes marciais, convocando as tribos a se unirem para defender o seu território. Moral da história: “Tokyo Tribe never ever dies!”

Pontos Positivos: O toque cómico-absurdo e gore da cultura japonesa, que faz as delícias de muitos espectadores.

Pontos Negativos: Os diálogos pouco interessantes e o comportamento exagerado das personagens, deixam muito a desejar.

Para concluir,  revelamos os filmes vencedores dos Hivos Tiger Awards. La obra del siglo de Carlos M. Quintela, Videophilia (and Other Viral Syndromes) de Juan Daniel F. Molero e Vanishing Point de Jakrawal Nilthamrong foram os felizes contemplados desta edição, que terminou em beleza com uma festa de encerramento. Consulta o resumo dos três filmes no site oficial do IFFR.

O Festival de Cinema de Roterdão regressa no próximo ano com mais novidades e novos realizadores internacionais a revelarem os seus talentos. Para os cinéfilos que ainda não foram a Roterdão, o IFFR é o pretexto ideal para fazerem uma visita. Marquem já nas vossas agendas, tot ziens!

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