O Rapaz de Olhos Azuis, de Joanne Harris, é um thriller recheado de desejo e mistérios, de amor e ódio. “Ela não sabe de nada, claro. Tem um ar muito inocente, com o seu casaco vermelho e o seu cesto. Mas por vezes os maus não se vestem de preto e por vezes uma menina perdida na floresta é bem capaz de fazer frente ao lobo mau”.

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A história é narrada através de entradas, num webjournal, publicadas por Albertine e blueyedboy, que demonstram desde o início ter um passado em comum: ela quer esquecê-lo, mas ele está decidido a reavivar cada chama do seu segredo obscuro. Nesta espécie de diário cibernético, com publicações públicas, mas também restritas, o leitor é confrontado com factos, ou talvez apenas ficção, que marcaram e mudaram a vida destas duas personagens. No entanto, é difícil distinguir a verdade da liberdade artística.

“A ficção é uma torre de vidro construída a partir de um milhão de pequenas verdades, grãos de areia fundidos em conjunto para fazer uma única, brilhante mentira.”

blueyedboy, ou Benjamim, é um quarentão que vive com a mãe, uma mulher manipuladora e agressiva, numa pequena vila, denominada Malbry. Existem outros dois irmãos: Nigel, o preto, e Brendan, o castanho, tal como foram catalogados para facilitar a vida doméstica. “Mas a minha mãe nunca compreendeu verdadeiramente o poder secreto das cores. (…) nunca se perguntou o que podia significar isso de usar a mesma cor dia após dia: um castanho desconsolado ou um preto soturno ou um azul lindo e inocente de conto de fadas.”

Para fugir à sua própria realidade, bastante aterradora, o protagonista, o irmão azul, refugia-se no mundo virtual, na comunidade badguysrock, demonstrando-nos a dimensão que um ser humano é capaz de assumir quando não está condicionado pelas regras sociais. E, se a princípio, estamos convencidos de que a personagem principal é realmente um assassino (ou um aspirante a) ou de que a história que nos conta acerca de Emily White e do seu destino é real, depressa percebemos que não sabemos quem é quem e de que, atrás de um ecrã, todos podemos ser, dizer e fazer o que quisermos. A revelação do lado negro da internet, envolto em crime, romance, humor negro e muitos jogos psicológicos.

Além de uma premissa bastante interessante, as personagens têm tudo para cativar a atenção do leitor, sobretudo Ben que sofre de um problema neurológico, a sinestesia, levando-o a associar cheiros e cores. O azul é a cor que predomina nesta história, estando associado ao crime e a sensações desagradáveis, mas também a música tem um papel de destaque na narrativa, através de Emily White, que fatalmente se atravessa no caminho de blueyedboy.

“os maus vêm num milhão de sabores diferentes. (…) E o azul é a cor do nosso clã, abrangendo todas as tonalidades da vilania, todos os sabores do desejo ímpio.”

Quanto a Albertine, a jovem é muito mais do que a capuchinho vermelho dos tempos modernos e a ligação misteriosa que mantêm com o anti herói revela-se, pouco a pouco, ao longo da narrativa. Contudo, engane-se o leitor se acha que ficará a perceber um chavelho assim que chegar ao fim: a revolta é apoteótica e mói o estomâgo, mas é deliciosamente surpreendente e, depois de uma digestão bem feita, a obra deixa um travo doce (pelo menos para quem gosta de desafios).

O Rapaz dos Olhos Azuis é um livro muito mais negro do que é habitual em Joanne Harries, tendo gerado imensa controvérsia, mas é precisamente essa diferença e também a atualidade da temática que o distingue. Mais do que o narrar da vida de um aficcionado por homícidios é também o retratar de uma sociedade que constrói máscaras para se sentir protegida, que deixa de ser quem é ou que se torna quem deseja ser ou que se revela finalmente, mas não deixa de estar atolado em subterfúgios.

“Internet. (…) Uma rede para algo que foi enterrado ou que ainda está para ser enterrado; um esconderijo para todas as coisas que preferimos manter secretas nas nossas vidas reais. E no entanto, gostamos de observar, não gostamos? Como num espelho, de maneira confusa, vemos o mundo girar: um mundo povoado de sombras e reflexos, nunca a mais de um clique de rato de distância.”

Nota: 7/10