O Jogo da Imitação: os bastidores da guerra

O Jogo da Imitação: os bastidores da guerra

O Jogo da Imitação chega hoje às salas portuguesas, aproveitando a boleia da Award Season e dando continuidade a uma onda de filmes “baseados em casos verídicos”.

Desta vez é Alan Turing quem tem direito a ter a sua vida exposta na grande tela. Foi um dos grandes matemáticos do século passado, tendo intercetado e descodificado na II Guerra Mundial o código Enigma que os nazis utilizavam nas suas mensagens, tornando-se numa dos principais pilares da vitória dos aliados.

História interessante, certo? E se a isto adicionarmos o facto de Turing ter tido de esconder a sua homossexualidade (na altura punível em Inglaterra) das autoridades então ficam reunidas as condições para uma biografia cinematográfica cheia de potencial, com muitas pontos e alguns tabus por onde se lhe pegar. Só que O Jogo da Imitação explora estes assuntos muito superficialmente, através de diálogos desinspirados e uma narrativa demasiado convencional para um trabalho que, a julgar pelas distinções que tem vindo a arrecadar, se esperaria mais impressionante.

A história do matemático é contada quase em formato telenovela, onde os dramas de cada protagonista e a sua caraterização psicológica são do mais básico que se possa imaginar. Consequentemente não se consegue criar grande empatia por nenhum deles, de tão bidimensionais que são e da falta de química que existe entre os atores. Benedict CumberbatchKeira Knightley, embora sejam ambos excelentes intérpretes, não parecem adequados para os seus papéis, dando a impressão de que lhes falta qualquer coisa para encarnar convincentemente Turing e a sua amiga Joan Clarke (já para não falar nas poucas semelhanças físicas que mantêm). E mesmo dando o seu melhor acabam por ficar condicionados pelo paupérrimo argumento com que têm de desenvolver as suas fraquíssimas personagens.

Entram então os clichés, que não surpreendem pela sua existência (qual a biografia que não os tem?) mas pela forma como se tornam na personagem principal do filme. Outros biopics muito recentemente mostram que é possível fugir aos lugares comuns do género, como se viu em Mr. Turner, ou pelo menos pegar neles e transformá-los em algo de bom, tal como Angelina Jolie acabou de fazer em Invencível. Mas O Jogo da Imitação é vítima, ou melhor, deixa-se vitimar pelas inúmeras marcas das obras biográficas, desde a omissão de uns factos à alteração outros, para dramatizar desnecessariamente um ou outro acontecimento ou simplesmente fazer de Turing um herói sem um único defeito.

O filme está dividido em três espaços cronológicos, que vamos conhecendo numa narrativa não linear (um dos poucos aspetos que merecem destaque). Um deles mostra a infância de Turing num retrato aligeirado mais focado na amizade entre ele o seu melhor amigo de escola do que propriamente nas aptidões matemáticas e outras ideologias que já evidenciava em tenra idade. Outro, o central e mais importante, passa-se em plena II Guerra, quando foi chamado para descodificar as mensagens alemãs, e é aquele onde mais se evidenciam os muitos defeitos referidos nos parágrafos anteriores.

O terceiro espaço cronológico é o que compensa a mediocridade de O Jogo da Imitação. Passado já na década de 50 num pós-guerra onde todos os envolvidos na descodificação do Enigma voltaram às suas vidas normais (e sem poderem revelar em que trabalharam nos anos anteriores), é aquele que se apresenta num tom mais sóbrio, ao contrário de uma certa ingenuidade presente nos outros segmentos da narrativa, e que mostra de forma mais forte como eram tratados os homossexuais em meados do século passado. E se há momento em que de facto criamos qualquer tipo de relação com as personagens, é aqui.

Mas como um todo, O Jogo da Imitação é um biopic banal, sem grandes motivos de interesse. Os clichés e o convencional dão as mãos e reduzem uma história fascinante a um filme que não merece nem metade do inexplicável reconhecimento e atenção que esta época de prémios lhe está a dar. É nestas alturas que precisávamos de um Turing para descodificar o que vai na cabeça das academias e instituições que oferecem tais galardões.

5/10

Ficha Técnica

Título: The Imitation Game

Realizador: Morten Tyldum

Argumento: Graham Moore, baseado no livro de Andrew Hodges

Elenco: Benedict Cumberbatch, Keira Knightley, Matthew Goode, Allen Leech, Matthew Beard, Rory Kinnear, Charles Dance, Mark Strong

Género: Biografia, Guerra, Drama

Duração: 114 minutos

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