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Crime – A confirmação de todas as expectativas

O filme Crime, uma obra influenciada pelos acontecimentos da morte macabra de Carlos Castro, teve a sua antestreia na Cinemateca Portuguesa ontem, dia 7 de janeiro. O Espalha-Factos compareceu neste evento, em que também participaram os principais responsáveis pelo projeto: o realizador Rui Filipe Torres bem como os seus dois protagonistas, João D´Ávila e Rúben Garcia.

Rui Filipe Torres foi precisamente quem introduziu Crime perante um auditório praticamente lotado de espectadores curiosos. Entre apresentações e agradecimentos, o realizador destacou as dificuldades passadas nas filmagens e na produção e os desafios de trabalhar em cinema independente com uma mini-equipa durante apenas nove noites. Talvez essa indisponibilidade de recursos tenha levado o cineasta a afirmar que “este era um filme com um âmbito académico, que se acabou por tornar num pouco mais que isso”.

Apesar do seu ponto de partida serem factos verídicos, neste Crime as identidades e outros pormenores são trocados, para revelar uma realidade de um filme que, segundo o seu autor, pretende refletir sobre as questões das emoções, do poder e dos preconceitos em torno das identidades sexuais. Para João D´Àvila, ator principal e criador da peça que inspirou o argumento, o filme trata da dualidade entre o bem e o mal, assim como dos constantes conflitos que passam por ela e pelo próprio Homem.

Para os espectadores mais desligados do mediatismo em torno da película, esperava-se um filme sério que se procuraria libertar da polémica gerada pela tragédia original, para refletir as qualidades e especificidades do cinema. O que possivelmente os seus autores desconheciam ainda  é que as pretensões idílicas e poéticas a que Crime queria estar associado são altamente infundadas para um caso como foi o da morte de Carlos Castro, e da forma como este acabou por ser concebido pela opinião pública.

Pretendendo não se aproximar totalmente da sua fonte de origem, o filme debruça-se sobre a história de António, cronista do mundo social, e Rodrigo, o seu amante e modelo, antecipando a sua partida para Nova Iorque. Rui Filipe Torres começa então a distanciar-se imediatamente da própria peça de teatro que originou o argumento, intitulada precisamente de Crime em New York. Mas localizar o homicídio em Portugal, num hotel que pouco ou nada tem de hotel, é o menor dos males da fita.

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Antes do início da sessão, João D´Ávila tinha informado que a sua peça tinha começado por ser uma comédia que rapidamente tinha tomado as proporções de uma tragédia. Através das imagens de Crime, denotamos a intenção de criar momentos de tensão inesperados, a partir de situações essencialmente cómicas. A grande surpresa é a de que esses mesmos momentos são os responsáveis pelas maiores gargalhadas do público, que nem as consegue conter nos momentos de maior esforço por parte dos atores em transmitir o dramatismo que consideram necessário às suas interpretações.

O que acaba por ser o ponto mais interessante do filme é, porém, a interpretação de João D´Àvila enquanto António. De facto, o seu trabalho acaba por não ser ridículo ao ponto de apresentar os contrastes exagerados de Rúben Garcia mas, ainda assim, não está nem perto de conseguir salvar o filme do abismo de que tanto gosta de falar. O ator acaba portanto por nos apresentar um personagem minimamente consistente, de um homossexual convicto e liberal, excessivo nos seus tiques e gestos. Apesar do seu esforço, a ideia que sobressai no filme é a da presença de um personagem concreto em circunstâncias erradas e bizarras o que torna toda a experiência ainda mais confusa.

O experimentalismo é a característica que com mais facilidade sobressai das imagens de Crime. Mas ainda assim este não pode justificar a quantidade de falhas cometidas pelo mesmo. As mais evidentes correspondem às mudanças de luz absolutamente disparatadas, à montagem dos planos que revela inexperiência e um sentido estético invulgar e desproporcionado. De facto, muitas vezes as técnicas utilizadas por Rui Filipe Torres implicam mudar o tamanho do enquadramento e das cores das imagens de forma psicadélica e desconexa, tal como atribuir intervalos aleatórios com uma música sinistra às diferentes cenas que pretendem estabelecer uma espécie de ordem temporal e de mensagem simbólica, mas que só contribuem para mais umas quantas gargalhadas pela parte do público.

A este tipo de incongruências técnicas poderíamos adicionar o desmazelo na rodagem de algumas cenas e pormenores: a cena em que podemos observar na parede do quarto a sombra da perche utilizada e até mesmo os créditos que estão mal alinhados e utilizam um tipo de letra pouco recomendável. O descabimento do clímax da narrativa é também de destacar por ser mal preparado pela espécie de revolta e monólogo de Rodrigo (Rúben Garcia) e caracterizado pela forma arcaica como todo o ato de violência é apresentado.

No final, temos um filme pobre e bizarro cuja intenção não passa, porém, completamente despercebida. Desta forma, acredito que Crime possa ser um desses objetos de culto que se destaque pelo ridículo que é a sua situação, seja pelo contexto pelo qual se foi apropriar como de toda a sua execução. Rui Filipe Torres deu-se ao trabalho de adicionar legendas em inglês pelo que o mundo do Youtube e das redes sociais tem aqui mais um exemplo para se divertir e discutir. O melhor talvez seria que o realizador tivesse mantido as suas pretensões de criar um objeto meramente académico. Infelizmente ou não para si, creio que este seu filme não se vai tornar em muito mais que isso.

De qualquer das maneiras, Crime tem estreia prevista nas salas de cinema portuguesas no final deste mês.

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