Recentemente a Culturgest esgotou para receber Pocilga, um espectáculo produzido pelo Colectivo 84 e encenado por John Romão a partir de Pasolini. A obra surge numa altura em que se assinalam quatro décadas da morte do autor e no seguimento de Teorema, espectáculo anterior erguido pelo Colectivo e também oriundo da mente do artista italiano.

Pocilga é um conto de crueldade e diversidade e trata de um amor grotesco e incompreendido de um jovem que ama incessantemente os porcos. John Romão ficou assim a cargo de estrear na língua portuguesa, este que é um dos trabalhos menos notórios de Pier Paolo Pasolini. Num intervalo entre os ensaios do espectáculo, o Espalha – Factos esteve à conversa com o jovem encenador português de 30 anos de idade e com dois dos protagonistas de Pocilga, Albano Jerónimo e Ana Burstoff.

Durante cerca de meia hora, falou-se sobre a vida e obra de Pasolini, sobre os desafios associados a esta peça, a relação do actor com o texto, e também a relevância da função política e social da arte que é o teatro. Tudo isto, entre outras coisas que te vão pôr a par deste espectáculo que vai entrar agora em digressão por todo o país. Uma entrevista para ler a seguir:

EF: Houve alguma razão em específico para teres escolhido este texto nesta altura?

John Romão: O texto foi-me dado a conhecer pelo Jorge Silva Melo. Depois de ver um espectáculo meu ofereceu-me alguns textos e este era um deles. Comecei a entrar no seu mundo e a consumir tudo o que podia de Pasolini. Filmes, poesia e peças. Esta chamou-me à atenção porque também tinha gostado muito do Teorema que era um texto e também um filme e tinha sido escrito na mesma altura. O Teorema é de 1968 e a Pocilga é de 1969. Interessam-me sempre muito os “lados B” ou as primeiras obras ou as mais desconhecidas. Interessava-me saber porque é que esta era uma peça mais menosprezada do público.

 E o que me seduziu no texto é o facto de o mesmo ser muito barroco. Não existe acção. Pasolini escreve este texto em ’69 e em ’68 tinha escrito um manifesto para um teatro novo em que se dava prioridade ao texto e à palavra e não à acção. Então aquilo que me interessou também foi ver o que fazer com este texto em 2015. É um texto que não tem acção, mas que tem muitas imagens que são sugeridas através da palavra. Era um desafio para mim, já que o meu trabalho é mais da criação, é muito visual também. Queria ver onde podia criar imagens e acção onde elas não existem.

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EF: Procuraste no filme também realizado por Pasolini alguma inspiração sobretudo a nível visual? Algum ponto de referência?

John Romão: Sim. Tomei como referência tudo aquilo que não queria fazer. Tudo o que é visto no filme é aquilo que eu não quero ver em cena. É como se um outro artista tivesse encenado o mesmo texto. Se alguém encena um Shakespeare de uma maneira, eu quero fazer à minha maneira. Aquilo que nos ajudou na referência visual foi para perceber as opções que Pasolini tomou.

EF: Recomendaste aos actores ver o filme para além de ler a peça?

John Romão: Sim, claro. Ver o filme e ler a peça. O que eu acho engraçado é que o filme é muito mais conhecido que a peça, mesmo sendo ele próprio bastante desconhecido, as pessoas associam este texto mais ao filme. E o mesmo é já uma digestão daquilo que foi escrito porque é realizado depois de a peça ser escrita. Por isso é que ele cria uma segunda narrativa paralela que era impensável escrevê-la. Na peça ela não existe porque tem que ser vista. É em silêncio com o canibal na paisagem vulcânica. É uma coisa que ele pensou depois.

Albano Jerónimo: Também é diferente porque nós em cena usamos uma versão integral. O Pasolini não usou a cena do Spinoza no filme, por exemplo.

John Romão: Sim, há uma cena que está na peça e que ele tinha no guião mas que à última da hora decidiu não filmar. E há muito mais texto que no filme. No filme ele condensou bastante o texto. Por exemplo, há um monólogo muito bonito que ele escreveu que é o Albano que diz [como Julian] que no filme são só dois parágrafos. Porque é cinema, é outro meio.

EF: Portanto, utilizaste o filme de modo a desviar-te saudavelmente daquilo que é a visão do autor de modo a criar uma coisa nova e diferente.

John Romão: Sim, precisamente.

Cena do filme Pocilga (Pasolini, 1969)

Cena do filme Pocilga (Pasolini, 1969)

EF: Falem-nos da vossa experiência e relação com o Colectivo 84 como colaboradores.

