Muita tinta, escândalos a rodos e um verdadeiro abalo na máquina cinematográfica mundial. Já foi há quase um mês, a 24 de novembro, que os servidores da Sony Pictures Entertainment foram vítimas de um ataque de hackers que levantou o véu sobre 100 terabytes de dados. Nos mesmos consta de tudo um pouco, desde considerações pouco abonatórias sobre DiCaprio e Angelina Jolie, a novos projetos, guiões inteiros e filmes inéditos inteiramente postos na net. Entende melhor o que se passou. 

O lançamento do filme The Interview, entretanto cancelado, terá sido o acender do rastilho. A película retrata dois jornalistas contratados para matar Kim Jong-Un e o regime da Coreia do Norte parece não ter gostado. O FBI identificou os responsáveis pelo ataque cibernético como nacionais do país asiático.

Pelo caminho ficam dezenas de revelações:

O orçamento esticado e os spoilers do novo filme de 007

A correspondência por e-mail sobre o novo filme de Bond revelou a opinião de alguns executivos sobre o roteiro deste, e ainda um esquema revisto pelos mesmos, sobre o guião de todo o filme, que continha diversos spoilers sobre o que se suspeita ser o aparente final da longa-metragem.

Ainda nesses e-mails o presidente da Metro-Goldwyn-Mayer, Jonathan Glickman, mostrou-se preocupado com o orçamento do filme, que acabou por ser superior ao que estava planeado. Foram sugeridas estratégias para o reduzir, como usar menos carruagens de comboio nas cenas de ação ou reduzir a chuva nas cenas de climax, mas todas foram rejeitadas pela produtora do filme, Barba Broccoli.

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The Interview e as ameaças terroristas

Outros e-mails descobertos seriam os trocados entre Seth Rogen e a vice-presidente da SPE, Amy Pascal que mencionavam exigências provenientes do director executivo da Sony, Kazuo Hirai, para que fossem retirados alguns elementos mais violentos do filme em que era mostrada a morte do ficcional Kim Jong-Un.  Posteriores ameaças terroristas da GoP aos cinemas que passassem o filme, e a recusa de cinco das cadeias de filmes mais famosas dos Estados Unidos de o passarem, acabaram por levar a Sony a cancelar o lançamento do filme em qualquer plataforma.

Entretanto, e após ralhete público do Presidente Obama, a produtora veio dizer que procura uma nova forma de levar o filme até aos espetadores de cinema.

Jolie: “Uma menina mimada e sem talento

Antes de Danny Boyle assumir a realização da biografia de Steve Jobs, seria David Fincher o primeiro interessado em realizá-lo, assim como seria Christian Bale a protagonizá-lo, em vez de Michael Fassbender. E no meio de discussões sobre este filme, surgem considerações pouco simpáticas sobre Angelina Jolie.

O produtor Scott Rudin, em conversas com Amy Pascal, afirma não ver importância em Angelina Jolie fazer de Cleopatra no possível remake, considerando-a uma “menina mimada sem talento”, que estava a tornar o processo da realização de Jobs ainda mais complicado, por disputar com este o realizador David Fincher.

Outros e-mails incluem o produtor de Jobs, Mark Gordon, e Pascal a criticarem o “desprezível Leonardo DiCaprio por ter desistido do projeto, e a fazerem considerações sobre o tamanho dos vários talentos de Fassbender.

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Golpada Americana: Discriminação sexual nos pagamentos?

Outras informações revelaram que Amy Adams e Jennifer Lawrence receberam menos 2% das receitas provenientes do lançamento do filme do que os seus colegas do sexo masculino, como Bradley Cooper, Christian Bale e Jeremy Renner. É importante ter em conta a nomeação de ambas para os Oscars – ao contrário de Renner, o que agudiza a falta de sentido da situação.

Descobertas posteriores revelaram ainda que, dos 17 executivos da SPE que ganham mais de um milhão de dólares por ano, apenas um é mulher – Amy Pascal.

Filme de animação do Super Mario

O hack à Sony deixou em aberto as suas tentativas em assegurar os direitos para fazer um filme de animação do jogo Super Mario Bros. No entanto, o produtor envolvido, Avi Arad, não confirmou as tentativas de contrato.

Além do visível empenho da Sony em tornar o ícone dos videojogos numa “estrela de cinema” para durar durante três ou quatro filmes, foi ainda revelada a sugestão de Amy Pascal em colocar Genndy Tartakovsky (Hotel Transylvania) como responsável por este trabalho.

O futuro tremido de Homem-Aranha

Tendo em conta as críticas negativas e a moderada receção comercial a O Fantástico Homem-Aranha 2: O Poder do Electro deste ano, os e-mails feitos públicos revelam discussões sobre o futuro dos direitos da Sony sobre o franchise do Homem-Aranha.

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Revelações que não ficam por aqui: foi descoberto que a Sony e os estúdios Marvel estavam em negociações há algum tempo sobre a possibilidade da primeira “emprestar” o aracnídeo ao filme Capitão América: Guerra Civil. Estas negociações fracassaram, mas outros e-mails têm sugerido a substituição de Andrew Garfield no papel de Peter Parker, e ainda a construção de um filme de animação do Homem-Aranha, com Phil Lord e Chris Miller (O Filme Lego) na produção.

Comentários racistas sobre as preferências cinematográficas de Obama

Uma série de e-mails entre Amy Pascal e Scott Rudin foram revelados, mostrando uma conversa “entre amigos” sobre as possíveis escolhas cinematográficas do presidente dos Estados Unidos. Pascal e Rudin sugerem Django Libertado, e a conversa continua com referências jocosas a outros filmes protagonizados por afro-americanos, como 12 Anos Escravo, O Mordomo, Penso como um Homem e Ride Along.

Nomes de código, crossovers improváveis e joint-venture para prejudicar a Google

Outras revelações passam por um possível crossover de Agentes Secundários e Homens de Negro, sobre os nomes usados por atores em viagem –  Tom Hanks: “Johnny Madrid”, Rob Schneider: “Nazzo Good”, Jessica Alba: “Cash Money”, and Ice Cube: “Darius Stone”, os efeitos que as más críticas a The Monuments Men – Os Caçadores de Tesouros tiveram sobre George Clooney (fazendo-o perder 30 horas de sono) e ainda, comentários desagradáveis de um grande número de empregados da Sony sobre Adam Sandler e as suas produções.

De todas as revelações, talvez a de maior impacto seja sobre o Projeto Golias – empreitada que engloba a participação não só da Sony como da Universal, FOX, Paramount, Warner Bros., Disney e MPAA, consistindo numa investigação que tem o objetivo de arruinar a Google, tendo em conta a sua capacidade de levar os seus utilizadores a acederem a imensos sites de pirataria.

Estas companhias estão também a criar ligações com a Comcast, para que sejam promovidas medidas anti-pirataria. Desta forma, a Sony procurava superar o revés vivido aquando da proposta, em 2012, da polémica SOPA, lei que previa proteger os direitos de autor e acabou crucificada na opinião pública.

As várias revelações põem em causa a credibilidade da SPE e representam já prejuízos de vários milhões de euros em receitas e desenvolvimento de projetos. Os hackers prometeram não ficar por aqui. Apesar do cancelamento de The Interview dizem que ainda têm para a Sony um “presente de Natal”.

Artigo redigido por Patrícia Nunes e Pedro Miguel Coelho.