A presente edição do Boca de Cena relembra uma atriz que já abandonou os palcos, mas que continua a ser uma referência no meio artístico português. Além de ter integrado as grandes companhias de teatro nacionais, é reconhecida pela sua voz nos teatros radiofónicos e pelas personagens emblemáticas em vários filmes portugueses. A atriz escolhida esta semana é Carmen Dolores.

Eu fui assim uma filha que veio tarde, quando já ninguém esperava.” É desta forma que Carmen Dolores descreve o seu aparecimento a 22 de abril de 1924, em Lisboa. Desde muito nova que se lembrava de ir ao teatro. O seu pai era jornalista e crítico de teatro, por isso tinha sempre um camarote reservado no Teatro Nacional e a sua família acompanhava-o.

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Dos três irmãos, Carmen era a única que não tencionava seguir uma carreira como atriz. Na altura, essa profissão era considerada pouco digna para uma menina que tinha estudado no liceu. Mas o destino inverteu as suas intenções e Carmen foi a única que acabou por se tornar atriz.

Em 1938, no início da rádio, quando se requisitavam colaboradores, Carmen participou num programa do seu irmão, António Sarmento. Ele cantava, pois tinha uma boa voz de tenor e a sua cunhada tocava piano. A função de Carmen era bem diferente, recitava poesia. Começou com livros que tinha em casa e, a partir daí, nunca mais parou. Trabalhou em programas infantis na Renascença e no Rádio Clube Português. Na Emissora Nacional, recitou poesia, onde se destacou Tempo de Poesia, com Carlos Queirós.

Nunca estudou no Conservatório. Algo que na altura era impensável para quem quisesse seguir uma carreira como atriz. Ainda hoje, Carmen Dolores admite ser a única injustiça na sua carreira. Apenas tirou pequenos cursos e leu muito. Até aprendeu a dar gargalhadas para uma peça através de uns livros franceses que estava a ler.

Mas nem o facto de não ser estudante do Conservatório a impediu de participar numa audição de uma companhia destinada a estudantes, em que o presidente do júri era António Lopes Ribeiro. Nessa audição, leu um poema e lembrava-se na perfeição da primeira reação de António Lopes Ribeiro: “Que bonito nome de cartaz.”

Dias mais tarde, foi convidada pelo cineasta para participar no filme Amor de Perdição. A sua primeira reação não foi positiva: não queria fazer cinema. Primeiro, porque estava habituada ao anonimato que a rádio proporcionava. Os ouvintes conheciam a voz, mas não reconheciam a atriz. O outro motivo era o facto de estar mais habituada ao teatro. Mas o entusiasmo transmitido pelo irmãos, declarados fãs de cinema, serviram de motivação para que aceitasse o convite. Ainda hoje é conhecida como Teresa de Albuquerque na adaptação de 1943 do clássico da Literatura.

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Em 1945, integra o elenco de A Vizinha do Lado de Lopes Ribeiro e de Um Homem às Direitas de Jorge Brum do Canto, onde acaba por vencer o prémio de melhor atriz de cinema. Ainda neste ano, começa a fazer parte da companhia de teatro Os Comediantes de Lisboa, no Teatro da Trindade, onde representa pela primeira vez uma peça de teatro, nomeadamente Electra, a Mensageira dos Deuses, de Jean Giraudoux. Em 1946, grava Camões, de Jorge Leitão de Barros.

Carmen Dolores, em 1944, quando venceu o prémio de Melhor Atriz por 'Um Homem às Direitas.'

Carmen Dolores, em 1944, quando venceu o prémio de melhor atriz por ‘Um Homem às Direitas.’

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A Atriz em ‘Vizinha do Lado'(1945).

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Carmen Dolores com Rui Mendes no palco do Teatro Trindade.

Carmen Dolores com Rui Mendes no palco do Teatro Trindade.

Em 1951, passa para a Companhia Amélia Rey Colaço-Robles Monteiro, no Teatro Nacional, na qual permanece durante oito anos. Nesse período, interpreta peças como Frei Luís de Sousa, de Almeida Garrett. Em 1959, é destacada com o Prémio de Melhor Atriz na peça Seis personagens à procura de um autor, de Pirandello. Quando sai da companhia dirigida por Amélia Rey Colaço, participa em peças no Teatro de Sempre de Gino Saviotti e no Teatro Nacional Popular de Ribeirinho.

