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5 grandes filmes que não triunfaram nos Oscars

“A rubrica 5, iniciada em Fevereiro de 2014, pretende trazer aos leitores cinco factos cinematográficos de quinze em quinze dias. O tema varia em todos os artigos e a abrangência do mesmo é quase inesgotável.

As nomeações para a próxima edição dos Oscars estão quase a ser reveladas (será no próximo dia 15 que tal anúncio irá acontecer). E por isso, nesta edição da Rubrica 5 vamos olhar para esses prémios, atribuídos por uma Academia que tem tanto de certeira (ao atribuir aos dois primeiros filmes de O Padrinho e a O Caçador a estatueta de Melhor Filme, por exemplo) como de falível (quem ainda se lembra que Colisão e Laços de Ternura ganharam nos seus anos respetivos?), de uma forma diferente.

Com o objetivo de tentar fazer com que as poucas alminhas deste mundo, que ainda acreditam que os Oscars são um indício totalmente credível de qualidade cinematográfica, percebam que isso não passa de uma ilusão, criámos uma lista com uma mão cheia de grandes filmes, de realizadores geniais, que não conseguiram arrecadar o Oscar principal – ou que nem sequer foram nomeados no seu ano de lançamento.

Não serão aqui incluídos os casos mais óbvios, que se tornaram imortais pela adoração que ganharam em várias listas especializadas de cinefilia (falamos de filmes como O Mundo a Seus Pés, Vertigo e 2001: Odisseia no Espaço). E a seleção pode ser subjetiva, mas o impacto de cada uma destas obras na História do cinema é inevitavelmente arrasadora – e, ao contrário de muitos vencedores dos prémios da Academia, não ficaram esquecidos e perdidos no tempo.

1. – Peço a Palavra (Mr. Smith Goes to Washington) [1939]

James Stewart

Como é que um filme como este, realizado por um indivíduo de alto prestígio em Hollywood (foi o primeiro que conseguiu ter o seu nome acima do título dos seus filmes – algo que originou o nome da sua autobiografia, O Nome Acima do Título) e que venceu, em anos anteriores, os prémios principais (com filmes como Não o Levarás Contigo e Uma Noite Aconteceu), passou ao lado dos prémios da Academia? De facto, não foi bem assim: o filme até foi nomeado para 11 Oscars, mas arrecadou apenas o de Melhor Argumento Original.

E a concorrência nesse ano era forte: estavam nomeados também E Tudo o Vento Levou (que foi o grande vencedor da noite), e ainda Ninotchka, de Ernst Lubitsch, e Cavalgada Heróica, de John Ford. Talvez essa é uma das principais razões que explicam como este drama social de Capra não foi distinguido com mais nenhum prémio (e o de Melhor Ator, pelo qual estava nomeado o brilhante James Stewart, foi atribuído ao ator Robert Donat pelo seu desempenho em Adeus, Mr. Chips). Mas que merecia, disso hoje ninguém pode não ter dúvidas, porque a crítica burocrática de Capra só ganhou mais relevância com o passar do tempo.

Mas é nessa crítica que encontramos outra razão forte para a derrota do filme nos Oscars: a sua visão da política, e dos grandes interesses que a gerem, foi interpretada de uma forma negativa por uma América conservadora, que começava a disseminar um fanatismo anti-comunista que se iria alastrar nas décadas posteriores, e que iria culminar na “caça às bruxas” do McCarthyismo.

Apesar de receber o apoio do próprio presidente americano, Franklin D. Roosevelt (como conta Capra nas suas memórias), Peço a Palavra foi ostracizado e desprezado pelas elites intelectuais da época (mas conseguiu, ao menos, ser distinguido pelo seu formidável argumento). Talvez fosse inevitável que o esmagador êxito de E Tudo o Vento Levou o levasse a conquistar a própria Academia. Hoje, esse épico sulista,que mantém um enorme culto, pode parecer datado na sua narrativa e nas suas personagens… e com o filme de Frank Capra, isso não acontece – porque aliás, Peço a Palavra é assustadoramente credível nos nossos dias.

2. – O Grande Ditador (The Great Dictator) [1940]

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São óbvias as razões políticas para o “esquecimento” da Academia para este filme, tão corajoso, de Charles Chaplin. E é de coragem que falamos quando se pensa em O Grande Ditador, porque foi uma sátira implacável ao nazismo feita durante a II Guerra Mundial, e que terminava num arrebatador discurso que tentava dar esperança a um mundo dominado pelo ódio, pelas armas e pela destruição em massa.

Chaplin já começava a ser mal visto pelos seus pares, numa tendência que começara a crescer com o seu filme anterior, Tempos Modernos – também ele um filme fortemente satírico e político, que apontou a industrialização e o fordismo como os seus principais alvos. Mas O Grande Ditador seria um ponto fulcral na rutura de relações entre o artista e o país que o deu a conhecer ao mundo, e que o tornou numa estrela conhecida em todos os cantos do planeta. E para os estúdios norte-americanos, que não queriam tomar, ainda, nenhuma posição quanto à guerra, a comédia arriscada de Chaplin não foi lá muito bem aceite.

