Na passada quarta-feira, dia 21, Lisboa recebeu uma das mais inovadoras e revolucionárias iniciativas do panorama musical moderno. Levando o selo da Red Bull Music Academy, o Boiler Room Lisboa 2015 teve lugar em três salas que mostraram ao mundo o que tem de melhor a música portuguesa. O Espalha-Factos esteve presente e faz-te um pequeno resumo de uma noite que não será esquecida tão cedo. 

Iniciado há apenas cinco anos, o Boiler Room é um projecto inglês de organização e transmissão de sessões de música ao vivo. O protocolo tende a ser uniforme: os artistas atuam numa sala privada perante um público convidado, e estas atuações são transmitidas por stream e em tempo real no site da organização. Auto-denominada de “a casa da música underground”, a iniciativa tem sido utilizada ao redor do mundo como um dos principais meios de descoberta de novos artistas, vangloriando-se de ser  um forte propulsor das tendências musicais ditas não-comerciais. Já tendo passado por cidades como Nova Iorque, Amesterdão, Londres, Moscovo e Berlim, o Boiler Room retornou à capital lusa com três salas da mais íntima experiência musical: até à 1h da manhã, os sons de Portugal animaram dois dos pisos do Lux Frágil e, do outro lado da rua, o espaço da Loja da Atalaia.

branko_newyork_188

Rigor e pontualidade pautaram o início do evento: o começo da transmissão, estipulado para as 19h no horário de Lisboa, deveria ser cumprido ao segundo, e todas as salas se coordenaram para que esta tivesse início exactamente ao mesmo tempo. No salão principal (assim apelidado tendo em conta o peso do cartaz), o piso 0 do Lux, ouvia-se o synthpop alegre e descontraído de Ana Miró ou, como prefere ser chamada em palco, Sequin. Seguiu-se a onda de psicadelismo infusa em ritmos africanos dos Gala Drop, antes de se ouvir o primeiro grande nome da noite: Mariza. Num concerto bem representativo do clima de extrema informalidade que se vivia neste Boiler Room, a fadista conversava com o público, convidava os mais participativos a cantar e circulava inconspicuamente pelo mar de espectadores que junto dela se havia constituído, para o delírio de grande parte deles. De facto, semelhante cenário verificar-se-ia em virtualmente todos os concertos da noite. A barreira intransponível entre artista e público caía, e ambos partilhavam o mesmo espaço, separados por não mais do que alguns centímetros.

De seguida, dois dos melhores concertos da noite, por dois intérpretes que claramente jogavam fora de casa: a mescla entre electrónica, rock e sons orientais do versátil Jibóia, e o indescritível noise rítmico dos já conhecidos PAUS. Performances impressionantes nas quais não faltou público, mas que falharam em convencer no cômputo geral, salvo algumas batidas de pé e a ocasional dança mal-amanhada. Depois destes, coube aos DJs a tarefa de encerrar os trabalhos na Sala 1, nenhum deles completamente convincente à excepção do notável e ecléctico set de DJ Ride, o último a tocar neste espaço do recinto. Entretanto, era impossível não notar a intensa movimentação que se verificava entre salas. As expressões “pequeno festival” ou “festival à borla” ouviam-se repetidamente entre os grupos que se amontoavam para assistir aos concertos. E era mesmo a um festival de verão em pequena escala que se assemelhava o Boiler Room: a diversidade de estilos musicais que se instalava pelas três salas servia a todos os gostos e agradava às mais distintas vontades.

paus-no-boiler-room

Situado do lado oposto da rua estava o Salão 2, na Loja da Atalaia, local onde reinou a música electrónica. Os concertos começaram a meio-gás, com os sets desinteressantes em sala vazia dos ainda estreantes MMMOOONNNOOO e CVLT. A menos espaçosa sala do evento não tardou a encher, no entanto, para as performances de Rui Vargas e André Cascais e, provavelmente o magnum opus da noite, Moullinex. A esta altura da noite, era apenas aos empurrões e cotoveladas que se aproximavam dos artistas as multidões que anseavam por um bom ritmo a que dançar. Foi com a ajuda de banda ao vivo que Moullinex trouxe a Santa Apolónia o seu disco tingido de synthpop que não deixou ninguém parado. De notar a interpretação do mais que conhecido tema Take My Pain Away, à qual o público não deixou chegar o refrão para cantar em uníssono. A noite nesta sala terminou em festa com o set de Switchst(d)ance + Twofold, que prolongou a êxtase até ao fim do evento.

Entretanto, na Sala 3, ao mesmo tempo que Sequin inaugurava o piso de baixo, Cachupa Psicadélica dava um dos melhores concertos da noite. Íntimo, emocional e tecnicamente irrepreensível, um homem e a sua guitarra faziam ouvir, segundo o próprio, “os velhos e novos sons de Cabo Verde”. De facto, o lineup deste terceiro salão, que contava com a curadoria dos Buraka Som Sistema, empenhou-se em trazer os ritmos de África ao velho continente e, consequentemente, ao mundo. Assim foi com os Batida, que para além de música trouxeram muita dança e animação dos mais variados tipos e formas, com o célebre set de Nigga Fox, e com aquela que foi provavelmente a actuação mais procurada da noite, a dos próprios Buraka. Foi em torno da mesa de Branko que se juntou a maior aglomeração, que dançava e cantava freneticamente ao ritmo dos maiores sucessos de Blaya e companhia. Também esta sala foi encerrada com disc jockeys, desta vez DJeff Afrozilla e Rastronaut, que seguiram a mesma linha estilística, para regozijo dos muitos que lá permaneceram até ao fim.

mariza-no-boiler-room-2015

Foi um espectáculo, em suma, como poucos. De destacar ainda a excelente representatividade do cartaz para Portugal no panorama internacional. Por live stream, o resto do mundo teve a oportunidade de vivenciar as diferentes facetas da música no país: desde as suas raízes, com o fado, os cantos tradicionais e as heranças das ex-colónias, até às vanguardas artísticas, com as mais diversas ramificações da música experimental apontada para o futuro que se faz em território nacional – um fiel retrato das melodias e ritmos que por cá soam. Tudo isto, é claro, aliado a um ambiente descontraído, descortinado e inegavelmente prazeroso do início ao fim. O Boiler Room Lisboa 2015 foi, por qualquer prisma que se olhe, um sucesso.

Fotografias divulgadas pela organização.