“Os serviços de programas da RTP devem ser uma referência e conter o que melhor se faz e se fez na produção audiovisual em Portugal e no mundo: qualidade e diversidade”, refere o novo Plano Estratégico da RTP. E o que é que isto significa? 

O Conselho Geral Independente (CGI) aceitou a proposta do já indigitado Conselho de Administração (CA), constituído por Gonçalo Reis, Nuno Artur Silva e Cristina Vaz Tomé. O documento deverá ajustar-se às “Linhas de Orientação Estratégica” anteriormente elaboradas pelo CGI.

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1. Nova Política de Conteúdos

Os novos responsáveis manifestam vontade em “assumir um posicionamento e política de conteúdos diferenciador e não concorrencial face aos operadores privados, com uma programação orientada para os cânones de serviço público” e distintiva “no panorama do audiovisual”. Defende que a RTP deverá passar a posicionar-se “como clara alternativa aos serviços de programas privados de sinal aberto”, não devendo ser apenas mais “um empacotamento de conteúdos”, mas antes “uma programação criativa e estimulante de serviços de programas”.

bem vindos a beirais

Estas considerações deverão presumir o fim da atual programação de horário nobre, predominantemente horizontal, com produtos como Bem-Vindos a Beirais ou a futura telenovela angolana a parecerem desencaixados de uma lógica diferenciadora e de uma programação diversificada a cada dia. A direção de programas assumiu, desde cedo, que a aposta neste tipo de conteúdo está relacionada com as vantagens de escala trazidas pela aposta na produção em série de produtos de ficção, exemplo já seguido também com Água de Mar, Os Nossos Dias e Sinais de Vida.

2. Posicionamento alterado

No que diz respeito aos públicos-alvo, a RTP reafirma o objetivo de chegar a um vasto público e cobrir segmentos alargados da população junto dos quais desempenha um papel com impacto é um fator indicativo da sua relevância”. Para tal, “a RTP deve apostar na diversidade e no entendimento dos espectadores como cidadãos e não como consumidores”.

Para Francisco Rui Cádima, professor catedrático da Universidade Nova de Lisboa, “os media têm tendência para romancear como forma de manter a audiência fidelizada e expectante ou encher a qualquer custo as primeiras páginas dos jornais do dia seguinte”. O novo Plano Estratégico tentará inverter esta tendência referida por este investigador como “o impulso reality TV“, sendo natural que a aposta em conteúdos dedicados à cultura alternativa e à grande informação seja reforçada.

3. Prioridade para a produção interna

Pretendem igualmente que a RTP passe a “produzir internamente (nos seus estúdios de Lisboa, Porto e outros) a informação, o fluxo do daytime e a cobertura de eventos”. Contudo, admite-se, que “para a restante produção deverá ser equacionado o recurso a produção externa de produtores independentes diversificados”.Agora Nós e Há Tarde

Os novos programas do daytime da RTP, Agora Nós, no horário da manhã, e Há Tarde, no período vespertino, são produzidos externamente e podem ser passados para a chancela da estação pública, com o novo documento definidor da estratégia.

4. Contenção reforçada

Os novos objetivos estabelecidos parecem bastante ambiciosos, porém, tendo em conta limitações impostas pela política em vigor, “a RTP deverá funcionar num modelo de equilíbrio, assegurando que os seus custos operacionais se ajustam às receitas obtidas, constituídas maioritariamente pela contribuição audiovisual (CAV) e receitas publicitárias.

Os autores deste Plano Estratégico manifestam as suas reservas, até por não disporem de “informação precisa sobre muitas das políticas de gestão em cursono entanto admitem estudar “programas e iniciativas que permitam a redução de custos estruturais, tanto de pessoal como de serviços externos, mesmo que impliquem investimentos iniciais e o aumento do nível de financiamento bancário, desde que se demonstre o respectivo retorno e os ganhos a prazo em termos de produtividade e competitividade da organização”.

Tudo aponta que este processo conduzirá a um novo programa de rescisões amigáveis, o que, a par de várias outras propostas do Plano, já mereceu a crítica dos sindicatos representantes dos trabalhadores da RTP.