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‘Estranhas Coincidências’ de José Vieira: estórias sobre fé e amor

Estranhas Coincidências, publicado em 2014 pela Chiado Editora, é o primeiro livro de José Vieira, pseudónimo de uma jovem nascida no Portugal rural no final da década de 80.

Vieira apresenta ao leitor, em apenas 50 páginas, quatro contos: estórias sobre o carácter volúvel da vida e a força de determinadas mudanças ou pequenas decisões inesperadas, capazes de alterar “para todo o sempre o rumo da existência de cada um”. 

estranhas coincidencias

A partida de Judite retrata o sofrimento de um homem que perde o amor da sua vida para o cancro, “essa maldita doença”, e que acaba por descobrir uma carta da sua falecida esposa a pedir-lhe que a revolta não se apodere do seu coração por muito tempo, uma vez que foi Isaac que a ensinou que as coincidências são muito mais do que apenas um fruto do acaso, não devendo por isso desistir de ser feliz: “O ser humano não foi criado para viver solitário, portanto anseio que consigas ultrapassar a dor da minha partida”.

Samuel, o Pastor Envelhecido conta a estória de um menino da aldeia que, à medida que foi crescendo, abandonou “a louca necessidade de sair dali e poder conhecer outros mundos” para abraçar “cada canto e recanto (…) como partículas do seu próprio ser”, ali naquele remoto povoado que, apesar de todos os defeitos, era o seu espaço. Um conto sobre o “grande antagonismo entre o ser e o dever ser”, a importância do conhecimento e a escolha da companhia de indivíduos “grandiosos em valores” em detrimento daqueles “que apesar de tudo terem nada eram, apenas um cúmulo de presunção”.

Amor Perdido aborda a perda de Salomé, que tal como Isaac d’A partida de Judite passa pelo sofrimento de saber falecido o seu grande amor, neste caso na guerra, seis semanas antes do “seu regresso para o enlace”. A paz é restabelecida com o ingresso “numa ordem religiosa” e, na hora do último suspiro, talvez o amor, que permanecera intacto, lhe tenha revelado algum segredo.

Para terminar a obra de linguagem simples e directa, sem floreados tal como a vida é, Estranhas Coincidências segue “João, Dalila, Pedro e Simão [que] nunca pensariam que numa trágica noite os seus caminhos encontrar-se-iam e nunca mais estariam separados um do outro (…) até ao fim dos tempos e para além da morte”. Sobre o poder dos desígnios de Deus, a coragem de arriscar a vida pelos outros e as estranhas coincidências que permitem que tudo se alinhe para determinada situação possa acontecer.

Nunca deixando de destacar, de alguma forma, a importância da fé e do amor, os contos de Vieira partilham todos a ideia de que “a nossa essência é fruto da mesma matéria, os nossos caminhos estão enrodilhados e no final de cada percurso somos absorvidos por sensações e sentimentos idênticos”. Ainda que o façam de forma diferente, todos “amam, sonham, entristecem e sentem dor”. Judite e Isaac, Samuel, Salomé, João e Dalila e Pedro e Simão são protagonistas das suas próprias estórias, mas as existências retratadas podem não estar muito longe da realidade de alguém.

Assim, esta primeira incursão no mundo da literatura, que é o realizar de um sonho há muito sonhado, embora com falhas técnicas e ainda muito por explorar, tem o potencial de despoletar reflexões acerca do papel da fé, da importância do amor e do facto de “aquilo que diverge a vida de cada um” nos conduzir “à conclusão que em tudo somos semelhantes”, que as nossas vidas não são assim tão diferentes umas das outras, que podemos influenciar os caminhos uns dos outros e que, na outra ponta do mundo, pode existir alguém a passar pelo mesmo que nós.

Nota: 5/10

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