A rubrica A Recordar, iniciada em 2012, está de volta ao Espalha-Factos. Vamos voltar a relembrar atores e atrizes que tenham marcado a sua época, mas que caíram em esquecimento ou não foram suficientemente reconhecidos. Percorreremos atores de diversas décadas, até à atualidade. Falaremos da sua vida, carreira, papéis mais icónicos e do legado que deixaram.

Hoje recordamos Debbie Reynolds, uma das atrizes mais queridas da velha Hollywood, portadora não só de um talento enorme para os musicais mas também de um charme e uma voz inconfundíveis, já para não falar na sua beleza que aos 16 anos já lhe valia o título de Miss Burbank (cidade onde cresceu).

Foi esta distinção que a levou até ao mundo do cinema. A Warner Bros não hesitou em oferecer um contrato à jovem Mary Frances, nome que trocou por Debbie, e deu-lhe em 1948 o seu primeiro (embora muito secundário e quase insignificante) papel no grande ecrã, em Noiva da Primavera. Só dois anos depois voltaria a entrar numa fita, desta feita em A Filha de Rosie O’Grady, novamente como personagem secundária, e a lentidão com que a sua carreira avançava levou-a a não renovar o contrato com a Warner Bros.

Debbie fez as malas e rumou à MGM, onde se estreou, em 1950, em Três Palavrinhas, musical de Fred Astaire, com um pequeno mas notório papel de Helen Kane. No mesmo ano, a sua participação em Duas Semanas de Amor marcou a sua primeira experiência com o sucesso. Embora voltasse a não ser o nome principal do elenco, o tema Abba Dabba Honeymoon, interpretado por ela num dueto com Carleton Carpenter, foi um grande sucesso e chegou ao top 3 da Billboard.

A carreira da jovem atriz ia de vento em popa e, depois de mais um papel secundário em É Proibido Amar de 1951, teve finalmente direito a colocar o seu nome no cartaz do filme pelo qual mais é recordada. Falamos de nada mais nada menos que Serenata à Chuva, um dos maiores clássicos da história onde contracenou com Gene KellyDonald O’Connor em alguns dos números mais inesquecíveis do cinema.

Serenata à Chuva provou que o talento e a presença de Reynolds no grande ecrã não cabiam em papéis secundários e a MGM tornou-a num dos maiores nomes da empresa, oferecendo-lhe todo o protagonismo que merecia. The Affairs of Dobie Gillis, I Love Melvin (onde voltou a dançar com Donald O’Connor), Athena ou The Tender Trap são apenas alguns dos títulos onde encabeçou o elenco, chegando a contracenar em 1956 com Eddie Fisher, então seu marido, no filme Vem a Meus Braços, que lhe valeu a primeira nomeação para o Globo de Ouro de Melhor Atriz.

1957 foi outro ano de ouro para Reynolds graças ao filme A Flor do Pântano. A balada Tammy foi nomeada ao Oscar de Melhor Canção Original e o single chegou ao primeiro lugar das tabelas, numa altura em que também fora dos ecrãs a sua vida parecia perfeita, com o nascimento da sua primeira filha Carrie (que também seguiria a profissão de atriz) e a participação em algumas iniciativas de solidariedade.

Nos anos seguintes, Reynolds dedicou-se não só ao cinema, com a participação em vários filmes desde musicais a comédias, passando até pelo género do crime em 1959 com Sem Talento para Matar, mas também ao mundo da música, com a gravação de um álbum homónimo e outros dois singles que voltaram a ser bem recebido pelo público, colocando o seu nome de volta nos tops da Billboard.

Só em 1964, após quase duas décadas de carreira, a Academia reconheceu o trabalho da atriz, quando a sua interpretação de Molly Brown em Os Milhões de Molly Brown lhe valeu uma nomeação para os Oscars. O musical baseado no espetáculo da Broadway segue a vida de uma das sobreviventes do Titanic e, embora não seja o título pela qual é mais relembrada, foi até agora o único que levou Reynolds a cerimónia dos prémios máximos de Hollywood.

Em 1969 foi-lhe dado o seu próprio programa de televisão, The Debbie Reynolds Show, que acabou por ser cancelado após uma temporada devido a algumas divergências entre a atriz e a NBC, canal que transmitia a sitcom. Dois anos mais tarde, em 1971, Reynolds entrou em Duas Mulheres… um Destino e nos 20 anos seguintes não voltou ao cinema, a não ser em pequenas participações em alguns documentários. Virou-se então para os palcos e estreou-se em 1973 no espetáculo Irene, que lhe valeu uma nomeação para os Tony Awards.

Reynolds virou-se para os palcos e estreou-se em 1973 no espetáculo Irene, que lhe valeu uma nomeação para os Tony Awards. Um segundo casamento falhado e os problemas financeiros por ele originados passaram a ideia de que a atriz entrava na fase descendente da sua carreira. Mas embora já não estivesse tanto no centro das atenções, a verdade é que nunca parou de trabalhar, quer no teatro, com alguns espetáculos na Broadway e em Las Vegas, quer na televisão, com inúmeras participações em séries e telefilmes a partir dos anos 80.

Em 1992 a grande tela voltou a conhecer Reynolds, ainda que apenas num pequeno cameo em O Guarda-Costas. Só em 1996 voltou a ser cabeça de um elenco em Mãe, uma comédia ligeira que lhe valeu a sua última nomeação aos Globos de Ouro. Desde aí a atriz tem-se mantido discreta, com pequenas aparições em filmes e séries, enquanto alguns problemas financeiros continuam a assombrar a sua vida (já por diversas vezes teve que leiloar alguns objetos da sua coleção pessoal).

Embora tenha caído no esquecimento de muitos e a sua vida fora dos ecrãs tenhas sido o oposto dos coloridos e alegres musicais onde entrou, a marca que Debbie Reynolds deixou na 7.ª arte é indelével. O seu rosto é um dos maiores representantes da época de ouro da Hollywood dos anos 50 e o seu talento nas mais diversas áreas do entretenimento é assinalável. Não é por acaso que agora em 2015 irá receber na cerimónia dos Screen Actors Guild Awards o Prémio Carreira. E não é necessário dizer que é mais do que merecido.