Cyrano de Bergerac: a beleza discute-se em palco

Uma das personagens mais nobres da história do drama vai subir ao palco do Teatro Nacional D. Maria II, de 8 de janeiro a 1 de março. Ele é Cyrano de Bergerac: culto, um exímio esgrimista e um poeta notável que vive assombrado pelo seu gigantesco nariz. Nesta peça, a aparência e o intelecto confrontam-se pela conquista do verdadeiro amor.

Tudo em palco é conservado com o objetivo de sublimar a peça original. Já tantas vezes representada, desde o século XIX, quando Edmond Rostand decide reativar o escritor Cyrano de Bergerac numa peça ultra-romântica.

Os cenários refletem Paris no século XVII vivida pelas classes mais poderosas. O teatro, a pastelaria, o convento e a moradia nobre são ambientes que circulam na peça. Em todos os espaços surge uma personalidade ímpar, Cyrano (Diogo Infante). As suas palavras são penetrantes. A fluidez e a beleza do discurso marcam a personalidade de Cyrano. Ao longo da história, o seu nariz é motivo de gozo, mas Cyrano sobrevive aos insultos através da ironia.

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A ironia é apenas uma máscara para a sua baixa auto-estima. No fundo, Cyrano ama a bela Roxanne (Sara Carinhas) e não se expressa por se considerar feio. Roxanne confessa-lhe que ama outro homem, e Cyrano ama-a de tal forma que ajuda o outro homem, Christian (João Jesus).

Cyrano é a alma expressa nos poemas enviados e Christian o corpo que Roxanne pensa amar. Esta dicotomia torna-se tão forte que torna o amor entre Roxanne e qualquer um dos seus pretendentes impossível.

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Como qualquer grande obra, existem também referências históricas. As lutas religiosas entre franceses e espanhóis no século XVII estão presentes num cenário de guerra, sem esquecer a história de amor entre Roxanne, Christian e Cyrano.

A forma de expressão da dicotomia sensível/ físico é dos ingredientes – chave da peça e aquele que salta para o século XXI. De que forma pode viver a beleza das palavras confrontada com a beleza do corpo? O desafio é colocado ao espetador e a resolução não está apenas em palco, é direcionada para o público.

Outro ponto forte da peça é o texto. As várias mudanças de cena e o elenco numeroso não fazem esquecer as palavras em palco. Como referiu um dos protagonistas, Virgílio Castelo, sobre a encenação de João Mota, “a ideia do João é fazer um tipo de encenação onde o texto fosse o elemento principal.” O texto, de facto, salta para a plateia, é sonoro, dinâmico e acessível. A tradução é de Nuno Júdice, que se apaixonou pelo texto de Rostand e em menos de um mês transformou o francês em português.

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O espetador vai poder assistir a uma peça clássica com interpretações desafiantes. O principal desafio é o de Diogo Infante, que confessa: “é um desafio maravilhoso. Qualquer ator como eu, que goste do texto, da palavra e dos clássicos é uma prenda e um papel de sonho”. A vontade de interpretar esta personagem já é antiga. Há 3 anos quando dirigia o Teatro Nacional havia a intenção de fazer uma co-produção com a Comuna Teatro de Pesquisa, que comemorava  40 anos na altura.

Só agora surge neste papel, mas nunca é tarde, para se interpretar como peça como esta: “A beleza faz sempre sentido. Por outro lado, numa época em que vivemos tanto da aparência, passarmos a ideia que não devemos julgar os outros pela aparência, é uma ótima moral.”

O ator não esconde a dificuldade da personagem: “Todo o papel é difícil, mas eu abracei-o com tal amor, porque queria mesmo fazer isto.” O nariz que utiliza altera-lhe a voz e a visão ao longo da peça, mas o ator admite que tirou partido dessas mudanças.

O elenco de protagonistas, além de Virgílio Castelo e Diogo Infante, tem uma cara nova. O protagonista do filme Os Gatos não têm vertigens, João Jesus, estrea-se neste palco. O apreço que tem pelo restante elenco e pelo encenador João Mota, tornam esta experiência muito “gratificante” para o ator. Sara Carinhas é Roxanne e foi a única opção de Diogo Infante e João Mota para esta personagem.

A passagem de Cyrano de Bergerac pelo Teatro D. Maria II não deixará ninguém indiferente. Uma grande história, um bom texto e uma personalidade assoladora. Por detrás do rosto, está um génio, que nas palavras de Diogo Infante: “Toca-nos no coração, toca-nos na alma.”