Ficaram 5 nomeações para os registos da Academia, e nenhum prémio atribuído ao cineasta. Mas ao longo dos anos, começou a dar-se o devido valor a este filme, e ao apelo à paz que Chaplin fala no seu discurso final (que se tornou num dos mais conhecidos e citados do mundo contemporâneo). Nos Oscars daquele ano, venceu Rebecca, de Alfred Hitchcock. É um outro grande filme, de um outro grande realizador… mas a marca deixada por Chaplin, e o risco que ele tomou ao fazer-nos rir com coisas demasiado sérias, ainda não conseguiram ser ultrapassados.

3. – O Grande Carnaval (Ace in the Hole) [1951]

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Billy Wilder foi outro grande realizador que soube estar, durante muito tempo, entre as graças do público e da crítica. Assinalou vários sucessos de bilheteira, e que receberam fortes elogios da Academia (como os imperdíveis Crepúsculo dos Deuses, Farrapo Humano e O Apartamento – estes dois últimos foram vencedores do Oscar de Melhor Filme). Mas há sempre exceções, e no período de mais intenso trabalho do realizador, houve um dos seus filmes que, apesar de ser uma incrível peça de cinema, foi completamente desprezada.

E esse filme foi O Grande Carnaval, um drama feroz sobre os media, com uma grandiosa interpretação de Kirk Douglas, numa história povoada o habitual sarcasmo característico do realizador. Teve apenas uma única nomeação, de Melhor Argumento Original, e perdeu-a para Um Americano em Paris, o musical que foi o grande vencedor desse ano.

O Grande Carnaval foi um autêntico flop da época (o primeiro na carreira do realizador), e foi criticado pela sua visão extremamente negativa das notícias, acentuando o sensacionalismo utilizado pela maioria dos jornais, que colocou em risco a reputação que Billy Wilder conseguiu ganhar até então. Um filme mal amado no seu tempo, que tem sido revisto e apreciado, de outra maneira, pelas gerações posteriores. E hoje, é impossível não considerar este como um dos melhores filmes de Wilder, em que todas as peças se conjugam numa harmonia poderosa e insólita.

4. – Era Uma Vez na América (Once Upon a Time in America) [1984]

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O canto de cisne de Sergio Leone é provavelmente o caso mais “chocante” desta lista. Não recebeu sequer uma nomeação por parte da Academia. “Nem pela genial banda sonora de Ennio Morricone?”, perguntarão alguns, surpreendidos. Não, nem Morricone recebeu os aplausos dos Oscars. O que se passou foi isto: o filme foi lançado, na Europa, na versão original do realizador, estreada em Cannes, e que recebeu nesse festival uma ovação de pé por parte do público. Leone foi aclamado por toda a crítica deste lado do Atlântico, e hoje, Era Uma Vez na América é considerado uma das grandes obras primas do cinema.

Mas nos EUA, foi lançada outra versão, mais curta que a original, elaborada a pedido de distribuidores sedentos de dinheiro. A essa versão (que foi montada pelo mesmo senhor responsável pelos filmes da série… Academia de Polícia) foi retirada a música e a desordem cronológica construída por Leone, e foi ainda alterado o final. Esse cut foi distribuído nos EUA, tornando-se num retumbante desastre financeiro e recebendo generalizadas apreciações negativas dos críticos que tinham visto o filme “verdadeiro” antes.

Hoje essa versão retalhada é muito difícil de encontrar, mas como conta o ator James Woods, um crítico da época viu-a e escolheu-a como o pior filme desse ano… e mais tarde, viu a versão original de Era Uma Vez na América e selecionou-o como o melhor filme dos anos 80. Por causa desse falhado esquema imposto por Hollywood, o filme passou ao lado da Academia, um “crime” que ainda hoje continua a atacar a reputação dos Oscars.

5. – Gran Torino [2008]

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Terminamos esta seleção com um filme mais recente e, também, mais discutível – por não ter passado ainda pelo teste do tempo, como os outros quatro títulos aqui mencionados anteriormente. Mas é impossível ficar-se indiferente à interpretação de Clint Eastwood, nesta que foi a sua última obra prima, até agora – e por isso, não deixa de ser escandaloso pensar que a Academia conseguiu esquecer este filme e, acima de tudo, este excecional desempenho nas suas nomeações.

Gran Torino é uma história sobre amizade e racismo, em que um veterano da Guerra da Coreia começa a ver o seu bairro a ser habitado por imigrantes do Sudeste Asiático. Começa por não tolerar e desprezar, com repugnância, a sua presença, mas a pouco e pouco, começa a integrar-se no seu mundo, e a lidar com as diferenças que se demonstram entre os grupos e gangs em que se enquadram os seus vizinhos.

Parece ser uma banal história de redenção, de envelhecimento e de amor como tantas outras, mas não é nada disso, porque acaba por ser um filme que liga as relações humanas a uma densidade cinematográfica cativante – e daí, a lenda do cinema poderia ter terminado, em beleza, a sua carreira com este glorioso desfecho (mas felizmente – ou infelizmente, depende da perspetiva – ele não tem intenções de querer parar), porque Gran Torino fala, com simplicidade e humanidade, do conflito de gerações, da forma como os mais velhos influenciam os mais novos – e acentua, claro está, o estilo cool e inimitável de Clint Eastwood. Aqui entre nós, que ninguém nos ouve, esta é um das maiores injustiças cometidas pelos Oscars no século XXI.

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