Pocilga-©Rui-Palma-1_28JANEIRO2015

O céu é uma ‘Pocilga’

Na zona da bilheteira da Culturgest ainda há a esperança por mais um bilhete. Mas esse bilhete não existe. A última sessão de Pocilga – a terceira peça de uma trilogia dedicada ao autor Pasolini -, na Culturgest, está preenchida até à última cadeira. Entramos. Por ironia, fica um lugar vazio à nossa beira. O resto da sala está ocupada e pronta a testemunhar o drama: o refúgio ao capitalismo está nos porcos. Está na Pocilga.

Com uma obra ligada ao interior do ser humano, o autor Pier Paolo Pasolini reforça essa dimensão em Pocilga, interpretada agora em Portugal, em estreia nacional. O cineasta critica a sociedade alemã capitalista, pós-Hitler, onde a degradação humana é protagonista. No fim chega o consenso: tudo o que não for visto, não aconteceu. E assim se apagam as atitudes animalescas.

Se me visses um só instante como sou na realidade, correrias aterrorizada a chamar um médico ou uma ambulância.

Doente por dentro, Julian – o protagonista – é o primeiro a admitir a sua própria identidade: “não sei quem sou“. Fruto de um casal capitalista, Julian é um jovem em crise de identidade que a procura ao longo de todo o espetáculo, em constante discussão e perturbação. Em constante protesto, Julian recusa a sua herança, mas bipolariza-se: aos olhos de Ida, sua amada, é uma coisa; aos olhos dos pais fanáticos é uma outra coisa muito diferente. À margem do mundo e da sua mansão principesca, espelhada na peça com o branco como se de um manicómio de tratasse, Julian refugia-se na pocilga com os porcos.

Deixando no ar a possibilidade de a relação dos porcos ser carnal, tal ligação significa, pelo menos, uma abstração do mundo real, dos pais e de Ida. Foge para se sentir mais verdadeiro. Foge para poder sentir, sentir-se humano tal é o desprezo que sente pelo capitalismo louco e desenfreado que é retratado na peça com um maquinismo e uma limpeza impressionantes que realçam a imundice. No fundo, Julian entrega-se à pocilga, ao seu céu, para não ser devorado pelos homens. A sê-lo que seja pelos porcos.

A contrastar com essa imundice está todo o cuidado higiénico demonstrado ao longo de toda a peça com os criados – e até a matriarca – a serem os protagonistas do constante branco que nos fere os homens. Por debaixo dessa limpeza ficam os atos animalesco, a dupla selvagem, a loucura do capitalismo que financia as festas, as atrocidades e o desprezo pelos imigrantes (italianos) que estão para lá da dignidade de um palácio.

pocilga - L_460-252

Longe de ser uma peça pautada por início, princípio e fim com o climax a tornar tudo claro, Pocilga é uma construção contínua que nos fascina ao mesmo tempo que nos intriga. O cenografia, o som e os figurinos são de excelência, de qualidade que faz orgulhar qualquer português. Nas interpretações Albano Jerónimo ganha o prémio de coragem: entrega-se por completo ao espetáculo, do início ao fim, cambaleando de forma perfeito como se estivesse perdido nas tábuas rasas que o acolhem.

Apesar do notável de Albano Jerónimo, o ator peca por vezes na forma robotizada com que diz o texto. Contudo, entende-se o efeito a dar: um Julian comandado, automatizado, longe da sua identidade. Já Ana Bustorff merece todos os aplausos: aparece em palco num registo provocante, deixando qualquer espetador à espera da próxima investida da atriz. Forte e rígida, como a sua voz, Bustorff deu um baile de comédia corporal numa peça controlada pelo drama, aligeirando esta Pocilga de intensos enigmas.

Com os seus movimentos bem estudados, os diálogos mais naturais do que os restantes, a atriz mostrou o seu talento do início ao fim, incorporando uma sádica alemã da melhor forma: salsicha na mão, meia de stripper na perna e boca pronta a receber um pastel. Interpretações adjacentes serão tudo menos aceitáveis.

Em 2015 celebram-se os 40 anos da morte do realizador italiano Pier Paolo Pasolini.

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