No dia 7 de janeiro, Nuno Artur Silva estreou uma espécie de stand-up comedy, misturada com uma conferência, em que a banda sonora é um “fado vadio estraviado”. Nuno Artur Silva. A sério?  é um solo do apresentador do Eixo do Mal, com companhia de Dead Combo e do desenhador António Jorge Gonçalves. Mas afinal o que é isto? Nuno Artur Silva explicou ao Espalha-Factos.

Espalha – Factos (EF): Como surgiu a ideia de fazer este espetáculo?

Nuno Artur Silva (NAS): Eu já tinha esta ideia há algum tempo. Recebi um convite no verão para fazer uma escolha de comediantes para o Humour Fest, portanto, para fazer uma programação de uma noite. A minha resposta para o Nóbrega, que é o diretor do festival, foi: “não me apetece escolher, vou propor um solo”.  Ele ouviu e disse: “A Sério?” Eu disse: “este pode ser o título.” Depois pensei, vou fazer isto, mas não vou fazer sozinho. Desafiei o meu amigo e parceiro de muitos anos, António Jorge, que é meu parceiro de desenho. Ele aceitou e entusiasmou-se. Depois faltava uma parte musical e convidei os Dead Combo e eles aceitaram imediatamente.

“Eu não sou um comediante, nem um ator.”

EF: Que tipo de stand – up comedy é esta?

NAS: Eu não sou um comediante, nem um ator. Portanto, o que eu estou aqui a fazer é uma espécie de prolongamento da minha atividade de escrita. Eu sou um autor. É como se fosse uma performance daquilo que escrevo. Tem o registo de stand – up comedy, mas também é um monólogo e uma espécie de conferência.

EF: Deixa ao público a missão de descobrir o que é este espetáculo?

NAS: Sim, porque isto joga com estes registos e depois ainda tem o desenho em tempo real e o desenho digital, que é como se fosse o que me vai pela cabeça, na versão que o António Jorge vai fazendo.

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EF: O  que é que os Dead Combo acrescentam?

NAS: Para já, são ótimos músicos e as músicas deles são excelentes. Para além disso, acrescentam, do ponto de vista gráfico e visual, aquele contraponto. Eu de certa maneira, digo isto no espetáculo, uma coisa destas é como se fosse um outro lado do fado. É fazer humor. É um bocadinho estar do outro lado a cantar o fado. Eles são os meus acompanhantes à viola e à guitarra elétrica.

EF: Dos vários temas do espetáculo, uma das intenções é também criticar e ironizar a situação atual do país?

NAS: O espetáculo está dividido em sete partes. Umas que são mais focadas em mim e no que eu tanto faço. Mas também vou falando do país, do que é isto de viver a fazer humor, ser artista de variedades e porque é que as pessoas conversam umas com as outras. Portanto, falo também do estado do país e da crise, mas menos. Isto é, o tema do espetáculo não é tanto a situação do país, é mais a situação da minha atividade, do trabalho, das pessoas desta área da televisão e das artes.

“Tem um lado meu que não esgota aquilo que eu sou.”

EF: Quer dizer que há muito de Nuno Artur Silva no espetáculo?

NAS: Sim, há. É um espetáculo pessoal, mas também um dos chapéus. Cada pessoa não é só uma coisa, é normalmente várias coisas. Tem um lado meu que não esgota aquilo que eu sou. É apenas uma das áreas do trabalho em que eu brinco comigo próprio.

EF: Relativamente com os outros artistas, como tem corrido o trabalho em conjunto?

NAS: Tem corrido bem. Com o António Jorge Gonçalves eu trabalho há mais de 20 anos. Já fizemos banda desenhada e teatro. Temos uma colaboração muito antiga e somos muito amigos. Por isso só pode correr bem. Com os Dead Combo nunca tinha trabalhado diretamente, só uma coisa ou outra pontual, mas está a correr muito bem também. É como se nós fossemos um quarteto de jazz, digamos assim. Temos um tema e falamos todas as noites à volta deste tema.

EF: Quer dizer que tem existido uma boa conjugação das várias artes?

NAS: Boa, muito boa. É um prazer estar ali todas as noites com eles.

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EF: Qual é o seu maior desafio no espetáculo?

NAS: O maior desafio é mesmo estar ali com o público à frente e ter de recorrer a recursos que eu sou relativamente limitado. Ou seja, eu não sou um ator, não sou um comediante. Portanto o maior desafio é conseguir passar o texto usando técnicas de representação, sem ser um ator.

Socorro-me de ter dado aulas durante muitos anos, de dar conferências regularmente, de apresentar programas de televisão. Digamos que vou buscar essas técnicas de representação, embora não sejam técnicas de ator.

EF: Quer dizer que esta é também a principal diferença entre os trabalhos que tem feito como argumentista e apresentador na televisão, e agora no teatro?

NAS: Claro, porque eu nos últimos 20 anos, a grande maioria das coisas que eu tenho feito é nos bastidores. Ou sou produtor, ou sou coordenador, ou sou agente, ou sou empresário ou apresentador do que os outros vão fazer. É raro quando sou eu a dar a cara diretamente, e é o que acontece aqui.

“As salas estão já esgotadas e obrigou-nos a marcar mais uma temporada de seis espetáculos.”

EF: Os espetáculos que já se realizaram têm corrido bem?

NAS: Têm corrido muito bem. Para nós foi uma surpresa absoluta. Os espetáculos esgotaram depressa. As salas estão já esgotadas e obrigou-nos a marcar mais uma temporada de 6 espetáculos.

EF: Esses espetáculos vão-se realizar quando?

NAS: Vão-se realizar na primeira semana de fevereiro. A partir de terça, dia 3 e até domingo dia 8.

EF: Como este espetáculo tem corrido bem, podemos esperar mais espetáculos deste género?

NAS: Não faço ideia. Para já não, até porque nós todos temos outras coisas para fazer. Eles têm agendas como músicos , o Jorge como desenhador e eu tenho outras coisas também. Eu acho que por agora, terminaremos esta temporada dia 8 de fevereiro.

Fotografias de José Frade