Em Alentejo, Alentejo, a voz de um Alentejo “tão grande” e com “tanta terra abandonada” faz-se ouvir. Agora o Alentejo já pode ser visto por todos. No dia 20 de janeiro, na Culturgest, foram lançados oficialmente o DVD e CD do filme. Para isso,  Sérgio Tréfaut reuniu-se com um conjunto de cantadores alentejanos. Naquela noite, cantou-se o Alentejo.

 A disposição da Sala 2 da Culturgest era descontraída. A pronúncia alentejana fazia-se ouvir e uma mesa com produtos alentejanos recebia os vários convidados. Sem qualquer pronúncia, alguém dizia: “O salpicão é bom!” Tudo se preparava para a apresentação do documentário português mais visto do ano de 2014: Alentejo, Alentejo.

Sérgio Tréfaut, o realizador, iniciou o painel da apresentação, composto por participantes do filme: José Simão Miranda, Hugo Bentes, Carlos Arruda e Bernardo Espinho. O realizador começou por expressar que o CD não é perfeito. O reportório, os cantadores e o grafismo são ótimos, mas ainda há muito a melhorar. Com canções cortadas do filme, o CD tem uma variedade enorme de registos. O lançamento é o culminar da expansão do cante alentejano fora do Alentejo.

DSC03422

Engana-se quem pensa que é visto apenas no Alentejo!”, salientou Tréfaut. Aliás, desde a classificação do cante alentejano como Património Imaterial da Humanidade, tem existido uma crescente solidificação do orgulho dos Alentejanos por esta tradição. Ao Espalha- Factos, Sérgio Tréfaut confessou que não hesitou em aceitar o convite em filmar o cante alentejano. Mas nem tudo foi fácil: “ Foi difícil sonoramente, devido à captura do som e de filmar de maneira interessante os grupos.”

“Procurei que a sua conversa não soasse a conversa de telejornal, mas sim a uma partilha de intimidade.” – Sérgio Tréfaut

Sérgio Tréfaut

Sobre o processo de captação das várias histórias do filme : “Procurei que a sua conversa não soasse a conversa de telejornal, mas sim a uma partilha de intimidade. “ O realizador sentiu na procura pela intimidade dificuldades, mas tudo se ajeitou quando surgiram as emoções do passado, a paixão pelo Alentejo e a boa comida alentejana. O realizador sente que em Alentejo Alentejo há uma espécie de bandeira e orgulho.

O cante alentejano está para ficar. Prova disso são os grupos de jovens de cante alentejano. Tréfaut classifica-os como “uma nova cara na continuidade do cante.” Por isso, convidou Bernardo Espinho para integrar o filme e fazer parte do painel de apresentação. Também conhecido por Buba, Bernardo Espinho integra o grupo Os Bubedanas.

O grupo foi formado em 2011, em Beja, de uma forma que Bernardo nem sabe explicar: “Fazíamos jantares de grupo e cada vez mais o cante ia surgindo. Não me perguntes porquê nem como, porque era uma coisa super espontânea e natural. “ O cantador ainda se lembra quando o grupo participou num concurso na escola, onde todos ficaram surpreendidos. A partir daí começaram a aceitar atuações. Só em 2013, fizeram setenta espetáculos.

  “Isto já não me vai sair da pele!”- Bernardo Espinho, membro do grupo Os Bubedanas

DSC03454

Mas nem sempre foi assim. Há uns anos atrás, Bernardo nem podia ouvir cante alentejano. O pai fazia parte do grupo Adiafa e As Meninas da Ribeira do Sado era o sucesso do grupo. Frequentemente, pediam a Bernardo para que cantasse. Ele já nem podia ouvir este pedido! Até que tomou uma nova atitude e enveredou pelos caminhos do cante alentejano. “Para mim é respirar, é o que me corre nas veias, é a minha rotina. Isto já não me vai sair da pele.

Para Bernardo, o naturalismo e a espontaneidade de Alentejo Alentejo foram os responsáveis pelo sucesso.  Mas não foi nada de estranho para o cantador: “ Para quem é Alentejano, isto desde que se nasce até que se morre vive sempre connosco.

Entre os cantadores, estava Hugo Bentes , orgulhosamente capa do DVD, faz parte dos Cantadores da Aldeia Nova de São Bento de Serpa. O cantador destaca como principal conquista o processo que se gerou. As pessoas começaram a encarar o cante alentejano de forma totalmente diferente. “Sem dúvida uma tradição que conseguiu sobreviver às adversidades.” Agora consagrou-se.

Carlos Arruda, membro do grupo da Grupo Casa do Povo de Serpa, ainda se lembra de quando na localidade diziam : “Cuidado que anda aí a PIDE da Unesco.” Mas os alentejanos continuaram a cantar sem medo de mostrar o que valiam. Para José Simão Miranda, responsável pelo Grupo Coral da Damaia, o segredo foi mesmo ser-se autêntico: “Foi feito de uma forma natural e é isso que é o cante. Cantamos aquilo que é o nosso Alentejo.”

Os esclarecimentos dos cantadores acabaram ao som do cante.

Cante alentejano

No Grande Auditório da Culturgest seguiu-se a projeção do documentário.  Mas a verdadeira banda sonora fez-se fora do auditório. De forma espontânea e acompanhados por um bom vinho alentejano, o grupo de cantadores aqueceu o ambiente da sala com o seu cante. Entre o intervalo das cantigas um dos cantadores dizia: “É assim que se faz na minha terra!” Foi assim que se fez na Culturgest.

cante alentejano