Estreia da Semana: Sniper Americano

Sniper Americano: Eastwood e Cooper no campo de batalha

Uma semana depois de ter ganho o estatuto de grande surpresa entre os nomeados dos Oscars, Sniper Americano estreia finalmente em Portugal com a curiosidade e as expetativas em seu torno redobradas.

O filme retrata a vida de Chris Kyle, soldado da Marinha dos EUA que estabeleceu o recorde de baixas na história militar americana, tanto dentro como fora do campo de combate, seguindo as suas missões no Iraque mas também os dramas familiares com que se depara quando regressa a casa.

É impossível ver Sniper Americano sem ter em mente os 6 Oscars para os quais está nomeado. Foi claramente a melhor publicidade que o filme podia ter conseguido, quando à partida iria ser apenas “mais um filme de Clint Eastwood” e afinal está a bater recordes de bilheteira nos EUA. São muitas as perguntas que se fazem ao longo da fita: “merece mesmo estar entre os Melhores Filmes do ano?“; “Bradley Cooper é digno de mais uma nomeação quando tantos outros bons atores ficaram de fora?“; etc.

A verdade é que Sniper Americano é uma obra bastante completa. Mantendo-se neutra a um nível político (não se percebem as críticas que afirmam ser uma manobra de propaganda), demonstra cruelmente as atrocidades da guerra do Iraque de uma forma mais explícita do que se estaria à espera, sem dizer se esta é a forma correta ou errada de combater o terrorismo. A guerra do filme é-nos mostrada através de cenas de alto nível, que junta à muita ação que se deseja neste tipo de longas um tom de realismo raramente presente no género.

Embora falhe no que toca à construção de um clima tensão que antecipe os pontos altos da narrativa (mais facilmente se coloca um rótulo de thriller no trailer do que no filme em si), Clint Eastwood consegue compensar com os vários momentos fortes e impressionantes que decorrem nos cenários do Iraque. O realizador não poupa na violência visual, filmando imagens que provocarão muito desconforto entre o público e que chocarão até aqueles com um estômago mais forte. É assim que se confere um estilo que a guerra na 7.ª arte parece ter abandonado. As imagens são cruas, os soldados americanos não são seres perfeitos (embora Eastwood os apresente como os bons da fita) e os diálogos são sempre mais naturais do que os slogans disfarçados de conversas estilizadas que dominam os argumentos do género.

O enredo de Sniper Americano explora também o campo pessoal de Chris Kyle e o seu relacionamento com a sua família. Aqui evidenciam-se os temas mais delicados da fita, como o stress pós-traumático de Kyle e a dificuldade em este voltar a um ambiente familiar com a mulher e os filhos após ter estado no Iraque, que mesmo tratados através de alguns clichés (estes episódios não se desenvolvem para além dos lugares comuns dos dramas pessoais que funcionam como o seu ponto de partida e que, devido à sua curta duração, se tornam também os pontos de chegada) não deixam de ser interessantes e essenciais para o filme “respirar” após as mexidas e violentas cenas de guerra.

Bradley Cooper e Sienna Miller aproveitam estes momentos para mostrarem as suas qualidades de atores. Ele porque passa mais de metade do tempo armado até aos dentes e em situações onde dificilmente se consegue destacar e ela porque, como é óbvio, não vai lutar para o Iraque e daí ter muito menos “tempo de antena”. Ambos encarnam muito bem as suas personagens, com principal destaque para Cooper que está melhor que nunca com uma interpretação excelente mas que não é merecedora do tão polémico Oscar a que está nomeado (o seu desempenho não deveria tirar lugar a Gyllenhaal nem a Fiennes).

Como biopic é importante salientar que Sniper Americano não é um retrato fiel de Chris Kyle, pois desenha-o como um soldado humilde quando na verdade era uma pessoa, como disse na sua própria biografia, que não se arrependia de ter matado tantas pessoas e que se envolveu inclusivamente em algumas polémicas. É um dos poucos pontos negativos da obra, porque ninguém gosta de ver um filme biográfico que lima todas as arestas do seu protagonista e que já causa muita polémica um pouco por todo o lado, mas que mesmo assim, na balança dos prós e dos contras da fita, acaba por não ter muito peso junto das vária mais valias orquestradas por Eastwood.

Por isso o melhor é olhar para Sniper Americano como um filme de guerra baseado numa história verídica, com muitas e boas cenas de ação e alguns momentos soft dramáticos que sempre escondem a falta de rigor no que toca à representação do seu protagonista. É um trabalho bastante competente de Clint Eastwood (um dos seus melhores dos últimos tempos) e, se deixaram entrar na categoria de Melhor Filme outros biopics banais e desinteressantes, então Sniper Americano merece de longe a sua nomeação aos Oscars.

8/10

Ficha Técnica

Título: American Sniper

Realizador: Clint Eastwood

Argumento: Jason Hall, a partir da obra de Chris KyleScott McEwenJim DeFelice

Elenco: Bradley Cooper, Sienna Miller, Max Charles, Luke Grimes, Jake McDorman

Género: Biografia, Guerra, Drama

Duração: 119 minutos

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