Duas semanas após a sua morte recordamos Anita Ekberg, umas das mulheres mais sensuais que a 7.ª Arte já viu, imortalizada pela sua performance em La Dolce Vita mas reconhecida por muitas outras obras do cinema mundial. A atriz nasceu na Suécia em 1931 e, tal como muitas outras jovens, foi a sua beleza que a levou a Hollywood.

A Miss Suécia de 1950 viajou para os EUA pela primeira vez no ano seguinte para participar no concurso Miss Universo. Embora não tenha vencido a competição, Ekberg ganhou um contrato com a Universal que não perdeu tempo em colocá-la nos seus filmes. Abbott e Costello vão para Marte marcou a sua estreia no grande ecrã com um pequeno papel. Mesmo com a passagem para a Paramount ao fim de pouco tempo, a primeira metade da década foi dedicada a trabalhos menores que a faziam passar despercebida.

Mas se dentro do ecrã ninguém notava a sua presença, fora dele a atriz tornou-se num ícone. A sua beleza valeu-lhe a atenção dos media e as revistas cor-de-rosa davam-lhe o protagonismo que Ekberg não encontrava no cinema. A Paramount começou então a publicitá-la como a sua Marilyn Monroe e foi-lhe dando papéis de maior importância. Guerra e Paz, de 1956, onde contracenou com Mel FerrerAudrey Hepburn, foi um deles e valeu-lhe um Globo de Ouro de Atriz Mais Promissora, num ano em que encabeçou pela primeira vez um elenco em Regresso da Eternidade.

Até ao final dos anos 50, Ekberg foi subindo na carreira à medida que ia ganhando cada vez mais notoriedade e protagonismo nos filmes onde entrava. O seu nome estava agora em destaque em várias obras, como Férias em ParisScreaming Mimi ou A Última Sentença, mas, mesmo com o seu charme natural, pouco era o prestígio e admiração que ganhava dos cinéfilos. Afinal quem é que ainda se recorda dos títulos anteriormente mencionados atualmente? Faltava-lhe no currículo um trabalho que equivalesse à sua sensualidade e beleza. E este viria do outro lado do Atlântico.

Federico Fellini, que havia conhecido em Itália aquando das filmagens de Guerra e Paz, deu à sueca o papel de Sylvia Rank em La Dolce Vita (1960) que a imortalizou no cinema. Aqui, Anita Ekberg apresenta-se como uma verdadeira Deusa do Sexo e protagonizou na Fonte de Trevi aquela que continua a ser uma das cenas mais icónicas de sempre. Curiosamente, foi Marcello Mastroianni, o ator com quem contracenou, que se tornou numa estrela internacional na altura, enquanto que a carreira da atriz pouco avançou depois de La Dolce Vita.

Ekberg foi-se fixando em Itália à medida que os anos passavam. Enquanto que nos EUA os seus papéis se restringiam a comédias como Safari Inesperado e Quatro no Texas, era na Europa que conseguia participar em projetos mais ambiciosos, como Boccacio 70, que voltou a colocá-la perante as câmaras de Fellini. Alguns anos mais tarde viria mesmo a afirmar que os estúdios americanos a mimavam em vez de a deixar perseguir maiores e melhores papéis.

Se os anos 60 foram ricos em filmes, uns melhores e outros já esquecidos, os anos 70 foram o início do fim da sua carreira. A imprensa já não se interessava pela ex-pinup girl que entrava em casos com Frank SinatraRod Taylor ou Tyrone Power e perdeu todo o seu mediatismo paralelamente à escassez de trabalhos no grande ecrã. A segunda metade da década, que começou logo com o divórcio do seu segundo marido, foi um perfeito vazio, tendo estado parada entre 1975 e 1979.

Em 1980 voltou aos EUA para entrar em S+H+E: Security Hazards Expert, um pequeno filme de ação que em nada ajudou a sua carreira já praticamente terminada. Nos anos seguintes destaca-se no meio de menos de uma dezena de obras insignificantes apenas uma longa-metragem: Entrevista, realizada novamente por Federico Fellini, que acabou por traduzir-se num inesperado comeback de Ekberg, que se interpreta a si mesma enquanto revê algumas das cenas de La Dolce Vita.

Em 2002, exatamente 50 anos após ter entrado em Hollywood, a atriz retirou-se definitivamente do cinema. Até à sua morte atravessou várias dificuldades financeiras e de saúde, e aquela que outrora fora um sex-symbol mundial caiu na miséria. Na data da sua morte estava na falência, depois de anos de azar, onde se contam internamentos, assaltos e ainda um incêndio na sua mansão, tendo chegado a pedir ajuda à Fundação Fellini.

Anita Ekberg é um daqueles ícones esquecidos a quem estava prometido o céu mas que nunca chegou ao estatuto de tantas outras estrelas, algumas delas sem metade da sua sensualidade nem carisma provocador. O público pode tê-la apagado da memória ao longo dos anos, mas o cinema vai para sempre recordá-la como uma verdadeira diva e dar-lhe a imortalidade que uma Deusa do Sexo merece.

A rubrica A Recordar relembra atores e atrizes que tenham marcado a sua época, mas que caíram em esquecimento ou não foram suficientemente reconhecidos. Percorreremos atores de diversas décadas, até à atualidade. Falaremos da sua vida, carreira, papéis mais icónicos e do legado que deixaram.