A figura do workaholic é bem conhecida numa sociedade contemporânea cada vez mais dominada pelo stress e pela vertigem da rotina diária. Não costuma é ser tão aplaudida e bem vinda pela maioria dos seres humanos como é pelos fãs do já incontornável Ty Segall.

Desde 2006 que já são praticamente duas dezenas de discos aquelas que este norte-americano engendrou. Quer a solo ou com outros projectos, entre os quais os interessantíssimos Fuzz, Ty Segall é uma máquina imparável dentro do universo da música alternativa e provavelmente o imperador derradeiro do fenómeno revival do garage rock.

Assim, na ressaca de Manipulator, lançado no passado verão, e visto como um dos melhores discos do ano passado, Segall prepara-se agora para lançar um álbum ao vivo em São Francisco. Entretanto lançou, no final do ano, uma segunda colectânea de lados B ($INGLE$ 2) e esta semana decidiu oferecer aos seus fãs mais um EP. Eis que nos chega Mr. Face, um conjunto de quatro músicas, em dois vinis e divididas entre um registo que relembra o místico Sleeper e um que vai ao encontro do glam glorioso (ou glamorioso?) do já mencionado Manipulator. O resultado é uma entrega morna que certamente não ganhará grande destaque entre a já vastíssima obra do músico. Mas esperem, há mais…

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Ty Segall decidiu recompensar os adeptos do vinil com o primeiro EP 3D do mundo. A embalagem contêm dois discos de 7” que poderão ser encostados aos olhos para se poder visualizar a arte da capa de Mr. Face. E até traz os óculos tradicionais porque lá está… é um EP, e um EP ouve-se, sobretudo. Vamos avançar portanto ao que mais interessa: a música. O que poderão ouvir enquanto deliram com a feitiçaria visual do senhor Segall? Começamos com um número acústico que dá nome ao registo. Mr. Face é um tema a roçar os lados do folk psicadélico que nos remetem para a “british invasion” de bandas como os The Who e os The Kinks. É Ty Segall no seu modo de relaxamento.

http://www.youtube.com/watch?v=eBj2zPROIHk

A seguir, somos introduzidos com uma secção de baterias ao bom estilo do multi-instrumentalista que, eventualmente, evolui para um qualquer lado B do Sleeper. Falamos da morna Circles.

Depois há Drug Mugger, com o seu riff gingão onde se vê mais claramente a identidade do músico, e menos as influências que adornam o seu espólio. Há uma referência ao connection man, figura presente no anterior disco, e em boa verdade, Drug Mugger é, da cabeça aos pés, um tema pertencente ao universo Manipulator, com o seu refrão épico e o canto finíssimo que já lhe é tão característico. É o momento mais alto do disco. Para encerrar temos The Picture, que é a típica closing track adocicada, mística e fresca que os músicos de rock dos anos 70 usavam para se despedirem nos discos. Um passeio no parque, este Mr. Face.

Embora a nível musical esteja longe de nos trazer algo de novo, ou único, como costuma ser a função destes EP’s esporádicos, Mr. Face acaba por se tornar uma compra tentadora para os fãs mais dedicados do norte americano, não propriamente por argumentos musicais mas mais pelo embrulho deste “presente”. Não estamos perante um mau registo sequer, nem tão pouco medíocre. É, pura e simplesmente, mais do mesmo daquilo a que Ty Segall nos tem oferecido, mas desta vez o prato é de luxo. Vamos admitir, é um vinil bem fixe.

Nota: 6/10

*Este artigo foi escrito, por opção do autor, segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945.