A man holds a placard which reads "I am Charlie" to pay tribute during a gathering at the Place de la Republique in Paris

“Somos todos Charlie”. Somos?

“Ontem morreram pessoas por acreditarem na liberdade. Na liberdade de imprensa. Morreram por ela. De pé. Como deve ser”. A citação foi tirada da primeira página do jornal i, que, tal como muitas outras publicações de renome em Portugal – e além-fronteiras -, expressaram solidariedade ao mesmo tempo que informavam todos os seus leitores em relação às 12 vítimas no caso Charlie Hebdo. Vítimas de um extremismo que só gosta de ver o mundo com os seus próprios olhos e procura chacinar quem pensa diferente.

Somos todos Charlie: este foi o lema traduzido em dezenas de línguas e repetido milhões de vezes nas últimas horas. Um lema que procura dar voz aos que já não a têm, isto porque decidiram a usar a sua enquanto viviam de pé, e não de joelhos. Em suma, enquanto praticavam a liberdade de expressão, que ontem ficou gravemente lesada, não só em França, mas um pouco por todo o mundo.

Ser jornalista é retratar a verdade, é procurar histórias, é contar os factos e “publicar aquilo que alguém não quer que se publique, pois tudo o resto é publicidade”, como dizia George Orwell. Mas ontem, a verdade matou, a liberdade feriu e uma cidade ficou em pânico devido a dois indivíduos com a cobardia tapada por máscaras que procuravam vingar o seu deus.

O Espalha-Factos é um órgão de comunicação com mais de nove anos de história e que cujos conteúdos, produzidos com o maior rigor e profissionalismo que nos é possível, são redigidos na sua maioria por estudantes. Estudantes da área da comunicação que esperam, um dia, poder vir a exercer as mesmas funções que exerciam algumas das vítimas do Charlie Hebdo.

Por isso, a equipa condena profundamente os atos ontem cometidos em Paris e mostra total solidariedade para com os amigos e familiares das vítimas, mas acima de tudo, mostra solidariedade para com a liberdade de expressão, que passa hoje por um dos momentos mais críticos dos últimos tempos.

O medo não pode dominar quando as nossas canetas se aproximam do papel, quando chega a altura de assinar um texto ou de dar a cara por uma história em que se acredita, porque quando se tenta quebrar um lápis, depressa nos apercebemos de que ficamos com dois na mão.

O mundo reagiu perante o acontecimento, mas a distância entre querer mudanças e estar disposto a mudanças é enorme. Não podemos apenas bater palmas sempre que alguém se chega à frente e reclamar justiça quando essa pessoa é empurrada para trás. Ou morta a tiro. Muitas pessoas disseram ontem ser o Charlie, mas elas não querem ser o Charlie. Ser o Charlie dá trabalho, é arriscado. Ser o Charlie, infelizmente, foi ontem letal.

José Morais
Diretor do Espalha-Factos

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