Hollywood, tens cá disto? promete trazer, mensalmente, até nós aquilo que só Portugal nos dá: o Cinema Português. Não que de Hollywood não cheguem muitos títulos de qualidade, mas de Portugal, ao longo das décadas, têm sido muitos os grandes filmes de que pouco se fala. Esta é a rubrica certa para se falar deles.

No mês em que (finalmente) se estreou em Portugal o último filme de Pedro Costa, o enigmático Cavalo Dinheiro (que foi antes aclamado em vários festivais internacionais), vale a pena recordar a primeira das suas obras, que é a mais conhecida entre todas as que compõem a sua filmografia. Além de ter lançado rapidamente o cineasta para o pódio dos grandes nomes do cinema contemporâneo, O Sangue é um filme que sobreviveu à passagem do tempo, e que hoje, está melhor do que nunca.

Antes dos retratos sociais do Bairro das Fontainhas e das deambulações de Ventura pelo horror e a tragédia da condição humana, Pedro Costa filmou esta história dramática inesquecível, sobre medos, angústias e dúvidas, provocadas por uma série de relações sociais mais ou menos desiguais, e que envolvem dois irmãos, Vicente (Pedro Hestnes) e Nino (Nuno Ferreira), o obscuro meio em que estão inseridos, um pai que nunca está presente na vida dos filhos (Canto e Castro), uma assistente social, chamada Clara (Inês de Medeiros), que se apaixona por Vicente… e a sociedade portuguesa, bem como todos os males que a constituem.

É um marco do cinema português pelo brilhantismo da sua execução, centrada numa narrativa pouco óbvia, com incríveis interpretações de todo o elenco e um sentido cinéfilo e visual apurado – é um primor que Costa tem desenvolvido de filme para filme, mas que em O Sangue tem uma dimensão muito especial e que o distingue, não só pelo uso de um forte e intenso preto e branco, como também no contraste criado pelos cenários, pela iluminação, e pelos elementos decorativos que são tratados como se fossem parte de um misterioso e provocante film-noir.

E lembrámos bem o dito “cinema negro”. Como escreveu o eterno João Bénard da Costa na sua fenomenal análise ao filme (impedir que o citasse neste texto seria uma pura heresia), é um filme de escuridão, mas de uma escuridão propícia ao medo, à opressão e ao fim da inocência, algo característico de muitos clássicos noir. E Bénard da Costa fala de A Sombra do Caçador, La Nuit du Carrefour e Estrelas da Minha Coroa, mas nós acrescentamos ainda (e partindo de um outro ponto de vista) O Grande Carnaval, de Billy Wilder, e Quando a Cidade Dorme, de John Huston – mesmo que a “inocência” retratada nestes dois filmes não recorra a memórias infantis, como nos outros e no próprio O Sangue, é interessante reparar na forma como as personagens são postas em cheque pelo destino que elas próprias construíram, destino esse que as transforma em meras “crianças” (no sentido de fragilidade do termo) em confronto com um mundo cruel e do qual é impossível escapar.

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Assim, o filme mostra o lado negro da noite – passe-se a (propositada) redundância -, já que “é em noites destas que há sonhos e pesadelos e vem lá o lobo mau“, e porque é em noites destas, que ultrapassam o significado da noite e da escuridão neutral, natural e corriqueira que só vemos no mundo real (e não nas fitas) que o bem e o mal se unem e que tomam dimensões tão parecidas que se torna difícil distingui-los, e saber qual deles é que devemos combater. O Sangue joga com isso e com muito mais, apoiando-se na dicotomia entre o trio unido de jovens protagonistas e a prisão imposta pelos vários adultos com quem se cruzam para dar, ao espectador, um vislumbre fenomenal sobre as “feras humanas” da vulgaridade urbana.

Faça de mim o que quiser” é a primeira linha de diálogo do filme, proferida pelo protagonista num confronto silencioso com o seu malogrado pai. A manipulação começa desde o início, tal como a brutalidade das imagens e das situações. E a fita está povoada com um número escasso, mas preciso e intencional, de palavras e frases pronunciadas pelo conjunto invulgar de personagens que compõem esta história. Mas a justificação dos seus gestos e das suas atitudes encontra-se aí, nessas conversas curtas, mas incisivas, e que encerram em si mesmas um conjunto magnífico de simbolismos e de segundas intenções (e de consequências – veja-se o que acontece exatamente depois de Vicente dirigir a palavra ao progenitor).

Esta dança de máscaras, hipocrisias e desejos (pessoais, carnais, existenciais), revelam não só uma panóplia de ambiguidades (que são fruto dos “pesadelos” da noite, que criam ainda mais dúvidas) em cada figura humana que habita o espaço cénico criado por Costa (e que tanto tem, na sua génese psicológica, de genuinamente português como de autenticamente universal), como também expõem os fantasmas que as atormentam, dia e noite, numa existência sem aparente rumo, solução ou saída.

E aí chegamos ao ponto fulcral: a realidade de O Sangue é totalmente fantasmagórica, aprisionada em si mesma devido ao desespero dos elementos que a compõem – uma espécie de modus operandi comum a todos os filmes que se seguiram (e que está particularmente acentuada em Cavalo Dinheiro, com a turbulência surreal e social que Ventura sente, mais os outros que o rodeiam). Mas quando o “lobo mau” chega, a réstia de salvação que ainda permanecia desaparece… e o desencantamento torna-se total. As crianças perderam a criancice, e os adolescentes já não sabem (se calhar, nunca souberam) o que é isso da adolescência.

O Sangue é, por isso, um filme desiludido com a ilusão do mundo, e uma obra indispensável e fundamental do cinema português, provavelmente, por tudo o que não pode ser dito, um “je ne sais quoi” que se tentou aqui passar para a escrita, mas que se revela uma tarefa impossível, porque o objeto de estudo é tão profundo e denso que revela-se impossível falar da melhor forma sobre ele (e apenas poucos, como Bénard, conseguiram fazê-lo). Por isso, cabe a vocês, leitores, descobrir o filme com o vosso olhar – e esperamos que, a partir dele, consigam entrar no mundo multidimensional de um dos cineastas portugueses mais internacionais da atualidade.

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Ficha Técnica:

Realizador: Pedro Costa

Argumento: Pedro Costa

Elenco: Pedro HestnesNuno Ferreira, Inês de Medeiros, Canto e Castro, Luís Miguel Cintra

Duração: 95 minutos

Nota: 9/10