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Girls in Peacetime Want to Dance, de Belle & Sebastian: Esforço pela metade

Um disco novo de um dos segredos mais bem guardados da música pop é sempre um motivo para sorrir. Os Belle & Sebastian (os Smiths alternativos, como muitas vezes são vistos) fizeram mais de duas décadas de carreira a criar discos açucarados e melódicos e a decorar paredes e cadernos de muitos jovens com os seus versos de intimidade, alegria, voyeurismo e desconsolo.

O corpo lírico deste escoceses é o seu derradeiro trunfo, nunca esquecendo a pop folk com ocasional travo psicadélico que lhes conferiu o seu estatuto irresistível de heróis que nunca pertenceram ao panteão dos colossos. Uma prova de durabilidade e qualidade que tem constantemente recebido vénias da crítica e dos seus seguidores.

Dito isto, estamos em 2015 e entre musicais realizados pelo líder Stuart Murdoch e colectâneas de lados B, chega-nos Girls in Peacetime Want to Dance. Numa altura em que o som de uma banda já está completamente entranhado e explorado na mente de quem o ouve, aparece um esforço que pretende refrescar a paleta sonora e oferecer-nos algo para bater mais o pé. Não há problema com a experimentação, contudo, o mais recente output da troupe escocesa não está a salvo de inconsistências, algumas delas até graves. Apesar disso, encontramos aqui um trabalho com momentos de bastante boa forma.

O baile começa com Nobody’s Empire. Uma secção de teclados introduz uma balada sem grande sabor, com o típico riff feliz da vida que integra praticamente todas as músicas dos Belle & Sebastian. A primeira coisa que se nota é a produção polida e brilhante, com direito a uma pequena secção de gospel para conferir a este conto um tom mais angelical. O que parece estar aqui desaparecido é o elemento naturalista e bucólico que sempre encantou a música dos escoceses. Tal como Nobody’s Empire, a maior parte do disco tem um som bastante estéril.

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O mesmo se vê na seguinte faixa, Allie, e na francamente má Enter Sylvia Plath que se estende durante uns desnecessariamente longos seis minutos e 49 segundos que soam a uma música europop sem a parte instrumental viciante e as letras engraçadas. A remessa de sintetizadores saídos do lagar, juntamente com as back vocals femininas são suficientes para causar constrangimento a qualquer banda, até a uma tão relaxada como os Belle & Sebastian. A experimentação, com o ritmo e com a dança, que já em 2010 piscava o olho no bastante bom Write About Love, aparece ao longo de todo este novo álbum e é claro aqui que a banda nem sempre sabe o que fazer com ele.

Nem sempre” é melhor do que “nunca” e num espectro bem mais positivo temos The Party Line. O orelhudo single (teremos hit?) tem um apelo universal com a sua batida contagiante e o apelo repetitivo de Murdoch (“jump to the beat of the party line“). É uma das coisas mais diferentes que a banda fez na sua carreira inteira, contudo funciona pela fantástica noção de ritmo. The Power of Three, que se segue, é uma continuidade da boa experimentação com equipamento electrónico. Play For Today, a faixa mais longa do disco é também um bom exemplo de como os sintetizadores e as batidas de dança se incorporaram bem com o encanto colorido dos escoceses.

A cadência sempre foi uma dimensão bastante explorada nos discos dos Belle & Sebastian, e aqui a tendência repete-se: Depois de uns primeiros 20 minutos mais inclinados para o lado da dança, que progressivamente e de forma muito discreta vão sendo atenuados, chega-nos The Cat With Cream. O tempo que passou a fazer música para filmes fez bem a Stuart Murdoch e a dimensão mais elaborada de construir canções que têm de se integrar num determinado ambiente foi bem transportada para a sua banda de sempre. Somos introduzidos com violinos cândidos e cinematográficos que, lentamente, desvendam uma melodia elegante e sonhadora, pautada por uma percussão minimalista. Da cabeça aos pés, é Belle & Sebastian clássico, ao mesmo tempo que se destaca do disco e da própria obra. Uma das melhores prendas que a banda nos ofereceu nos últimos anos.

Menos estridente e saltitante, a segunda metade acaba por ser melhor do que a primeira. The Everlasting Muse é uma divertida canção com espírito celta, cujo tema lírico são as estratégias para se encontrar amor. De uma forma até curiosa, o conselho final é “be popular, play pop bands, you will win my love“. Vemos aqui também que a agilidade de Murdoch em assumir várias personagens está em boa forma. A narrativa das histórias maioritariamente introspectivas destas pessoas diferentes faz-nos sentir autênticos espiões e é um dos melhores elementos na música deste conjunto. Bons apontamentos para a mordaz Perfect Couples, que mete a colher entre “marido e mulher” e, sonicamente, parece namorar com algumas coisas feitas recentemente por artistas como Erlend Öye. De destacar ainda Today (This Army’s For Peace), que encerra o álbum num tom de harmonia.

Girls in Peacetime Want to Dance é um objecto curioso. É provavelmente o disco mais fora do baralho que os Belle & Sebastian fizeram e acaba por funcionar na maior parte do tempo. Apesar de um arranque francamente fraco e algumas oscilações na qualidade (temos a melhor e a pior faixa coladas uma à outra), fruto de uma experimentação com uma dimensão que a banda ainda não percebe totalmente, há aqui algum valor. Assim, podemos dizer que a banda acabou por passar no teste, o que não é de todo um elogio para quem sempre se manteve em alto nível. Este é um dos discos mais fracos dos Belle & Sebastian, mas dificilmente poderá ser visto como uma mancha num currículo de luxo. Contrariando um pouco o título de uma determinada canção do grupo: It still can be a brilliant career.

Nota: 6,5/10

*Este artigo foi escrito, por opção do autor, segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945.

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