Angelina Jolie volta a sentar-se na cadeira de realizadora para nos trazer um história inacreditavelmente inspiradora sobre a esperança e a força humana: Invencível.

Tal como muitos filmes deste género, que pegam na vida de grandes personalidades e transportam-nas para o grande ecrã, fica a impressão de que a história de Louis Zamperini merecia uma longa-metragem mais completa, mesmo tendo em consideração que os inúmeros e extraordinários episódios que viveu dificilmente iriam ter uma obra à sua altura. Senão vejam.

Zamperini foi um atleta olímpico nos anos 30, que participou nos Jogos de Berlim em 1936, mas quis o destino que o velocista fosse para o exército. Em plena II Guerra Mundial, o seu bombardeiro despenhou-se no Pacífico, onde ficou à deriva durante 47 dias, até ter sido capturado pelos japoneses e ter sido enviado para um campo de concentração.

É, portanto, uma história que dificilmente seria totalmente bem adaptada ao cinema e o filme que nela pegasse nunca lhe faria justiça. Angelina Jolie parece perceber isso e não tenta fazer de Invencível um épico de guerra, cheio de diálogos forçados ou a sobrevalorização de momentos mais comoventes. A fita está, aliás, muito bem ritmada (a gestão dos momentos mais fortes com os comic reliefs é perfeita), mantendo-se séria e plausível, pegando nos muitos clichés dos biopics tradicionais e transformando-os inteligentemente em cenas muito boas.

Porque, mesmo sem ser inovador, Invencível consegue despertar muitos sentimentos da audiência. Num dos seus pontos altos, por exemplo, vemos Zamperini debilitado física e psicologicamente a desafiar o chefe da prisão com todas as forças que lhe restam. A cena é igual a muitas outras (e não acreditamos que na vida real terá acontecido exatamente como acontece no filme) e estão nela presentes muitos clichés. Mas a verdade é que tudo resulta e o momento é de elevar o espírito de qualquer espectador.

Isto porque é impossível ficar indiferente à vida e à coragem de Zamperini, e se muitos destes clímaxes fossem protagonizados por outro herói fictício não iriam certamente resultar. Invencível é, portanto, um filme que depende inteiramente da sua narrativa e da incredibilidade dos episódios que conta, que mesmo quando vítimas das poucas mas notórias más decisões da realizadora (os flashbacks da infância e adolescência do atleta/soldado estão muito mal construídos) continuam interessantes.

Angelina Jolie vai-se afirmando como uma realizadora cujo trabalho vai valendo a pena acompanhar. Depois de se ter estreado atrás das câmaras em 2011 com Na Terra de Sangue e Mel, que passou praticamente despercebido e não convenceu lá muito, a cineasta mostra neste novo trabalho que tem condições para nos ir impressionando nos próximos tempos. Mesmo que se tenha mantido muito agarrada aos clichés à la biopic dá para notar um certo sentido estético e um ou outro plano são até muito bonitos.

A construção da história é muito bem elaborada, o que num filme de quase duas horas e meia é importantíssimo. Ajudada por uma boa montagem e um forte argumento, a realizadora consegue cativar as audiências mesmo quando isso parece mais difícil. Os 47 dias que Zamperini passa à deriva poderiam ter-se traduzir-se nos pedaços mais aborrecidos e entediantes de Invencível, mas em vez disso eles tornam-se num retrato básico mas interessante de como reage o ser humano em situações extremas.

Faltou-lhe, no entanto, um pouco mais de frieza e ambição na rodagem de algumas cenas chave, especialmente nas que tomam lugar no campo de concentração. Jolie aposta mais na violência psicológica, que, diga-se, é bastante eficaz, mas a violência visual deixa muito a desejar. As atrocidades vividas pelo nosso herói são imaginadas na tela de uma forma muito “inofensível” e politicamente correta, o que torna algumas das experiências mais incríveis e cruéis de Zamperini em momentos soft (o protagonista tem sempre um ar muito limpinho e sem muito sangue depois de levar enxertos de porrada).

O elenco é liderado por um Jack O’Connell em alto nível, capaz de transmitir os muitos sentimentos vividos pelo protagonista do filme de maneira muito convincente. Domhnall Gleeson, que interpreta Mac, o companheiro de Zamperini nos 47 dias à deriva no mar, também tem uma excelente performance, e há que admirar o peso que os dois atores perderam para encarnarem fielmente as suas personagens. E numa obra onde as luzes estão constantemente focadas em O’Connell, não dá para avaliar o trabalho dos restantes intérpretes de tão pouca relevância tiveram no ecrã, embora se possa nomear o pior deles: Takamasa Ishihara, no papel de Watanabe, que com uma atuação um pouco em overacting reduziu o chefe do campo de concentração a um vilão muito estereotipado.

É por tudo isto atrás referido que chegamos a uma simples conclusão: o maior trunfo e real motivo de interesse de Invencível é a sua história verídica, uma das mais inspiradoras que já foi dada a conhecer nos últimos anos pelo cinema. Mas mesmo que o filme não seja uma homenagem à altura dos feitos de Louis Zamperini, é uma obra que vale a pena ver e que, fora os clichés do biopic, tem alguns aspetos uns furos acima do mediano. E Angelina Jolie, com um pouco mais de ambição, pode chegar a um patamar que não alcançou como atriz. O tempo o dirá.

6,5/10

Ficha Técnica

Título: Unbroken

Realizador: Angelina Jolie

Argumento: Joel Coen, Ethan Coen, Richard LaGravenese e William Nicholson, a partir do livro de Laura Hillenbrand

Elenco: Jack O’Connell, Domhnall Gleeson, Takamasa Ishihara, Finn Wittrock

Género: Biografia, Guerra, Drama

Duração: 137 minutos