Carmen Dolores como Madalena na peça de Almeida Garrett, 'Frei Luís de Sousa'

Carmen Dolores como Madalena na peça de Almeida Garrett, ‘Frei Luís de Sousa’

É no início dos anos 60, que juntamente com Rogério Paulo, Fernando Gusmão e Armando Cortez, funda o teatro que agitou as artes cénicas durante a Ditadura e que ficou na história do teatro independente, o Teatro Moderno de Lisboa. Numa entrevista ao Jornal I, em 2013, Carmen Dolores descreveu os tempos complicados que viveu: “Cartas que recebíamos para cortar esta ou aquela peça. Ou tínhamos de adaptar certas coisas. Também na televisão. Lembro-me de fazer “Um Mês no Campo”, em que a protagonista era casada e se apaixonava por um rapazinho, que nem sequer se chegava a passar nada entre eles. E eles deram como exigência ela ser viúva, senão não se podia apaixonar pelo rapaz. E havia a parte política, muito mais grave e complicada. Lutámos o mais possível contra isso até que não conseguimos e acabámos. E tive uma experiência muito forte porque era a administradora da companhia e isso até me prejudicava artisticamente porque ia para a cena cheia de problemas” Mas também foi nesse teatro que se começou a construir um novo público mais jovem, os universitários.

'O Tinteiro', a primeira peça do Teatro Moderno de Lisboa, que Carmen Dolores ajudou a fundar.

‘O Tinteiro’, a primeira peça do Teatro Moderno de Lisboa, que Carmen Dolores ajudou a fundar.

As peças do Teatro Moderno eram sugestivas para uma nova geração que ansiava pela liberdade. Shakespeare, Goldoni, Gil Vicente, Molière, Dostoiewsky, Óscar Wilde, Pirandello, Dürrenmatt, Tennessee Williams, Beckett, Casona, Mihura, Alves Redol, Luiz Francisco Rebello, Arbuzov, Weingarten foram alguns dos autores que interpretou.

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Na peça 'Balanceada' de Samuel Beckett

Na peça ‘Balanceada’ de Samuel Beckett

Na década de 80, volta a trabalhar no cinema com José Fonseca e Costa, em A Mulher do Próximo e com Fonseca e Costa em A Balada da Praia dos Cães.

Durante a sua passagem pelos vários teatros, os prémios foram uma constante. Dos que já foram referidos, ainda se destaca o Prémio Nacional de Teatro e Prémio da Imprensa pela sua interpretação em A Dança da Morte de Strindberg, em 1969. Em 1984, a revista Eles e Elas atribuem-lhe o prémio pela sua interpretação em Comédia à Moda Antiga de Arbuzon. Em 1985, recebe o Prémio da Crítica em Virgínia (A Vida de Virgínia Wolf) de Edna O’Brian. Em 1998, a Casa da Imprensa distingue o seu trabalho em Jardim Zoológico de Cristal de Tennessee Williams, dirigida por Diogo Infante, no Teatro Nacional. Já em 2003, vence o Globo de Ouro como Melhor Atriz da peça Copenhaga de Michael Frayn. Mas foi em 2005 que viu o seu trabalho reconhecido pelo Presidente da República, com o grau de Grande Oficial da Ordem do Infante D. Henrique.

Carmen Dolores quando foi homenageada pelo Presidente da República.

Carmen Dolores quando foi homenageada pelo Presidente da República.

Contudo, como Carmen Dolores gosta de referir, a maior preocupação da sua carreira foi a “fuga aos rótulos”. Por isso, não gosta de ser considerada como um “monumento nacional”, como já lhe têm chamado. E admite que uma das suas características, ao longo da sua carreira, foram a timidez e a má gestão na aceitação das críticas. Se uma peça lhe tivesse corrido muito bem, não ficava tão feliz como podia ter ficado, se a crítica não tivesse sido tão satisfatória.

Em 2005, deixa os palcos com a peça Copenhaga. Pelo caminho deixa também muitos recitais de poesia e participações em teatros televisivos ou telenovelas, como a Passerelle, A Banqueira do Povo ou a Lenda da Garça.

A ligação aos seus admiradores é outra das suas características. Quando lhe escreviam e pediam fotografias, Carmen Dolores enviava sempre. Sobretudo porque via a satisfação que os seus irmãos sentiam quando os artistas de cinema lhes enviam fotografias autografadas. Então, até nos primeiros tempos de atriz, gastava alguns escudos para homenagear quem a seguia.

Desde a sua saída que tem recebido convites para fazer peças de teatro, tendo recusado todos. Diz que é muito cansativo. Agora quer tempo para si, para ler, para escrever e para parar com as preocupações e desgaste que o teatro provoca. Em 2013, publicou o livro No Palco das Memórias. Confessou que a nível literário não é o melhor, mas acaba por ser o relato da marca que deixa no teatro em Portugal.

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