Ana Bustorff: Para mim é a segunda vez que trabalho com o John Romão e trabalharei quantas vezes mais ele quiser, gosto muito da forma como ele trabalha. Fazer a Pocilga foi também um desafio para mim, nunca tinha feito Pasolini. Para além do grupo de actores: para mim é importante o grupo de pessoas com quem me tenho de relacionar e contracenar. Também já a segunda vez que faço de mãe do Albano [a primeira foi em Coriolano, 2013] e farei as vezes que for preciso [risos]. Para mim desde que seja uma diversão e me sinta bem, estou aqui para as curvas [risos]

Albano Jerónimo: Eu nunca tinha trabalhado com o John. Já tinha visto muitas coisas do Colectivo e sempre gostei imenso porque o John e o próprio Colectivo pautam-se por um tipo de trabalho que para mim é singular e eu como espectador adiro muito bem. E trabalhar com o John é um prazer e se ele me chamar para uma próxima vez estarei disponível porque gosto imenso da forma de trabalhar que ele tem. Posto isto, acho que esta coisa que estamos a fazer vai reflectir exactamente uma espécie de maturação, de percurso, do próprio John.

EF: Mesmo sendo este um texto de ’69, vemos aqui muita contemporaneidade nas temáticas abordadas. Uma espécie de transversalidade temporal que se nota pelas temáticas de corrupção moral e maldade na sociedade que ainda hoje acabam por ser temas bastante presentes…

John Romão: Este é um texto de época. É a primeira vez que eu estou a fazer um texto que se refere a um determinado período e embora não estejamos a fazer isto à época, não há medo de assumir esse tempo. Isto foi escrito em 1969, há o contexto pós guerra, passa-se na Alemanha, há um pai nazi, uma mãe que é como um dragão prussiano, muito militar.

É esta experiência da guerra que acabou de acontecer e ao mesmo tempo há esta vontade e este gosto pelo masoquismo, pela destruição e pelo mal.  Isto para te dizer que é a primeira vez que estou a fazer um texto de época, mas que também tem um reflexo de nós. Este texto privilegia mais a palavra em função da imagem e o que estou a tentar é criar um equilíbrio entre as duas coisas. Aquilo que eu estou habituado é mais a criação, a imagem…

EF: Acaba por ser mais orgânico…

John Romão: Sim… nos meus outros trabalhos era um outro tipo de linguagem. O diálogo era uma coisa muito cinematográfica, cenas muito curtas, uma dinâmica muito rápida e aqui é uma coisa muito mais instalada.

Ana Bustorff: Eu acho que as cenas têm um peso a que se chama teatral. Está a pegar numa peça (e não quer dizer que ele o faça dessa forma), mas a estrutura é mesmo de peça de teatro, com cenas longas… No outro trabalho que tinha feito com o John, que no fundo era a partir do Teorema, é o que o John diz: Eram cenas muito curtinhas, era a tal linguagem cinematográfica.

EF: É um texto bastante político e socialmente consciente, em linha com a restante obra de Pasolini. Que outros autores de valor semelhante o Colectivo gostaria de explorar no palco?

John Romão: Acho que os autores que temos trabalhado têm sido todos à volta disso [da temática política e social]. Não é uma novidade para mim fazer isto, mas não tenho planos no futuro para o que quero fazer.

Ana Bustorff: Eu quero é que isto corra bem para já!

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EF: Sendo um encenador jovem, que foi criado num contexto sociocultural e político diferente de outras figuras no teatro português, qual é a tua posição em relação àquela velha máxima do teatro como acção social? Consideras que nos dias de hoje fazer teatro ainda é uma acção política?

John Romão: Pelo menos para mim, o tipo de teatro que me interessa e que eu faço é sempre um gesto político de alguma maneira. Para já podemos começar por pensar: Quem é que vai ao teatro? A burguesia. É quem tem dinheiro para pagar o bilhete. Não estás necessariamente a falar para uma classe pobre, estás a falar para uma classe média-rica. Portanto aquilo que tu podes debater em cena é sempre um confronto com quem assiste, de alguma maneira. A política está em tudo. Eu gosto de criar um objecto artístico no sentido em que não é um produto cultural.

 Por isso é que nós complicamos tanto as coisas e não criamos um texto que pode ser lido em casa. A perspectiva daquilo que demos em cena é muito mais complexificada. Portanto, acho que a política está presente mesmo quando não falamos das coisas directamente. Por exemplo, o Teorema, que tem como referência um objecto muito político que é o filme. A forma que eu optei fazer aquilo não é nada política. Não me detive na questão política porque ela já lá está. Se perguntares sobre a Pocilga em concreto, sim é um texto político e é uma grande crítica às políticas vigentes.

EF: E quando o receptor não assimila esta mensagem correctamente? Ou não a assimila sequer?

John Romão: Ainda bem. Está no direito de não a assimilar, eu não faço teatro panfletário.

EF: Mas não estará derrotado o propósito?

John Romão: Não. Eu acho que aí é que está o interesse, que o objecto artístico tenha uma ambiguidade na sua leitura e na sua interpretação. Eu acho que quando fazes uma coisa assumidamente política aí é que perde automaticamente a força. Estás a prostituir por assim dizer, os propósitos da peça. Eu acho que o objecto artístico quanto mais ambíguo for mais interessante é. Toca-te mais do que falares de uma coisa e dizeres “isto é sobre isto”. Para isso tens o teatro de revista que fala das coisas directamente. Não penso numa interpretação única das coisas. Espero que haja sempre ambiguidade e que cada pessoa consiga depreender coisas diferentes.

