Há um termo que une de forma perfeita as três actuações preparadas para esta vigésima edição das já emblemáticas noites Black Balloon: Viagem.

Ao longo de um serão enraizado no krautrock, o público foi convidado a colocar o cinto para embarcar num percurso veloz que se fez entre as 23h00 e a 01h30. As nossas boleias? A tropicalia espacial de PISTA, a odisseia exótica de JIBÓIA e Ana Miró e o foguetão supersónico dos Kraftwerk sob as mãos de uns sempre viscerais Riding Pânico. A peça central desta bem conseguida noite seria precisamente a actuação destes últimos, que a convite de Pedro Ramos, se lançaram ao clássico dos anos 70, Autobahn. O longo single de 23 minutos ganhou na cave do Lux Frágil uma nova dimensão de carácter explosivo. Mas já lá vamos.

De forma bastante pontual, o jovem trio PISTA apresenta-se em palco para dar a conhecer o seu som furioso, veloz e inegavelmente groovy. Apesar de serem maioritariamente desconhecidos do público português, a banda introduziu-se no Lux com confiante pujança e decibéis elevados à medida, que debitaram um (ainda) curto repertório de um afro punk veloz, com grandes influências no math rock e, claro, no krautrock (que foi a palavra agregadora da noite). Durante um concerto que ainda esteve distante de uma hora de duração, o público recebeu de braços abertos um som repleto de guitarras acutilantes onde o dedilhar e o riff se enrolavam entre si numa cadência liderada pela frenética secção de bateria. Entre interjeições simples a servir de letra para os temas e palmas para marcar o ritmo, os PISTA foram recebidos calorosamente e com um bom abanão de anca. Apontamentos positivos para um grupo que com certeza se vai fazer notar em 2015.

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Encerrado o troço nesta parte da PISTA, chega a hora de recebermos a cobra. Óscar Silva apresenta-se em palco de camisa branca e realmente só lhe faltava o turbante para estar completa a sua transformação em feiticeiro médio oriental. Munido do seu sintetizador, uma caixa de ritmos e a sua guitarra, o homem que em palco responde por JIBÓIA introduz-se com uma tensa secção de teclados que faz antever que vamos todos ser transportados para um mundo à parte. Há algo místico e psicadélico que em breve nos espera. Isso e muito passo de dança. É durante os primeiros momentos de Satya Yuga, retirada do mais recente disco, Badlav, que Ana Miró (que conhecemos artisticamente como Sequin) surge de entre as brumas para vocalizar esta viagem ao longo dos vários estados de vida no Universo hindu.

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Faltou pouco tempo para que a apertada cave do Lux se apilhasse para se transformar num qualquer salão de Nova Deli que ia progressivamente sendo levado ao rubro pelo mestre de cerimónias Óscar Silva, qual Omar Soleyman português, que ora com os ritmos 8-bit do seu synth, ora em modo guitar hero, ia fazendo a festa com o seu médio oriente em ácidos. Destaques para a rendição de canções como Kali Yuga e Ayida-Weddo e uma Sequin bem disposta, afinada e absolutamente encantadora à medida que hipnotizava a plateia com os seus passos de dança e groove inegável. Uma hora foi suficiente para tirar as dúvidas a quem as tinha: esta dupla ofensiva JIBÓIA-Sequin está repleta de carisma, e é uma aposta ganha, bem como das mais diferentes e atractivas do panorama actual. Dito isto, já passámos a portagem e está na hora de acelerar em direcção aos Riding Pânico e os seus Kraftwerk vertiginosos e musculados.

É por volta das 23:40h que a exímia banda portuguesa de post-rock sobe ao palco. A missão desta vez é outra. Para além de tocarem os seus temas originais, os Riding Pânico tiveram o desafio de nesta noite integrá-los com Autobahn, disco de 1974 e um dos mais aclamados da seminal banda alemã Kraftwerk. Apesar da personalidade pesada e frenética da música dos Riding Pânico, esta tarefa não consegue deixar de parecer apropriada para estes rapazes. O talento e noção rítmica que a banda possui torna-os mais que qualificados para fazer justiça a um disco destes, ao mesmo tempo que possibilita uma re-imaginação diferente e única do mesmo. Os lusos passaram no teste com fantástica distinção, num concerto intenso que equilibrou quase sem esforço, o material adaptado com o original.

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Um dos maiores desafios associado a este tipo de performance seria adaptar o som 100% sintético dos alemães para um formato maioritariamente analógico. Nesta noite de Black Balloon, a maneira como os Riding Pânico conseguiram isto acabou por ser um dos seus melhores trunfos. Com uma visceral bateria a pavimentar o caminho e a liderar esta viagem de alta velocidade, a banda pegou em Autobahn e na sua sonoridade ora acelerada, ora contemplativa e tornou-o mais denso, mais pesado, mais perigoso, mais Riding Pânico, no fundo. A experiência de ver este disco lentamente fugir das mãos dos Kraftwerk para se tornar algo que por vezes roçava géneros como o metal foi uma que certamente valeu bem a pena para quem lá esteve. Ainda para mais quando quase nunca se perdeu a ginga e a vontade de dançar.

Não obstante, isto é também é um concerto dos Riding Pânico e também nisso a banda manteve o alto nível. Entre as euforias espaciais e as rectas a 140km/h que compuseram os 23 minutos de Autobahn, foi possível ouvir as canções mais célebres do grupo como Dance Hall e Banzai. Todas interpretadas com a maior intensidade possível por um grupo que gosta do que está a fazer. A constante dança entre o megalómano tema e os originais da banda criou também uma dinâmica bastante viva que raramente deu indícios de quebra no registo. Uma performance sobretudo harmónica e um grande exemplo daquilo que pode ser o caos organizado. Em suma, mais uma noite de sucesso no Lux Frágil, desta vez levada a cabo por três projectos lusos extremamente talentosos que vieram a confirmar de novo o quão imperdíveis podem ser estas Black Balloon.

Fotografias por Nuno Capela

*Este artigo foi escrito, por opção do autor, segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945.