EF: Estão a aproximar-se do final do processo de construção desta peça. Quais foram os desafios associados a este trabalho, tanto do lado de quem coordena como do lado que lhe dá vida em palco?

Albano Jerónimo: Para mim é esta gestão com aquilo que o artista escreveu. É a gestão da palavra. Esta densidade, estas camadas que este texto do Pasolini tem. Isto é infinito. Para mim, a luta que eu tenho mais presente é exactamente esta: tornar a palavra clara e que a palavra seja a protagonista e isso implica uma acção, um trabalho e um cuidado. Para mim isso é eterno. E vamos estrear e continuar sempre nesta luta.

Ana Bustorff: Igual!

John Romão: Para mim são várias coisas novas. Gerir muita gente, que é difícil [risos]. É uma equipa grande, não só os actores. Para além deste texto que tem muitas camadas de sentido e onde tentamos potenciar a ambiguidade da palavra. Tentamos sempre não ser literais nas coisas e isso é que é difícil. Mesmo para um actor é difícil não ser literal. Ser literal é muito aborrecido e não é isso em que Pasolini se interessava. Nem eu.

Albano Jerónimo: Exactamente. Nós não nos propomos a fazer uma coisa comum. Nós queremos inquietar. Queremos que as pessoas baralhem e voltem a dar o jogo.

John Romão: Porque depois nesta peça em concreto não há um esclarecimento de nada. Não se sabe ao certo qual é a relação que o protagonista tem com os porcos. Sabemos que é uma relação muito horrorosa, presume-se que seja um acto sexual com os porcos mas nada disso é visto, nada é claro. Mesmo quando se fala disso, não se chega a conclusão nenhuma. O que é interessante neste texto é ver a forma perversa de como se actua perante o que é anormal, o que é diferente na sociedade.

EF: E a relação dos actores com o texto? Sendo o conteúdo da fonte de material algo de uma natureza relativamente forte e até estranha, foi uma peça que vos tocou de alguma forma? Que vos deixou pensar?

Ana Bustorff : Eu há tantos que faço coisas tão estranhas, que já é uma normalidade esta estranheza, sinceramente. Já me habituei a lidar com isso!

Albano Jerónimo: Para mim o gozo é conhecer o autor e o Pasolini tem uma vida plena de coisas, de contrariedades sobretudo, e isso é muito estimulante. Este texto é uma continuidade do Pasolini enquanto ele como artista e homem. Não tenho nada assim num momento particular ou específico, mas sim uma grande cumplicidade e urgência em partilhar aquilo que ele escreveu com tanta pertinência no seu tempo. E nós no nosso tempo, com o nosso conhecimento e com a visão do John estamos a levantar este universo.

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EF: Esta dimensão dos porcos que Julian ama e que eventualmente o aniquilam pode servir como uma metáfora bastante sinestésica e intensa para questões como o consumismo e como o mesmo desgasta uma sociedade que o caça desenfreadamente. Estará a sociedade portuguesa a precisar de ser chocada para entender os problemas que a avassalam diariamente?

Albano Jerónimo: Eu acho que o paradigma forçosamente vai mudar. Eu acho que nos temos de adaptar a partir de uma perspectiva darwinista enquanto espécie. Temos de nos adaptar ao nosso ambiente e se não nos focarmos em valores urgentes que para mim são os valores humanos, então não temos saída. Digamos que estamos de encontro ao muro, agora temos de gerir a velocidade com que batemos. E as coisas têm que mudar, temos exemplos diários, como o que aconteceu agora na França. É notório.

Ana Bustorff: Eu estou muito preocupada porque ouvi dizer que vão acabar as abelhas e o chocolate [risos].

John Romão: Pasolini escreveu este texto de uma forma até autobiográfica. Ele considerava-se diferente, considerava-se o Diverso, mesmo com letra maiúscula. E esta diferença deste amor de Julian reflecte também a diferença que o autor sentia. Há sempre uma exclusão do que não é normal. Não é um texto que dá esperança alguma, bem pelo contrário. É um texto que diz o quão horrível se fazem estas trocas.

Este anómalo presente na figura de Julian é a moeda de troca para milhões de crânios judeus na Alemanha nazi. Ele põe na mesma balança um gosto diverso e uma coisa que é um extermínio e um exemplo negro de um país inteiro. É uma coisa interessante como ele sente de uma forma tão horrível essa sua diferença que o compara a isso. A nível humano ele não te diz como as coisas devem ser. Ele diz “vejam bem como não é possível tu seres tu próprio”. Hoje não se sente tanto, mas de alguma maneira sim. Basta ver a nível religioso o que tem estado a acontecer.

Albano Jerónimo: Dito isto… vamos agora culminar com uma frase do próprio Pasolini: “La culture est une résistance à la distraction!”.

Pocilga andará em digressão pelo país nos seguintes locais:

TAGV – Teatro Académico Gil Vicente (Coimbra): 22 Janeiro 2015

Teatro Virgínia (Torres Novas): 21 Fevereiro 2015

Teatro Viriato (Viseu): 27 Junho 2015

Teatro Nacional São João (Porto): 3 a 12 de Julho 2015

*Este artigo foi escrito, por opção do autor, segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945.